Coração de Jesus Modelo de Mansidão

Coração de Jesus, modelo de mansidão

Um dos caracteres mais atrativos e especiais do Coração de Jesus é a virtude da mansidão: Aprendei de mim, dizia ele, que sou manso e humilde de coração (Mt 11,29). Nosso divino Redentor foi chamado Cordeiro: Ecce Agnus Dei, não somente por causa do sacrifício da cruz em que ele devia ser imolado para expiar os nossos pecados, mas ainda por causa da mansidão que mostrou durante toda a sua vida, e particularmente no tempo de sua dolorosa paixão.

Vós não sabeis que espírito vos impele (Lc 9,55). Tal foi a resposta do Salvador aos discípulos que lhe pediam castigasse os Samaritanos, quando o expulsaram do país. Ah! que espírito é este? dizia-lhes. Não é o meu: meu espírito é só mansidão e bondade. Eu não vim para perder, mas para salvar as almas; e vós quereis me obrigar a perdê-las? Calai-vos, não me façais mais tais pedidos, porque este não é o meu espírito.

Com que mansidão tratou Jesus, com efeito, a mulher adúltera! Contentou-se de lhe recomendar não pecasse mais, e fosse em paz. Pelos mesmos testemunhos de bondade é que ele empreendeu a conversão da Samaritana: começou por lhe pedir de beber; em seguida lhe disse:
Oh! se soubésseis quem é Aquele que vos pede de beber! Revelou-lhe, enfim, que Ele era o Messias esperado (Jo 4).

De que bondade usou também para com o traidor Judas, a fim de fazê-lo entrar em si mesmo. Deu-lhe a comer do seu mesmo prato; lavou-lhe os pés; e no momento mesmo em que este desgraçado executava a criminosa traição, ainda o advertiu por estas bondosas palavras: Judas, é então com um ósculo que me trais? Pedro o renega; e como Jesus se vinga? Ao sair da casa do Pontífice, sem exprobrar a Pedro sua infidelidade, volve sobre ele um olhar de ternura, que o converte (Lc 22,61). E Pedro chorou toda a vida a injúria que tinha feito a seu divino Mestre. Quando, em casa de Caifás, Jesus foi esbofeteado e tratado de temerário, contentou-se de responder: Se falei mal dize-me em que; se bem, por que me feres? Jo 18,23). E Jesus praticava esta doçura até a morte: estando sobre a cruz, quando seus inimigos o acabrunhavam de ultrajes, ele não fazia senão rogar a seu eterno Pai que Thes perdoasse: Meu Pai, perdoai-lhes, porque não sabem o que fazem (Lc 23,34).

Oh! quanto agrada ao Coração de Jesus um coração manso! Sim, Ele ama os corações cheios de mansidão, que sabem suportar as afrontas, perseguições, calúnias, escárnios, e até as pancadas e feridas, sem se irritar contra aqueles que os ultrajam ou ferem. Suas orações são sempre agradáveis a Deus (d 9,16), isto é, são sempre atendidas. O paraíso é prometido especialmente àqueles que são mansos: Bem-aventurados os mansos, porque possuirão a terra prometida do céu (Mt 5,4). Segundo a expressão do Padre Alvares, o céu é a pátria daqueles que na terra são desprezados, perseguidos, calcados aos pés. Com efeito, a eles e não aos homens soberbos, honrados e estimados do mundo, é reservada a posse do reino eterno. Davi assegura que os que são mansos, não somente obterão a eternidade bem-aventurada, mas gozarão, ainda nesta vida, paz inalterável (SI 36,11). Porque os santos, longe de conservarem ressentimento contra aqueles que os maltratam, mas os amam, o Senhor, em paga de sua paciência, aumenta sua paz interior.

Não nos entreguemos, pois, aos ímpetos da cólera; não abramos jamais a esta violenta paixão, sob o pretexto for, a porta de nosso coração; porque uma vez entrada, não está mais em nosso poder expulsá-la nem moderá-la.

Quando somos tentados pela cólera, 1. reprimamo-nos logo pensando noutras coisas e guardando silêncio; 2. à imitação, dos apóstolos quando viram o mar agitado pela tempestade, recorramos a Deus, a quem pertence pacificar os corações; 3. se percebemos que a cólera já se introduziu em nosso espírito, esforcemo-nos para readquirir a calma, e procuremos praticar atos de humildade e doçura para com a pessoa contra a qual nos sentimos irritados. Oh! quanto este procedimento agradará ao Coração mansíssimo de Jesus!

Prática

Praticarei a mansidão para com os pobres, os enfermos, as pessoas que me contrariam, e principalmente para com meus inimigos; praticá-la-ei também comigo mesmo, evitando perturbar-me pelas faltas e defeitos que me escapam, a despeito dos esforços contínuos que faço para não recair.

Assim é que chegarei insensivelmente a tornar meu coração manso como o Coração de Jesus.

Afeto e Súplica

Amadíssimo Salvador meu, vós levastes com tanta doçura as ignomínias e as dores de vossa Paixão; e eu, por um nada, tantas vezes voltei-vos às costas! Agradeço-vos me terdes esperado até ao presente: se eu tivesse morrido nesta desgraça, não poderia mais vos amar; já que o posso ainda, quero amar-vos de toda a minha alma. O Coração, mansíssimo de Jesus, acolhei-me agora que me torno para vós, arrependido dos desgostos que vos tenho dado: não me rejeiteis. Ah! pois que me tendes deixado correr após meus próprios desejos quando desprezava vosso amor, posso temer que me não aceiteis, quando vosso amor é o objeto de todos os meus desejos? Vós me haveis suportado com tanta doçura para vos fazer amar de mim: pois bem! Quero vos amar. Sim, meu Deus, eu vos amo de todo o meu coração. Ó amor de minha alma, estou resolvido, de agora em diante, a não vos causar cientemente mais desgosto algum, e fazer tudo o que de mim exigirdes: vossa vontade será meu único amor.

Ensinai-me o que devo fazer para agradar ao vosso Coração, pronto estou a executá-lo. Quero vos amar verdadeiramente: abraçarei então todas as tribulações que me enviardes. Puni-me durante esta vida, a fim de que possa vos amar eternamente. Meu Deus, dai-me a força de vos ser fiel. Maria, minha terna Mãe, recomendai-me a Jesus; não cesseis de rogar-lhe por mim.

Jaculatória

Jesus, manso e humilde de coração, tornai meu coração semelhante ao vosso.
(300 dias de indulgência uma vez por dia — 25 de janeiro de 1868)

 

Meditações para o mês do Sagrado Coração de Jesus segundo Santo Afonso de Ligório
Pe. Edouard Saint-Omer

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