Conselhos de São Francisco de Borja para adquirir a perfeição das ações ou o exercício da presença de Deus

Retirado do livro: Espelho das ações cristãs ou Exercícios para performar estas ações no Espírito de Jesus Cristo de São Francisco de Borja, duque de Gandia e terceiro general da Companhia de Jesus.

Traduzido por um congregado

“Ó alma devota, deves familiarizar-te o máximo possível com estes exercícios, para que as tuas ações, que são estéreis e imperfeitas em si mesmas, se tornem santas e salutares, e que mereçam ser apresentadas a Deus como um sacrifício agradável. Deves começar pelas ações comuns de cada dia, que são comuns a todos; e posso assegurar-te que se fores fiel a esta prática, além de adquirir, gradualmente, grande facilidade para agir santamente em todas as outras circunstâncias da vida, você encontrará nela uma doçura e consolação maravilhosas.
Agora, esta prática consiste em ter três motivos em cada ação que você realiza: 1º, humilhar-se perante Deus; 2º, agradecê-Lo por Suas graças; 3º, pedir-Lhe aquelas de que você precisa.

A seguir está a regra que você deve usar nas ações específicas do dia

Ao se vestir pela manhã
1. Entre em um profundo sentimento de confusão, ao considerar que você está bem-vestido e que Jesus Cristo foi pregado nu em uma cruz por amor a você.
2. Agradeça a Ele por ter assumido nossa natureza, embora Ele soubesse na época o quão ingratos seríamos por esse favor; e também por ter nos dado roupas para nos cobrir, embora tantas vezes tenhamos desprezado a veste nupcial da graça, com a qual Ele nos vestiu.
3. Ao se vestir, você está realizando uma das obras de misericórdia, que é vestir os nus: implore a Ele que aceite esta ação, em consideração à veste de ignomínia com a qual Ele foi coberto no palácio de Herodes.

Ao entrar em uma Igreja.
1. Humilhe-se ao considerar quão indigno suas imperfeições o tornam de entrar na casa de Deus, onde Ele é adorado pelos anjos com tanto temor e pureza.
2. Agradeça a Ele que, depois de tantas vezes ter se afastado dEle, devido à enormidade de seus pecados, Ele se agrada em recebê-lo em Sua casa; que Ele até o procura e lhe implora que entre.
3. Peça-Lhe a graça de se oferecer a Ele com o mesmo amor com que a Virgem Santíssima apresentou seu Filho no templo; com o desejo de se tornar você mesmo um templo de Deus, no qual o Espírito Santo possa habitar.

Ao começar a orar.
1. Humilhe-se diante de Deus, repetindo as palavras do publicano: “Ó Deus, sede misericordioso para comigo, pecador!” (Lucas 18:22) e reflita sobre a multidão de seus pecados.
2. Agradeça a Jesus Cristo por ter se dignado a rezar por você, para que suas petições sejam atendidas pelo mérito de Sua oração.
3. Suplique a Ele, pelo mérito da oração que Ele ofereceu por todos os pecadores no deserto, que lhe conceda as graças que Ele mesmo ordenou que você lhe pedisse na Oração do Senhor, que você deve recitar uma vez com grande atenção e devoção.

Ao assistir à Missa.
1. Reflita humildemente com que pouca devoção você vem para ver e adorar seu Deus. Repreenda-se pelo fato de a continuidade de um benefício tão grande ser a causa da pouca consideração que lhe dedicas, em vez de, como deveria ser, a causa de um aumento do teu respeito e amor, uma vez que Deus torna as Suas graças tão comuns apenas para dar a conhecer melhor a grande caridade que Ele tem por ti.
2. Agradeça-Lhe por fazer você se assemelhar aos Anjos cada vez que O adora com verdadeira fé: pois esses espíritos bem-aventurados estão sempre ocupados em Sua presença, louvando-O e glorificando-O incessantemente.
3. Já que este sacrifício é oferecido a Deus em memória do sacrifício do Calvário, peça a Ele, pelos méritos de Seu precioso sangue, a graça de se purificar nele de todos os seus pecados e de apagá-los pela abundância de suas lágrimas, para que o velho homem morra dentro de você e o novo homem viva nele.

