A destruição do Rito Romano Tradicional

Durante a primeira sessão do Concílio Vaticano II, no debate sobre a Constituição Litúrgica, o Cardeal Alfredo Ottaviani perguntou: “Esses Padres planejam uma revolução?!” O Cardeal já estava idoso e parcialmente cego. Ele falou de improviso, sem um texto pronto sobre o assunto que o emocionou profundamente e continuou:

Estamos procurando despertar espanto, ou talvez escândalo entre o povo cristão, introduzindo mudanças em um rito tão venerável, que foi aprovado por tantos séculos e agora é tão familiar? O rito da Santa Missa não deve ser tratado como se fosse um pedaço de pano a ser remodelado de acordo com o capricho de cada geração.

Ele estava tão preocupado com o potencial revolucionário da Constituição, que, não tendo nenhum texto preparado, o cardeal idoso ultrapassou o limite de dez minutos para discursos. A um sinal do cardeal Alfrink, cardeal holandês que presidia a sessão, um técnico desligou o microfone e o cardeal Ottaviani, após apalpar o microfone por alguns segundos, voltou a se sentar, humilhado. Aquele cardeal idoso era ninguém menos que o prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé!

Os padres conciliares aplaudiram com alegria, e os jornalistas – a cuja ditadura o padre Louis Bouyer afirmou que o Concílio se rendera – ficaram ainda mais alegres quando escreveram seus relatórios naquela noite. D. Helder Câmara  descreveu a ocasião como um momento de pura ação do “espírito do Concílio“. Nada mais verdadeiro.

Uma revolução litúrgica havia sido planejada, e pouquíssimos dos três mil bispos presentes na Basílica de São Pedro teriam endossado se suspeitassem de sua verdadeira natureza. A revolução fora planejada antes do Concílio, vinha sendo gestada já há algum tempo e seu manifesto era o esquema preparatório da Liturgia, o documento preliminar que os bispos votariam, depois de discutir e emendá-lo. O documento pode ser chamado apropriadamente de Manifesto Bugnini, pois era principalmente obra do Padre Annibale Bugnini. Ele conseguiu garantir sua aprovação pouco antes de ser demitido pelo Papa João XXIII de seu cargo de secretário da Comissão Preparatória Litúrgica e de sua cadeira na Universidade Lateranense.

Os aliados de Bugnini na Constituição da Liturgia Conciliar, que haviam trabalhado com ele na preparação do esquema, agora tinham a tarefa de assegurar sua aceitação pelos bispos sem quaisquer alterações substanciais. Eles o fizeram com um grau de sucesso que certamente excedeu as maiores expectativas. Eles presumiram que os bispos seriam um conjunto de “idiotas úteis”, homens que preferiam rir em vez de pensar. O riso deles quando o Cardeal Ottaviani foi vergonhosamente silenciado viria a provar que tinham boas razões para crer nisso. “Foi tudo muito divertido“, escreveu Dom Joseph Dwyer, um dos mais eruditos dos bispos americanos, dizendo ainda: “quando vinha a hora de votar, sempre votávamos com nosso partido. Nunca sequer pensamos em votar por nós mesmos, assim poupavamos todo mundo de problemas1.

O falecido Mons. Klaus Gamber, descrito pelo cardeal Ratzinger como “o único erudito que, entre o exército de pseudo-liturgistas, representa verdadeiramente o pensamento litúrgico do centro da Igreja”, informa-nos em seu livro “A Reforma da Liturgia Romana” sobre a atitude dos Padres Conciliares quanto às reformas: “Uma declaração que podemos fazer com certeza é que o Novus Ordo que agora temos não teria sido endossado pela maioria dos Padres Conciliares.”2

Por que então esses bispos endossaram a Constituição da Liturgia? Mons. Lefebvre nos deu a resposta: “Havia bombas-relógio no Concílio.” Essas “bombas-relógio” eram, é claro, as passagens ambíguas inseridas nos documentos oficiais pelos especialistas ou peritos liberais. A resposta à pergunta do cardeal Ottaviani sobre se os padres conciliares estavam planejando uma revolução é que a maioria dos três bispos, com certeza não estavam, mas que alguns dos peritos mais influentes, os especialistas que acompanharam os bispos em Roma, estavam definitivamente planejando uma revolução. Não é exagero afirmar, de modo algum, que o grupo liberal de peritos sequestrou o Concílio.

