A Educação Clássica na Era Descartável
Vivemos em uma cultura do descarte. Parece que tudo é projetado para a obsolescência. Empresas fabricam brinquedos que não duram mais de um ano, mas ainda assim é mais barato substituí-los três vezes do que consertá-los. Os consumidores trocam de smartphones anualmente porque as empresas de tecnologia os projetam para falhar, parecendo programar o software para degradar o desempenho do aparelho com o tempo. A cultura do descarte também é predominante no setor de móveis e vestuário. Se você for a uma loja de departamento comprar alguns móveis, eles não durarão quatro anos resistindo aos seus três filhos e cachorro, mas até lá já haverá um novo modelo na moda. A cultura do descarte diz para você simplesmente comprar algo novo. Comprar roupas seguindo as tendências atuais significa que você irá renovar seu guarda-roupa a cada poucos anos, acompanhando as mudanças da moda. A ideia de manter móveis ou roupas por mais de alguns anos é quase impensável. O que acontece com os itens antigos? Muitas vezes, eles não são consertados nem repassados; em vez disso, são simplesmente jogados no lixo.
Mais grave é a atitude descartável da nossa cultura em relação a ideias ou instituições que antes eram consideradas permanentes. Em vez de caráter , falamos de personalidade — um conceito instável e transitório que pode ser reinventado por capricho. O adolescente reinventa-se constantemente, experimentando tendências, roupas, atitudes, posturas e amigos diferentes. Ele troca interesses, modas e motivações sem pensar ou planejar. Nesse modelo de si mesmo, o indivíduo não é revelado, mas forjado — talvez o mais próximo que o homem possa chegar da criação ex nihilo . Porque é criado do nada, ao nada retornará. Não tem valor duradouro. O eu pode ser descartado sempre que a vontade surgir.
Contudo, os autores clássicos partem de um princípio diferente. Das reflexões de Platão ou Aristóteles sobre educação e hábitos às reflexões de Burke sobre as instituições inglesas, os hábitos e o caráter de um homem são muito mais estáveis do que a modernidade admite. Pobreza ou riqueza, sofrimento ou fortuna não transformam um homem; simplesmente revelam a alma como ela já era. A natureza é imutável. Embora a alma possa ser guiada e direcionada, uma vez formada, não é mais tão facilmente moldável quanto argila não queimada. Como nos diz Provérbios 22, 6: “Instrua a criança no caminho em que deve andar, e até quando envelhecer não se desviará dele”.
A educação progressista, no entanto, também opera com base no modelo descartável. Ela se concentra em técnicas e métodos que tornam alunos e professores intercambiáveis. Qualquer professor deveria ser capaz de entrar em qualquer sala de aula e seguir o roteiro para produzir resultados. Por que investir na formação de professores sobre suas respectivas áreas quando eles podem ser tão facilmente substituídos? Além disso, os professores não precisam conhecer seus alunos; basta aplicar a técnica correta. Se uma ideia ou instituição há muito valorizada pela posteridade parece ultrapassada, livre-se dela. Afinal, estamos no século XXI. Substitua-a por alguma moda passageira que não perdure além do próximo ciclo eleitoral.
Em contraste com essa cultura do descarte, existe o ethos clássico. A educação clássica não descarta algo por causa de sua antiguidade, nem se baseia em modismos populares e passageiros. Opiniões mudam, mas a verdade perdura. Mesmo na experiência prática dos seres humanos, o ethos clássico não se volta para a revolução quando algo não funciona corretamente. Ele se apoia nas tradições e instituições que lhe deram vida. Culturas são fáceis de destruir, mas difíceis de construir. Assim, os ideais que perduraram ganham valor à medida que são transmitidos às gerações sucessivas. A educação clássica busca honrar essas ideias, textos e arte. E isso tem consequência.
A distinção entre nossa cultura do descarte e a visão de mundo clássica torna-se evidente na diferença entre um reformador e um revolucionário. O reformador, que personifica a visão conservadora e clássica, deseja trabalhar dentro dos sistemas existentes para refiná-los e ordená-los; o revolucionário, que personifica a cultura do descarte, deve começar algo novo. Ele derruba o tabuleiro do Banco Imobiliário e redistribui o dinheiro. O reformador tem princípios vinculantes que orientam seus esforços; ele não tem mais liberdade para revisá-los do que para se rebelar contra a gravidade. Mas o revolucionário deve criar sem reutilizar nada. Nada do antigo pode permanecer; ele deve começar do zero e criar tijolos sem ferramentas ou materiais. Os revolucionários buscam fazer o impossível, girando a roda de volta ao seu ponto de partida, livres de qualquer precedente.
O impulso revolucionário em direção ao descarte afirma: “Estes livros são antigos. Já não se adequam à nossa cultura. Existem livros melhores que ensinam competências numa linguagem mais apropriada para as nossas crianças. São mais fáceis de entender e ensinam as mesmas coisas que os livros antigos. Não há valor em preservar algo antigo apenas por tradição.” A este argumento, o ethos clássico responde: “Estes livros são antigos e difíceis, e alguns livros modernos apresentam ideias semelhantes. Mas é precisamente a sua diferença que torna os livros antigos valiosos. Eles falam de um ponto de vista externo ao nosso e estão livres dos nossos pontos cegos culturais. Além disso, o seu valor é maior porque resistiram ao desgaste do tempo. Provaram ser excelentes, enquanto ainda aguardamos o julgamento da história sobre os nossos livros modernos.”
Proporcionar uma educação duradoura nada contra a corrente da nossa cultura do descartável. O ideal clássico é difícil, talvez virtualmente inatingível, mas promove uma educação verdadeira. É uma educação voltada para aquilo que perdura. Paga-se um preço mais alto por coisas ou ideais que resistiram ao teste do tempo. Não muda com os tempos nem tentar se adaptar às constantes mudanças do mercado de trabalho. É um esforço atemporal que não pode ser descartado. O progresso exige que continuemos a trilhar os caminhos de nossos antepassados, em vez de buscarmos eternamente um novo começo.
Artigo de Austin Hoffman
Tradução por um Congregado Mariano