Durante o jantar.
1. Humilhe-se por ter traído Aquele que lhe dá alimento e por ser tão ingrato pelos benefícios que você recebeu.
2. Agradeça a Ele por tê-lo preservado por tanto tempo e por tê-lo nutrido com tanto cuidado, mesmo quando você era Seu inimigo.
3. Implore a Ele, pela caridade com a qual Ele alimentou uma multidão tão grande no deserto, para dar a vocês o alimento celestial de Sua graça, e que este seja o seu pão de cada dia.

Ao realizar algum ato de caridade.
1. Humilhe-se, pois, tendo tantas vezes contribuído para a desedificação do seu próximo com seu mau exemplo, Deus ainda se agrada em usá-lo em um assunto tão importante quanto a salvação dos outros, para o efeito do qual Ele enviou Seu Filho amado a este mundo.
2. Agradeça-Lhe que, não lhe faltando nada, Ele aceita o pouco bem que você faz por Ele, como se você fosse necessário a Ele.
3. Implore-Lhe, por aquela caridade com a qual Ele disse que Seu propósito era empregar-Se no serviço e na glória de Seu Pai, que Ele lhe dê a graça de se ocupar apenas em ações santas, para que elas sirvam para o avanço de Sua glória.

Nas Vésperas.
1. Considere que você fala com um Deus diante de quem os Anjos tremem de temor e reverência.
2. Agradeça-Lhe por ter lhe dado a coragem de orar a Ele, por meio de um mandamento cheio de bondade e misericórdia.
3. Implore a Ele, por aquela resignação que O fez suar gotas de sangue no Jardim das Oliveiras, e que O fez dizer estas palavras: “Meu Pai, não seja feita a minha vontade, mas a tua” (Mateus 26:39), que lhe dê a graça de estar sempre perfeitamente unido à Sua santa vontade, na vida e na morte.

No jantar.
1. Reflita sobre os pecados que você cometeu durante o dia e coma com tristeza, de acordo com as palavras do Profeta: “Pois comi cinzas como se fossem pão e misturei a minha bebida com o meu choro.” (Salmo 10).
2. Agradece a Deus pela graça com que Ele te concedeu novamente, ao fim da tarde, da qual Lhe tinhas tão mal-agradecido pela manhã.
3. Peça a Ele, pelo amor que O levou a se entregar para o seu sustento na Última Ceia, que prepare seu coração para recebê-Lo com humildade e para viver tão unido a Ele pela caridade, que Ele esteja sempre em você e você nEle.

Antes de se deitar para descansar.
1. Imagine Jesus Cristo pregado na cruz, orando por você com tanto amor, enquanto você não O ama e não demonstra tristeza pelas dores que Ele suporta por amor a você.
2. Agradeça-Lhe por ter se agradado em morrer para lhe dar a vida.
3. Implore a Ele, pelos grandes sofrimentos que Ele suportou em Seus últimos momentos e pela dor que Sua Santíssima Mãe sentiu ao vê-Lo expirar, que lhe conceda a graça de pensar em Sua Santíssima Morte, quando sua última hora chegar, para que ela se torne preciosa diante de Deus pelo mérito de Sua própria morte.

Ao se despir.
1. Considere que você se despe para dormir com mais conforto, enquanto Jesus Cristo nasceu na palha por amor a você e não tinha onde repousar a cabeça.
2. Agradeça-Lhe por ter sofrido tantas dificuldades, para merecer para você a graça de renunciar ao diabo.
3. Rogue a Ele que, pelo tormento extremo que Ele suportou quando, antes de crucificá-Lo, rasgaram a veste que aderiu às Suas sagradas chagas, o liberte de seus vícios, para que, estando totalmente despojado de todo apego às coisas terrenas, você possa abraçar a Cruz, morrer nela com Jesus Cristo e merecer depois aquela veste de glória que Deus preparou para aqueles que O amam.”

 

São Francisco de Borja

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