Sermão para a Festa de São Bartolomeu Apóstolo

“Eis verdadeiramente um israelita, em quem não há dolo.”

Caríssimos irmãos, Há homens que passam pela História. Há homens que deixam uma marca na História. E há homens que recebem de Cristo uma missão tão grande que, depois deles, a própria História já não pode ser compreendida sem o seu testemunho. Assim foi São Bartolomeu. Um dos Doze. Um dos homens que Nosso Senhor escolheu para estar junto d’Ele, aprender d’Ele, sofrer com Ele e, finalmente, levar o Seu Nome até os confins da terra.

Mas o Evangelho nos oferece uma palavra particularmente misteriosa sobre este Apóstolo. Quando Filipe conduz Bartolomeu até Jesus, Nosso Senhor olha para ele e diz:

“Ecce vere Israelita, in quo dolus non est.”

“Eis verdadeiramente um israelita, em quem não há dolo.”

Que elogio extraordinário!

Cristo poderia ter dito muitas coisas. Poderia ter elogiado sua inteligência. Poderia ter elogiado sua coragem. Poderia ter elogiado sua eloquência. Mas escolheu destacar uma coisa:

não havia dolo em seu coração.

Bartolomeu era um homem inteiro. Sem duplicidade. Sem máscaras. Sem duas faces.

Sem uma verdade para Deus e outra para os homens.

Aquilo que era diante de Deus, era diante dos homens.

E talvez seja justamente por isso que Nosso Senhor o quis como Apóstolo. Porque para levar o Evangelho ao mundo é preciso primeiro possuir um coração que não negocie com a verdade.


Quando Filipe lhe anuncia: “Encontramos aquele de quem Moisés escreveu na Lei e também os Profetas: Jesus de Nazaré.” Bartolomeu pergunta: “De Nazaré pode sair alguma coisa boa?”

Pergunta humana. Pergunta espontânea. Pergunta quase desconfiada. Mas há uma coisa admirável:

ele vai ver.

Não fica preso ao preconceito. Não diz: “Eu já sei.” Não diz: “Isso não pode ser.” Vai.

E quando chega diante de Cristo, tudo muda. Porque há uma diferença enorme entre ouvir falar de Jesus e encontrar Jesus. E talvez essa seja a primeira grande lição de São Bartolomeu para nós. A fé católica não é uma coleção de opiniões religiosas. Não é uma filosofia entre tantas. Não é simplesmente uma tradição cultural.

É o encontro com uma Pessoa: Jesus Cristo.


E quando Bartolomeu encontra Cristo, Cristo lhe revela algo extraordinário: “Antes que Filipe te chamasse, quando estavas debaixo da figueira, eu te vi.”

“Eu te vi.” Que palavra! Bartolomeu pensava estar sozinho. Mas não estava. Pensava que ninguém o conhecia. Mas Cristo o conhecia. Pensava que estava procurando Jesus. Mas descobre que, antes de procurar Jesus,

Jesus já o procurava.

E aqui está o mistério de toda vocação.

Nós pensamos: “Eu encontrei Deus.” Mas, olhando mais profundamente, descobrimos: Deus já estava me procurando.

Nós pensamos: “Eu escolhi seguir Cristo.” Mas foi Cristo quem primeiro disse: “Vem e segue-me.”

Nós pensamos: “Eu vim até a Igreja.” Mas foi a Igreja que, por meio de Cristo, veio até nós. E depois começa a missão.

Bartolomeu recebe do Senhor uma ordem que não era pequena:

“Ide por todo o mundo, pregai o Evangelho a toda criatura.”

Todo o mundo. Não somente Jerusalém. Não somente a Galileia. Não somente aqueles que já acreditavam. Todo o mundo. O Evangelho não poderia ficar confinado. A verdade não poderia permanecer escondida. A Redenção não poderia ser propriedade de um pequeno grupo. Cristo morreu por todos. E os Apóstolos deveriam levar essa notícia até os confins da terra.


E aqui, meus irmãos, permitam-me fazer uma pequena pausa.

Porque estamos hoje celebrando São Bartolomeu aqui, na Amazônia.

Aqui, em Manaus.

Aqui, onde muitos poderiam imaginar que determinadas manifestações da Tradição Católica seriam estranhas, distantes, improváveis. Mas a festa de São Bartolomeu nos diz exatamente o contrário:

não existe lugar remoto demais para o Evangelho.

Não existe floresta tão distante que Cristo não possa alcançar. Não existe rio tão largo que a graça não possa atravessar. Não existe cidade tão distante dos antigos centros da cristandade que a fé apostólica não possa florescer ali. Porque o Evangelho não pertence a Roma. Não pertence à Europa. Não pertence à Ásia. Não pertence à América.