Douglas Woodruff, um dos maiores estudiosos católicos da Inglaterra, foi editor do The Tablet durante o Concílio. Em um de seus relatórios sobre o Concílio, observa: “Pois, em certo sentido, este Concílio tem sido o Concílio dos Peritos, silenciosos nas aulas conciliares, mas extremamente eficazes nas comissões e nos ouvidos dos bispos3

A maneira pela qual os peritos liberais lançaram as bases para a sua revolução durante a primeira sessão do Concílio foi explicada com precisão pelo cardeal John Heenan de Westminster:

 O assunto mais debatido foi a reforma litúrgica. Pode ser mais correto dizer que os bispos estavam com a impressão de que a liturgia havia sido totalmente questionada. Em retrospecto, é claro que eles tiveram a oportunidade de discutir apenas princípios gerais. As mudanças subsequentes foram mais radicais do que as pretendidas pelo papa João e pelos bispos que aprovaram o decreto sobre a liturgia. Seu sermão no final da primeira sessão mostra que o Papa João não suspeitou do que estava sendo planejado pelos especialistas litúrgicos.

“Deus me livre”, advertiu o Cardeal Heenan, “de os peritos tomarem o controle das comissões estabelecidas depois do Concílio para interpretá-lo para o mundo!”. Mas isso foi precisamente o que aconteceu. Os liberais tinham construído a Constituição da Liturgia como uma arma com a qual iriam iniciar uma revolução, e os Padres Conciliares, risonhos, haviam colocado essa arma nas mãos dos revolucionários que a haviam forjado.

O que os especialistas vinham planejando ficou claro em 24 de outubro de 1967 na Capela Sistina, quando o que foi descrito como a Missa Normativa foi celebrada antes do Sínodo dos Bispos pelo próprio Pe. Annibale Bugnini, seu arquiteto-chefe. Por incrível que pareça, ele havia sido nomeado secretário da Comissão de Liturgia pós-Vaticano II e, portanto, tinha o poder de orquestrar a composição do novo rito de Missa que ele havia imaginado no esquema preparado antes de sua demissão por João XXIII e que tinha sido passado virtualmente inalterado pelos Padres do Concílio. Por que o papa Paulo VI nomeou o homem que havia sido demitido por seu antecessor para essa posição chave é um mistério que provavelmente nunca será respondido. Menos da metade dos bispos presentes votaram a favor da Missa Normativa, mas foram ignorados com a arrogância que se tornaria a característica mais evidente do establishment litúrgico, para o qual os Padres conciliares haviam sido ingênuos o suficiente para confiar a implementação da Constituição da Liturgia.

A Missa Normativa foi imposta aos católicos do rito romano em 1969 como o Novus Ordo Missae, com algumas mudanças, a mais importante das quais foi a restauração do cânon romano com as instruções explícitas do papa Paulo VI. O canon romano, a oração mais sagrada de toda a Igreja, utilizado sem alterações desde pelo menos o século V, foi simplesmente removido da Missa Normativa! Sob muitos protestos, para lá voltou junto a mais uma dezena de “orações eucarísticas”, muito mais “aggiornatas”. Hoje em dia, o Canon está lá. Tem até a dignidade de ser o “primeiro”. Mas quem liga para o Canon Romano?!

