A Purificação de Nossa Senhora

A antiga Lei

Segundo a lei judaica, a mulher que concebesse um filho homem permaneceria impura durante os quarenta dias seguintes ao parto1, devendo ela abster-se de todas as atividades no templo ou cerimônias de caráter público durante este período.

Passados os quarenta dias, era necessário que a mãe apresentasse um cordeiro de um ano em holocausto por sua purificação, e uma pombinha ou rolinha em sacrifício pelo pecado. Se fosse ela de uma família pobre, era necessário somente um par de pombinhas ou rolinhas.

Por fim, tratando-se de menino e sendo o primogênito, era levado ao templo e colocado diante de Deus, oferecido a Ele por obrigação como algo sagrado por causa da imunidade dos primogênitos hebreus concedida por Deus quando o primogênito do Faraó e os egípcios foram feridos pelo anjo no tempo de Moisés. No entanto, a criança oferecida poderia ser resgatada com o pagamento de cinco siclos (Num III, 47).

 

A Purificação de Nossa Senhora

Pode-se inferir que na antiga lei a mulher adquiria uma impureza natural pela gestação e pelo parto, bem como pela condição do pecado original na qual a criança nascia.

Contudo, Nossa Senhora, sendo imaculada e virgem antes, durante e depois do parto, não sofreu qualquer impureza durante a concepção e nascimento de Nosso Senhor. Por isso, não havia necessidade de que realizasse o rito da purificação, pois não tinha incorrido em corrupção como as outras mulheres.

Todavia, no evangelho de São Lucas, descreve-se que se tendo preenchido os dias da purificação de Nossa Senhora segundo a lei de Moisés, levaram Cristo a Jerusalém, para o apresentarem ao Senhor (Lc II,22).

Mesmo na condição perfeitíssima em que se encontrava, em um ato de intensa humildade, pondo-se no lugar de todas as outras mulheres, a Virgem Santíssima realizou o rito da purificação, escondendo assim sua Virgindade e concepção pelo Espírito Santo. Nossa Senhora fez como Seu Filho perfeitíssimo que já havia se posto sob o jugo da lei pela circuncisão.

Este ato acaba sendo um dos mais expressivos de Nossa Senhora em penitenciar-se pelos pecados de todos os homens, pois ela mesmo não tinha um sequer. Santo Afonso considera o valor do presente ato da Virgem:

Abraão mostrou-se pronto a oferecer seu filho a Deus. Essa disposição foi tão agradável ao Senhor, que lhe prometeu em recompensa multiplicar os seus descendentes como as estrelas do céu. “Pois que tu fizeste esta ação, e que por me obedeceres não perdoaste a teu filho único, eu te abençoarei e multiplicarei a tua raça como as estrelas do céu” (Gn 22,16ss.). Diante disso devemos crer com certeza que muito mais grato foi ao Senhor o sacrifício incomparável, que de Jesus lhe fez a excelsa Mãe. Por isso foi a ela concedido que, pelas suas súplicas, se multiplique o número dos escolhidos, isto é, a afortunada descendência dos seus filhos. Pois como tais considera e protege todos os seus servos.2

No versículo 24 do 2º capítulo de S. Lucas, depreende-se ainda a pobreza na qual vivia a Família de Nazaré, já que apresentaram duas pombinhas ou rolinhas para o holocausto. Sabe-se que um pouco antes, Nosso Senhor havia recebido presentes valiosos dos três reis magos, mas a tradição aponta que a grande maioria do ouro foi distribuído aos pobres, tendo Nossa Senhora ficado com uma pequena parte somente.

 

A Apresentação do Menino Jesus no Templo

A Santíssima Virgem, segurando Cristo nas mãos, de joelhos, ofereceu-O a Deus com a maior reverência e devoção, dizendo: “Oh! Ó Pai Eterno, este é o Teu Filho que desejou tirar-me carne para a salvação. Eu te entrego, e a Vós e O ofereço inteiramente, para que faças com ele e comigo o que for do Vosso agrado, e por Ele redimirás o mundo”3.

Assim dizendo, ela apresentou-o ao sacerdote quanto ao representante de Deus; e então ela o redimiu com cinco siclos, como a lei prescreveu.

Na belas palavras de São Bernardo sobre o valor da apresentação do Santo Menino:

Pois, neste dia, foi oferecido ao Criador “o nobre fruto da terra” (Is. IV, 2); neste dia a “Vítima expiatória” (Num. V, 8), “Vítima aceitável para Deus” (I Pd II, 5), foi trazido ao templo por Seus pais, foi esperado pelos anciãos santos, e foi apresentado ao Senhor pelas mãos virginais de Maria. Maria e José vieram para “oferecer o sacrifício de louvor” (Sl. CVI, 22), a verdadeira “oblação matinal” (Ex. XXIX, 41), ao passo que Simeão e Ana receberam o Salvador criança em seus braços. Estas quatro pessoas formaram o cortejo o qual se é comemorado hoje com festividades alegres ao longo dos quatro cantos da terra.4

A verdade é que diferentemente dos outros primogênitos, Nosso Senhor não foi simbolicamente resgatado, pois Nossa Senhora entregou-o a Deus sem reservas, de modo que Seu destino pudesse se cumprir, ou seja, Sua Vida fosse entregue para redenção dos homens – “Não perdoou a seu próprio Filho, mas entregou-o por nós todos” (Rm 8,32).

  1. No caso de filhas mulheres, o prazo de separação era de 80 dias (Cf. Lv XII)
  2. Glórias de Maria, pg. 242, Santo Afonso Maria de Ligório.
  3. The Great Commentary of Cornelius à Lapide, S. Luke’s Gospel, pg. 106.
  4. Segundo Sermão da Purificação de Nossa Senhora, São Bernardo.
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