Sansão e o Sagrado Coração
Uma das coisas mais belas das sagradas escrituras são as prefigurações bíblicas. Encontrar analogias entre a vida de Nosso Senhor e a dos patriarcas, dos profetas e nos acontecimentos é perceber a grandeza divina nas mínimas coisas e também como Deus mesmo quis se deixar encontrar por nós em tudo, simbolicamente, como nas incontáveis estrelas do céu que demonstram a infinitude do Criador.
Uma figura bíblica interessante de meditar neste período de preparação para a Paixão do Senhor é a de Sansão, o juiz do Antigo Testamento famoso por sua extraordinária força relacionada aos seus cabelos não cortados. Pretendemos aqui não exaurir todas semelhanças entre a vida de Sansão e de Nosso Senhor, mas sim mostrar alguns pontos de contato, a fim de ressaltarmos a beleza das atitudes tanto de Sansão, mas principalmente de Nosso Senhor, pois sendo este maior que aquele, suas obras serão mais perfeitas.
Iniciemos com a história de seu nascimento. Os pais de Sansão eram estéreis e um anjo veio anunciar a sua mãe que ela teria um filho que seria “o primeiro a livrar Israel das mãos dos filisteus” (Jz 13, 5). O anjo orientou que ela não se embriagasse nem comesse coisa impura, pois o menino seria separado para Deus desde o ventre materno. Ela contou da aparição ao marido e ele rezou a Deus pedindo que confirmasse a mensagem divina, o que aconteceu. Ora, há semelhanças disto com a anunciação do nascimento de Nosso Senhor, porém, há diferenças também, pois como dissemos em Cristo as coisas se dão de modo mais perfeito. A Virgem Maria também era estéril, não biologicamente, mas por vontade. Um anjo também lhe apareceu, porém não precisou orientar-lhe sobre embriaguez ou comidas impuras, pois ela tinha a razão esclarecida desde pequena e sua Imaculada Conceição garantia sua pureza total e não apenas em relação aos alimentos. O anjo revelou-lhe o nome, Gabriel, enquanto aos pais de Sansão não quis revelar, pois na plenitude dos tempos, Deus queria dar-se a conhecer ainda mais. A mãe de Sansão contou ao marido e este pediu um sinal do Senhor. Maria Santíssima e São José nenhuma confirmação pediram e seu silêncio foi tão contundente que Deus mesmo “precisou” esclarecer a São José do milagre operado, tamanho abandono de ambos nas mãos da Providência. Sansão deveria ser nazareno, um modo consagração a Deus conforme consta em Números 6, cujo nome nos remete claramente a Jesus Nazareno, que de igual modo é retratado com os cabelos não cortados, mostrando sua total pertença a Deus. Porém Nosso Senhor não precisa cumprir todas a orientações da lei pois Ele é o próprio legislador. Temeroso após a manifestação do anjo, o pai de Sansão diz com medo: certamente morreremos, porque vimos a Deus. Se o milagre de um anjo causou tamanho maravilhamento, imaginemos o que foi para o santo casal de Nazaré, contemplar em Belém, o nascimento do próprio Deus feito homem. O nome Sansão significa “pequeno Sol”, ora o grande Sol é Nosso Senhor, que é o primeiro a libertar não somente Israel, mas todo homem e não dos filisteus mas sim das trevas do maior inimigo que é o pecado.
A Sagrada Escritura diz que “o Espírito do Senhor começou a ser com ele [Sansão] no campo”, semelhante a Nosso Senhor que foi levado pelo Espírito ao deserto, lugar mais inóspito, pois Cristo consegue vencer condições mais adversas.