Como a maioria dos católicos sabe muito pouco sobre o Movimento Litúrgico, a maior parte dos que lerem o livro do padre Bonneterre (O Movimento Litúrgico – Gueranger a Beauduin a Bugnini) terá uma completa surpresa. Aqueles que conhecem alguma coisa da história do Movimento Litúrgico devem estar cientes de que ele foi endossado pelos papas pré-Vaticano II e podem se surpreender com a força da crítica do Padre Bonneterre e sua insistência de que ele é a fonte e origem da anarquia litúrgica que esvazia nossa igrejas hoje. A conclusão inevitável de seu livro é que o movimento, como o Vaticano II, foi sequestrado por liberais.

Não é preciso ser um estudioso litúrgico para saber que Dom Prosper Guéranger foi um dos maiores liturgistas de todos os tempos, e seus princípios e seu trabalho foram endossados ​​por São Pio X. Ambos podem ser considerados os “fundadores do movimento litúrgico”. A ligação de seus nomes à do arcebispo Bugnini e Dom Beauduin no título do livro implica que eles devem ter alguma responsabilidade pela reforma pós-conciliar, que Monsenhor Gamber resumiu em uma sentença devastadora: “Nesta conjuntura crítica , o tradicional rito romano, com mais de mil anos de idade, foi destruído”.

Padre Bonneterre refuta essa sugestão na introdução de seu livro e também deixa claro seu propósito ao escrevê-lo:

A relação sugerida por tal título pode parecer ousada para o nosso leitor, mas não somos nós que vemos uma ligação entre o autor das Instituições Liturgiques (Dom Guéranger) e o “coveiro da Missa” (Annibale Bugnini). São as próprias autoridades romanas. De fato, o Papa Paulo VI escreveu ao Abade de Solesmes em 20 de janeiro de 1975: “Reconheço a solidez e a influência da obra de Dom Guéranger, na qual o Movimento Litúrgico de hoje saúda seu originador”.

Já o Prefácio da Institutio Generalis do Novo Missal afirmava que as reformas contemporâneas eram a continuação da obra de São Pio X (Nota do tradutor: Imagine!). A conclusão do Prefácio afirma que “o Vaticano II levou a termo todos os esforços para aproximar os fiéis da Liturgia, esforços empreendidos ao longo dos últimos quatro séculos, e especialmente nos últimos tempos, graças ao zelo litúrgico demonstrado por São Pio X e seus sucessores“. Assim, e podemos dar um número infinito de exemplos, os liturgistas mais avançados e a “Igreja Conciliar” afirmam que há continuidade e até mesmo um “desenvolvimento homogêneo” no Movimento Litúrgico entre Dom Guéranger, ou mesmo São Pio X e Annibale Bugnini.

Isso é um engano que não podemos aceitar! É por isso que escrevemos este livro sobre o Movimento Litúrgico. Faremos o possível para mostrar a maneira pela qual o movimento foi desviado de seu curso. Certamente, historicamente Dom Guéranger e São Pio X estão verdadeiramente na origem do Movimento Litúrgico, mas é falso e pernicioso afirmar que esse movimento, pelo menos em suas formas contemporâneas, é derivado de seu pensamento; pior ainda, que é a continuação do seu trabalho. Para expor essa tese, devemos estudar a história do Movimento Litúrgico, reconhecer seus frutos bons, mas também estabelecer, a partir de evidências externas, os primeiros desvios desse empreendimento grandioso que poderia ter trazido tanto à Igreja.

Para São Pio X e Dom Guéranger, escreve o padre Bonneterre, “a liturgia é essencialmente teocêntrica; é para a adoração de Deus e não para o ensino dos fiéis. No entanto, este grande pastor destacou um aspecto importante da liturgia: é educativo do verdadeiro espírito cristão. Saliente-se, porém, que essa função da liturgia é apenas secundária.” A tragédia do movimento litúrgico foi que faria desse aspecto secundário da liturgia o aspecto primário, como se manifesta hoje em qualquer celebração paroquial típica da Missa Nova.