O Evangelho pertence a Cristo.

E Cristo pertence a todos os homens.


Quando olhamos para o mapa, Manaus pode parecer distante de Jerusalém. Mas quando olhamos com os olhos da fé, a distância desaparece. Porque entre Jerusalém e Manaus existe uma mesma Igreja. Um mesmo Batismo. Uma mesma Fé. Um mesmo Sacrifício. Um mesmo Cristo. Uma mesma Eucaristia. Uma mesma doutrina. Uma mesma sucessão apostólica. Uma mesma esperança do Céu.

A geografia separa os homens; a Igreja os reúne.

E São Bartolomeu, que recebeu a ordem de levar Cristo para longe, parece dizer hoje a cada um de nós:

“Não vos pergunteis se este lugar é longe demais. Perguntai apenas se existem almas que precisam conhecer Cristo.”

E existem.


Mas São Bartolomeu não levou ao mundo um Evangelho inventado por ele.

Não levou uma religião adaptada às preferências dos povos.

Não levou uma doutrina modificada para tornar-se mais agradável.

Levou aquilo que havia recebido.

E aqui está uma palavra especialmente importante para nós.

A verdadeira Tradição não é simplesmente o amor por coisas antigas.

A palavra traditio significa entrega, transmissão.

Receber e entregar. Receber dos que vieram antes. Guardar. E entregar aos que virão depois. Por isso, meus irmãos, quando alguém pergunta:

“Por que conservar a Tradição?”

A resposta de São Bartolomeu seria muito simples:

“Porque não somos donos daquilo que recebemos.”

Somos depositários. O Apóstolo não recebeu o Evangelho para modificá-lo. Recebeu-o para anunciá-lo. Não recebeu Cristo para adaptá-Lo. Recebeu Cristo para entregá-Lo. Não recebeu a verdade para submetê-la ao gosto dos homens. Recebeu a verdade para submeter-se a ela.

E é aqui que a figura de São Bartolomeu começa a tornar-se ainda mais impressionante. Porque, segundo a antiga tradição, depois de anunciar o Evangelho em diversas regiões, Bartolomeu chegou finalmente ao extremo da fidelidade. E o seu martírio é um dos mais terríveis e impressionantes da tradição apostólica. A tradição cristã, preservada desde a Antiguidade, afirma que ele foi esfolado vivo e depois decapitado. A Igreja, portanto, representa-o frequentemente segurando nas mãos aquilo que nenhum homem gostaria de contemplar:

a própria pele.

Que imagem terrível! Mas permitam-me transformá-la numa imagem espiritual. Bartolomeu perdeu a pele. Mas não perdeu a fé. Perdeu a carne. Mas não perdeu Cristo. Perdeu a vida. Mas ganhou a eternidade.

Arrancaram-lhe a pele, mas não conseguiram arrancar-lhe a verdade do coração.


E talvez esta seja a grande mensagem de São Bartolomeu para nós. Porque há homens que não suportam perder uma comodidade por causa da verdade. Bartolomeu perdeu a própria pele. Há homens que não suportam ser incompreendidos. Bartolomeu foi perseguido. Há homens que abandonam a verdade quando ela lhes traz alguma dificuldade. Bartolomeu permaneceu fiel até o sangue. Há homens que querem uma religião sem sacrifício. Bartolomeu aprendeu no próprio corpo que seguir Cristo significa também carregar a cruz. E por isso seu martírio parece gritar para nós:

“Não negocieis aquilo que Deus vos confiou.”


Caríssimos irmãos, talvez hoje Deus não nos peça o martírio de sangue. Mas pode pedir algo igualmente difícil:

o martírio da fidelidade cotidiana.

Pode pedir que permaneçamos católicos quando ser católico não for conveniente. Pode pedir que eduquemos nossos filhos na Fé quando o mundo ensinar o contrário. Pode pedir que defendamos a verdade quando ela for ridicularizada. Pode pedir que conservemos a pureza quando a impureza for apresentada como normal. Pode pedir que ajoelhemos quando outros permanecerem de pé. Pode pedir que rezemos quando outros zombarem. Pode pedir que sejamos diferentes quando todos quiserem que sejamos iguais. Pode pedir que permaneçamos fiéis quando a fidelidade custar. E então precisamos olhar para Bartolomeu.

Se ele entregou a pele, nós podemos entregar o orgulho.

Se ele entregou o sangue, nós podemos entregar nossa comodidade. Se ele entregou a vida, nós podemos entregar nossa vontade.


