Coração de Jesus amigo das almas castas
Coração de Jesus, amigo das almas castas
O Coração de Jesus consagra afeto especial às virgens e almas puras; elas lhe são tão caras como os anjos. Tais são os atrativos da virtude da castidade; também, diz Santo Ambrósio, aquele que a guarda, é um anjo, aquele que a perde, um demônio. Uma alma casta é a esposa predileta do Coração de Jesus: Eu prometi a Jesus Cristo, diz São Paulo, apresentar-lhe vossas almas coma esposas castas (2Cor 11,2). Escrito está que o Esposo divino se nutre entre os lírios (Ct 2,16). Estes lírios são as almas que se conservam puras para agradar a Deus. Um intérprete nota sobre esta passagem dos Cânticos, que, como o demônio se sustenta das manchas da impudicícia, assim o Coração de Jesus se nutre dos lírios da castidade.
Esta virtude, alcançada em grau supremo, é que formou a união mais íntima entre Jesus e Maria, a virgem das virgens. Esta união de amor foi tal, que, como Maria mesma revelou a Santa Brígida, seu Coração não formava senão um com o Coração de Jesus. Esta virgem incomparável pareceu tão bela aos olhos do Senhor, que ele ficou arrebatado por sua beleza, e por isso lhe chama sua única pomba, sua única perfeita (Ct 6,3). Quanto mais um coração é puro, diz Santo Alberto Magno, tanto mais se enche de amor divino. Daí vem que o amor sagrado feriu e traspassou de tal modo o Coração de Maria, que não ficou parte alguma dele que não fosse abrasado. São Bernardino atesta que ela nunca foi tentada pelo inferno; porque, diz ele, como as moscas afastam-se de um fogo grande, assim os demônios eram repelidos para longe do Coração de Maria, que era uma chama de caridade tão intensa, que eles não ousavam aproximar-se dela. Seu sono mesmo não a impedia de amar a Deus atualmente. Ela podia então dizer com seu divino Filho: Eu durmo e meu Coração vela (Ct 5,2), meu Coração ama, meu Coração não cessa de ser unido ao Coração de meu Amado. Ó efeitos admiráveis da pureza!
A grande pureza de São José é que lhe mereceu a glória incomparável de ser escolhido para pai nutrício de Jesus; sua pureza mereceu-lhe a felicidade de viver na intimidade do Filho de Deus, de ser ternamente amado por ele, de poder tantas vezes estreitar sobre seu coração o Coração ardente de Jesus Cristo. Ah! que afetos deviam penetrar o coração de José, quando levava em seus braços este amável Menino, e lhe fazia ou recebia ternas carícias, e ouvia sair de sua boca as palavras de vida eterna, que, como outros tantos dardos inflamados, abrasavam sua bela alma! Entre as pessoas que se amam, muitas vezes o amor esfria à medida que a frequência é maior, porque quanto mais os homens conversam, tanto mais descobre um os defeitos do outro.
Isto não sucedia com José: quanto mais ele conversava com Jesus, mais admirava sua santidade, e quanto mais o admirava, mais o amava. Ele teve o favor inefável, depois de ter apertado a Jesus tantas vezes contra seu coração, de exalar o último suspiro nos braços e sobre o Coração de Jesus: Tais foram as relações deste esposo virgem com seu Deus.
São João era o discípulo amado de Jesus, porque primava na pureza. Na última ceia, ele teve a ventura de reclinar a cabeça sobre o peito e o Coração do seu divino Mestre (Jo 13,25). Ó discípulo de predileção, vós sentistes então toda a ternura do Coração ardente de Jesus para com aqueles que o amam!… Se queremos também tornar-nos caros ao Coração de Jesus e merecer suas ternas consolações, procuremos primar na castidade, sabendo que todas as riquezas da terra não são nada em comparação de uma alma casta (Eclo 26,20). Por ser maior o valor desta virtude, mais terrível é a guerra que a carne faz ao homem para lhe arrebatar este tesouro.