O mérito de ter entendido o que poderia ser aprendido dos ensinamentos de São Pio X cabe a Dom Lambert Beauduin (1873-1960). Infelizmente, este monge foi incapaz de manter durante sua vida esta hierarquia dos fins da liturgia, isto é, adorar primeiro, ensinar segundo. Dom Lambert Beauduin, a princípio, foi um sacerdote da diocese de Liège, um “missionário operário” do Papa Leão XIII. Em 1906, com a idade de trinta e três anos, ele entrou na Abadia de Mont-César, fundada pelos monges de Maredsous em Lovaina alguns anos antes (1899). Por causa de sua atividade anterior como padre secular, sua mente se tinha ocupado habitualmente pelos problemas do apostolado e do trabalho pastoral, e assim ele via a liturgia à luz de suas preocupações habituais. Muito rapidamente ele “descobriu” na liturgia, pretensamente seguindo São Pio X, um método maravilhoso para formar os fiéis na vida cristã. Em 1909, ele lançou um movimento litúrgico em Mont-Cesar, que foi um sucesso imediato.

É, no entanto, importante definir o Movimento Litúrgico no contexto da crise modernista documentada no livro Partisans of Error. Padre Bonneterre escreve:

Esmagados por São Pio X, os modernistas entenderam que não podiam penetrar na Igreja pela teologia, isto é, por uma clara exposição de suas doutrinas. Recorreram à noção marxista de práxis, entendendo que a Igreja poderia tornar-se modernista através da ação, especialmente através da ação sagrada da liturgia. As revoluções sempre usam as energias vivas do próprio organismo, tomando o controle delas pouco a pouco e finalmente as usando para destruir o corpo sob ataque. É o processo bem conhecido do cavalo de Tróia.

O Movimento Litúrgico de Dom Guéranger, de São Pio X, e dos mosteiros belgas, pelo menos na sua origem, era uma força considerável na Igreja, um “meio prodigioso de rejuvenescimento espiritual” que, além disso, produzia aparentemente bons frutos. O movimento litúrgico foi, assim, o cavalo de tróia ideal para a revolução modernista. Era fácil para todos os revolucionários se esconderem no ventre de uma carcaça tão grande. Antes da Mediador Dei, quem entre a hierarquia católica estava preocupado com a Liturgia? Que vigilância foi aplicada para detectar essa forma particularmente sutil de modernismo prático?

Foi a partir da década de 1920 que se tornou claro que o Movimento Litúrgico havia desviado de seus objetivos ​​originais:

Dom Beauduin antes de tudo favoreceu de forma exagerada o aspecto de ensino e pregação da liturgia, e então concebeu a idéia de fazê-lo servir ao “Movimento Ecumênico” ao qual ele era devotado corpo e alma. Dom Parsch vinculou o movimento à renovação bíblica. Dom Casel fez dela o veículo de um antiquarismo fanático e de uma concepção completamente pessoal do “mistério cristão”. Esses primeiros revolucionários foram em grande parte surpreendidos pela geração dos novos liturgistas das várias comissões litúrgicas pré-conciliares.

Essa nova geração é descrita pelo padre Bonneterre como os “jovens lobos”. Em qualquer revolução, é quase rotineiro que os primeiros revolucionários moderados sejam substituídos ou até mesmo erradicados por revolucionários mais radicais, como aconteceu com a Revolução Russa quando os mencheviques (maioria) foram expulsos pelos bolcheviques (minoria).

Diante dessa aceleração excessiva do movimento, Dom Beaudin ficou assustado… Testemunhamos aqui os primeiros fenômenos de “excessos permanentes”, uma característica de todas as revoluções: os líderes de ontem são surpreendidos pelos agitadores de hoje; os primeiros revolucionários são vencidos pelos novos agitadores. Assim como nada poderia impedir a ascensão ao poder dos bolcheviques, nada poderia impedir o triunfo dos jovens lobos:

Depois da Segunda Guerra Mundial, o movimento tornou-se uma força que nada poderia parar. Protegidos do alto por prelados eminentes, os novos liturgistas tomaram pouco a pouco o controle da Comissão para a Reforma da Liturgia fundada por Pio XII e influenciaram as reformas elaboradas por esta Comissão no final do pontificado de Pio XII e no início da de João XXIII. Já mestres, graças ao Papa, da comissão litúrgica pré-conciliar, os novos liturgistas conseguiram que os Padres do Concílio aceitassem um documento contraditório e ambíguo, a constituição Sacrosanctum Concilium. Papa Paulo VI, Cardeal Lercaro e pe. Bugnini, eles mesmos membros muito ativos do Movimento Litúrgico italiano, dirigiram os esforços do Consilium que culminaram na promulgação da Nova Missa.