E há uma última coisa que me impressiona profundamente. Cristo disse:

“Eis verdadeiramente um israelita, em quem não há dolo.”

Talvez esta seja a verdadeira grandeza de São Bartolomeu. Ele não foi apenas um homem que morreu heroicamente. Foi um homem que viveu sem dolo. Porque o martírio começa antes da morte. Começa quando a alma aprende a ser inteira. O mártir não nasce no momento em que derrama o sangue. Nasce no momento em que decide:

“Não vou negar Cristo.”

E essa decisão precisa ser tomada todos os dias.


Meus irmãos de Manaus, talvez a Providência tenha uma razão muito particular para que São Bartolomeu seja honrado hoje aqui. Porque este Apóstolo nos lembra que a missão da Igreja nunca termina. Sempre há uma margem além da margem. Sempre existe uma alma além da nossa porta. Sempre existe um lugar onde Cristo ainda precisa ser anunciado. São Bartolomeu partiu para lugares que talvez jamais tivesse imaginado. Nós estamos aqui. Ele atravessou terras e povos. Nós temos diante de nós uma cidade inteira. Ele levou o Evangelho até onde podia chegar.

Nós também somos enviados.

Não pensemos: “Somos poucos.” Os Apóstolos também eram poucos. Não pensemos: “Estamos longe.” Bartolomeu também foi longe. Não pensemos: “É difícil.” O Evangelho nunca foi uma obra fácil. Não pensemos: “Quem ouvirá?” A nós cabe anunciar.

A Deus cabe dar o crescimento.

Hoje, portanto, diante do altar, peçamos: São Bartolomeu, dai-nos um coração sem dolo. Um coração inteiro. Um coração católico. Um coração que não diga uma coisa a Deus e outra ao mundo. Dai-nos a coragem de Filipe, que chamou o amigo:

“Vem e vê.”

Dai-nos a fé de Bartolomeu, que foi ver. Dai-nos a fidelidade dos Apóstolos, que receberam e transmitiram. E dai-nos, se Deus assim o quiser, a coragem dos mártires:

a coragem de permanecer fiéis quando a fidelidade custar.


E quando algum dia alguém perguntar:

“Como pode a Tradição Católica florescer tão longe dos antigos centros da cristandade?”

Nós poderemos simplesmente responder:

“Porque Cristo não conhece distâncias.”

Porque o mesmo Evangelho que chegou a Jerusalém, chegou a Roma. O mesmo Evangelho que chegou a Roma, atravessou os séculos. O mesmo Evangelho que atravessou os séculos, atravessou oceanos. O mesmo Evangelho que atravessou oceanos, chegou à Amazônia. E hoje, às margens dos grandes rios desta terra,

Cristo continua sendo anunciado.

Aqui também existe uma Igreja. Aqui também existem almas que desejam o Céu. Aqui também há crianças que precisam aprender a rezar. Aqui também há famílias que precisam ser santificadas. Aqui também há jovens chamados à santidade. Aqui também há sacerdotes que precisam de coragem. Aqui também existe um povo que pode dizer com São Bartolomeu:

“Rabbi, tu es Filius Dei; tu es Rex Israel.”

“Mestre, Vós sois o Filho de Deus; Vós sois o Rei de Israel.”

E esta será a nossa resposta. Não importa quão longe estejamos. Não importa quão poucos sejamos. Não importa quanto custe.

Cristo é Rei também aqui.

E a Igreja é também aqui. E a Tradição pode também aqui florescer. E o Evangelho deve também daqui alcançar outras almas. Porque São Bartolomeu nos ensinou uma coisa que vale para todos os tempos:

quando recebemos Cristo verdadeiramente, não podemos guardá-Lo somente para nós.

É preciso partir. É preciso anunciar. É preciso perseverar. É preciso, se necessário, sofrer. E, finalmente,

é preciso morrer pertencendo inteiramente a Cristo.

Que São Bartolomeu nos alcance essa graça. E que, quando chegar a hora de nossa última batalha, possamos ter um coração tão inteiro quanto o seu e dizer:

“Senhor, Vós me vistes antes que eu Vos procurasse. Agora, depois de Vos ter encontrado, já não quero perder-Vos jamais.”

São Bartolomeu, Apóstolo e Mártir, rogai por nós.

Nossa Senhora, Rainha dos Apóstolos, rogai por nós.

São José, Padroeiro da Igreja, protegei-nos.

E que Nosso Senhor Jesus Cristo seja conhecido, amado, adorado e servido, até os confins da terra. Amém.

 

Padre Bráulio Maria, na Festa de São Bartolomeu Apóstolo, dia 24 de Agosto de 2026.

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