Para conservá-lo, pois, é necessário empregar toda a vigilância possível.
Primeiro, é necessário fugir da ocasião. Fugi do pecado, diz o Espírito Santo, como se foge de uma serpente (Eclo 21,2). Não se contenta de fugir da mordedura das serpentes; foge-se de seu contato, foge-se até de sua vizinhança.
Se pessoas há que podem ser para nós ocasião de queda, devemos fugir até de sua presença e conversação. O casto José não quis nem escutar o que a mulher de Potifar tinha começado a lhe dizer: fugiu logo, persuadido que era perigoso parar para a ouvir.
Importa ainda, se queremos ser castos, fugir a ociosida-de. O Espírito Santo nos adverte que a ociosidade ensina a cometer muitos pecados (Eclo 33,29). Mas, diz Santo Isidoro, o trabalho amortece o fogo da concupiscência.
Pratiquemos além disto a humildade e mortificação.
A carne que não é mortificada, dificilmente se submete ao espírito. A castidade conserva-se no meio das mortificações, como o lírio no meio dos espinhos. Quanto aos orgulhosos, Deus os pune permitindo que caiam em alguma falta vergonhosa: Priusquam bumiliarer, ego deliqui (SI 118). São Bernardo diz: Pela humildade é que se obtém a castidade.
O mais necessário, porém, é a oração. Cumpre orar e orar continuamente; porque para praticar uma virtude qualquer, tem-se necessidade da graça de Deus, e com muito mais razão é necessária, para conservar a castidade, uma graça poderosa, vista a violenta inclinação do homem para o mal. Assim, desde os primeiros assaltos do vício impuro, é bom renovar o firme propósito de antes morrer do que pecar, e imediatamente depois, é necessário refugiar-se nos Corações de Jesus e Maria, invocando seus santos nomes. Assim é que os santos venceram todas as tentações de que foram acometidos.
Prática
Para obter grande pureza, invocarei cada dia a São José pela seguinte oração, que é chamada oração eficaz:
São José, pai e protetor das virgens, guarda fiel a quem Deus confiou Jesus, a inocência mesma, e Maria, a Virgem das virgens, eu vos rogo e conjuro por Jesus e Maria, este duplo depósito que vos foi tão caro, fazei que eu conserve meu coração isento de toda mancha, e que, puro e casto, sirva constantemente a Jesus e Maria em castidade perfeita. Assim seja.
(100 dias de indulgência uma vez por dia — 4 de fevereiro de 1877)
Afeto e Súplica
Terno Redentor meu, eu vos agradeço me terdes dado tantos meios para vencer as tentações que me assaltam cada dia. Prometo praticar estes meios constantemente; ajudai-me a vos ser fiel. Vejo que quereis minha felicidade eterna: eu também a quero, principalmente para agradar ao vosso Coração que deseja tanto a minha salvação. Meu Deus, não quero mais resistir ao amor que me tendes. Por um efeito deste amor é que me suportastes com tanta paciência quando vos ofendia. Vós me convidais a vos amar: oh! isto é o que desejo. Sim, eu vos amo, ó bondade suprema, eu vos amo, bem infinito; pelos merecimentos do vosso Coração não permitais que eu seja ingrato a vossos benefícios: ponde fim à minha ingratidão, ou à minha vida. Senhor, o que haveis operado em mim, dignai-vos confirmar e completar (SI 67,29). Esclarecei-me, fortificai-me, abrasai-me no vosso amor. Ó Maria, tesoureira do Coração de Jesus, proclamai-me vosso servo; é o título que ambiciono, e rogai a Jesus por mim. Após seus merecimentos, são vossas orações que devem me salvar.
Jaculatória
Bendita seja a santa e imaculada conceição da Bem-aventurada Virgem Maria!
(100 dias de indulgência cada vez — 21 de novembro de 1793).
Meditações para o mês do Sagrado Coração de Jesus segundo Santo Afonso de Ligório
Pe. Edouard Saint-Omer