Como pôde o Papa Pio XII permitir que os jovens lobos do movimento litúrgico consolidassem seu poder durante seu pontificado? O padre Bonneterre deixa claro que esse pontífice estava bem ciente dos elementos subversivos dentro do Movimento Litúrgico. Em sua encíclica Mediator Dei, talvez a mais sublime exposição da verdadeira natureza da missa a ser escrita, o Papa Pio XII escreveu: “Observamos que certas pessoas gostam muito de novidades e se desviam dos juramentos da sã doutrina e prudência. Eles mancham essa causa sagrada com erros, erros que afetam a fé católica e o ensino ascético.”. A crítica, porém, sem condenações, não surtiu efeito nenhum. Mais que isso, em Assis (Nota do Tradutor: logo Assis!), o Papa Pio XII fez, talvez por não entender a gravidade do problema, um encorajamento inoportuno:

O Movimento Litúrgico é como uma indicação dos planos da providência divina para o tempo presente, como o vento do Espírito Santo que sopra através da Igreja, aproximando os homens dos mistérios da fé e dos tesouros da graça, que fluem do mundo ativo. participação dos fiéis na vida litúrgica

Esta declaração poderia ter sido verdadeira antes de 1920, mas em 1956 já não era assim. Nos anos seguintes, o Movimento Litúrgico negou suas pretensas origens e abandonou os princípios estabelecidos por Dom Guéranger e São Pio X.

O mais influente dos novos liturgistas, o grande arquiteto da revolução litúrgica pós-Vaticano II, foi o padre Annibale Bugnini, um revolucionário mais inteligente que os outros, que matou a liturgia católica antes de desaparecer da cena oficial. Foi nessa época que a “Anti-Igreja” invadiu completamente o Movimento Litúrgico. Até então, o Movimento havia sido ocupado pelas forças modernistas e ecumênicas; depois da Guerra, ele estava podre o bastante para a Maçonaria tomar o controle direto das rédeas: Satanás entrou no Cavalo de Tróia.

A referência à Maçonaria baseia-se no fato de que, em 1975, o Papa Paulo VI removeu Bugnini, então Arcebispo, de sua posição como Secretário da Sagrada Congregação para o Culto Divino e os Sacramentos, dissolveu toda a Congregação e em 1976 o exilou para nunciatura do Irã. Pretensamente por ter descoberto que ele era maçom. Infelizmente, seu magnus opus, a Missa Nova, não foi exilada juntamente.

Padre Bonneterre continua:

Embora as reformas de Pio XII tivessem dado satisfação aos líderes do Movimento, a ortodoxia que o papa havia mantido em toda a parte não era do gosto deles. Reformas novas e mais ousadas eram necessárias, e precisavam de um papa que entendesse o problema do ecumenismo e que fosse um partidário sincero do Movimento.

A notícia da morte do Pastor Angélico foi recebida com alegria quase delirante pelo Desencaminhado Movimento Litúrgico. O idoso Dom Lambert Beauduin não tinha a menor dúvida sobre o cardeal que ele esperava que fosse eleito, e confidenciou suas esperanças ao padre Bouyer:

Se eles elegerem Roncalli”, disse, “estamos todos salvos. Ele será capaz de chamar um Concílio e canonizar o ecumenismo“. Após um tempo em silêncio, então, com o retorno de sua antiga malícia, ele disse com os olhos brilhantes:”Acredito que temos uma boa chance. A maioria dos cardeais não sabe o que fazer. Eles são capazes de votar nele.”

Consagrar o ecumenismo, sim, de fato, mas também consagrar o Movimento Litúrgico, tal seria a tarefa do tão esperado Concílio. Por mais de quarenta anos, os novos liturgistas espalharam seus erros, conseguiram influenciar uma parte considerável da hierarquia católica e conseguiram algumas reformas encorajadoras pela Santa Sé, dentre elas, a mais importante, a Reforma da Semana Santa, que pode bem ser vista como um prenúncio da Missa Nova.

Todo esse trabalho clandestino paciente estava prestes a dar frutos. Os revolucionários litúrgicos aproveitaram a Constituição da Liturgia para propagar suas idéias. Então, quando foram nomeados membros do Consilium, tiveram apenas que tirar conclusões extremas dos princípios do Vaticano II:

Esse novo rito, por sua vez, carrega todos os erros que surgiram desde o início dos desvios do “Movimento”. Este rito é ecumênico, antiquário, comunitário, democrático e quase totalmente dessacralizado; ecoa também os desvios teológicos dos modernistas e dos protestantes: atenua o sentido da presença real e a diminuição do papel ministerial do sacerdócio, do caráter sacrificial da missa e, especialmente, de seu caráter propiciatório. A Eucaristia se torna muito mais um banquete de amor comunal do que a renovação do Sacrifício da Cruz.

Foi assim com a Nova Missa que o Movimento Litúrgico, que havia começado aparentemente bem, terminou tão mal. A liturgia de 1959 da comunidade Protestante de Taizé mostra algumas semelhanças perturbadoras com a Missa Nova. No entanto, o Padre Bonneterre não se refere à alarmante semelhança das mudanças, principalmente omissões, feitas ao Missal de São Pio V no Missal de 1970 e as omissões quase idênticas do Missal Sarum feitas por Thomas Cranmer ao inventar seu Serviço de Comunhão de 1549. Tampouco se refere à igualmente alarmante semelhança entre os princípios litúrgicos que permeiam a missa de Paulo VI e os do pseudo-sínodo de Pistoia, condenados como perniciosos pelo papa Pio VI em sua encíclica Auctorem Fidei de 1794.

Em 1975, o padre Bouyer declarou:

A liturgia católica foi derrubada sob o pretexto de torná-la mais aceitável para as massas secularizadas, mas, na realidade, isto aconteceu para conformar-se com as palhaçadas que as ordens religiosas impuseram, quer gostassem ou não, sobre o clero secular. Não precisamos nem esperar pelos resultados: um súbito declínio na prática religiosa, variando entre vinte e cinquenta por cento entre aqueles que eram católicos praticantes… Aqueles que não eram praticantes, não apresentavam nenhum vestígio de interesse nesta liturgia pseudo-missionária, particularmente os jovens que eles se iludiram em pensar que ganhariam com suas macaquices

Esta foi, de fato, a destruição da Missa Romana.

Padre Joseph Gelineau, um padre progressista, descrito pelo arcebispo Bugnini como um dos “grandes mestres do mundo litúrgico internacional”, nos diz, com louvável honestidade, mas sem nenhum vestígio de arrependimento:

Que aqueles que como eu tenham conhecido e cantado uma missa latina gregoriana, lembrem-se disso, se puderem. Deixe-os comparar com a missa que temos agora. Não apenas as palavras, as melodias e alguns gestos são diferentes. Para dizer a verdade, é uma liturgia diferente da Missa. ISSO PRECISA SER DITO SEM AMBIGUIDADE: O RITO ROMANO, COMO NÓS CONHECÍAMOS, NÃO EXISTE MAIS. ELE FOI DESTRUÍDO.4

Michael Davies em The Destruction of Traditional Roman Rite
Tradução e adaptação por um congregado mariano

  1. O Concílio do Papa João, Michael Davies, p. 93
  2. Pag. 61
  3. Idem, ib. Cap. 5
  4. Le rite romain tel que nous l’avons connu  n’existe  plus. il est détruit
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