Passemos à vida adulta de Sansão, que sabendo de sua missão quis aproximar-se dos filisteus para então vencê-los (cf. Jz 14, 4). Pediu ao seu pai que lhe arranjasse casamento com uma filistéia, seus pais foram contra pois queriam que se casasse com alguém do seu povo, porém Sansão insistiu. Aqui podemos ver simbolicamente o Verbo escolhendo se encarnar, aproximando-se de nós, enquanto ainda éramos inimigos para poder nos salvar, mesmo contra toda lógica humana, pois nunca se imaginaria um Deus tornando-se criatura: Porventura não há mulheres entre as filhas de teus irmãos, entre todo o nosso povo, para que tu queiras casar com uma dentre os Filisteus, que são incircuncidados? Sansão disse a seu pai: Toma esta para mim, porque agradou aos meus olhos (Jz 14,3). No caminho para encontrar-se com a mulher escolhida, Sansão foi atacado por um leão, o qual despedaçou com suas próprias mãos. Alguns dias depois, olhou o cadáver e reparou que na boca do leão estava um enxame de abelhas e um favo de mel. Já na festa de casamento, foram trinta filisteus convidados e Sansão propôs a eles um enigma: Do que come saiu comida, e do forte saiu doçura. O acordo era que se descobrissem o significado do enigma, Sansão lhes daria 30 túnicas e outras tantas vestes de festas, caso contrário, eles que dariam-nas a Sansão. Como não conseguiram decifrar, ameaçaram a noiva de Sansão para que ela descobrisse o enigma e ela, insistindo inoportunamente, obteve a resposta: que coisa é mais doce que o mel e que coisa é mais forte que o leão? Vemos na vitória de Sansão sobre o leão, um símbolo da vitória de Cristo sobre a morte por meio de sua paixão, pois da morte de Cristo, nasce o mel da nossa redenção. Por isso a meditação predileta de Santo Afonso era a Paixão de Cristo, pois ele encontrou nela sua doçura. Como ela é escândalo para os judeus e loucura para os gentios, sem a visão cristã ninguém a compreende. A Paixão de Nosso Senhor é um enigma. Para aqueles que nela meditam e descobrem seu significado é prometida a túnica das virtudes, necessária para a festa nupcial, conforme a parábola do Evangelho. Da fera que é a morte de Cristo nos veio o alimento da Eucaristia e da violência de Sua Paixão, se revelou a doçura de seu amor, que é forte como a morte.
Seguindo a história de Sansão, temos seu novo casamento, agora com Dalila que é subornada com 5 mil moedas de prata pelos filisteus para descobrir o segredo de sua força descomunal. Sansão valeu muito mais que Nosso Senhor, que foi vendido por apenas 30. Até nisso, Cristo se deixa vencer.
E aqui entra o cerne da prefiguração de Sansão ao Sagrado Coração de Jesus. Pois mesmo sabendo que Dalila o estava enganando, ele se deixou levar pela insistência dela e revelou seu segredo. A Sagrada Escritura diz que Sansão “abrindo, de par em par, o seu coração”, contou o segredo a Dalila. Ora, não é isso que faz Nosso Senhor conosco, quando nos revela a devoção ao seu Sagrado Coração, mostrando que ele se deixa vencer por aqueles que não cessam de pedir-lhe as graças? Dalila fez Sansão adormecer em seus joelhos para lhe tirar as forças, e não é de joelhos, com nossas orações, que alcançamos a perdão de nossos pecados e tiramos, por assim dizer, a força da ira divina que mereciam as nossas traições?
Antes de revelar seu segredo, Sansão se deixou ser preso por sete cordas, depois por cordas novas e por fim deixou o cabelo ser trançado e pregado. Podemos ver nesses três momentos, quando Nosso Senhor se deixou ser preso, depois flagelado e ainda coroado de espinhos. São etapas da demonstração de até onde vai o desejo divino de nos redimir. Mas apenas essas humilhações não são suficientes! Por fim, ao ter seus cabelos cortados, Sansão perde suas forças nos lembrando Nosso Senhor pregado na cruz. Mais ainda, Sansão é feito de opróbrio para os filisteus, sendo atado em duas colunas e de braços abertos como o Cristo na cruz. Enfim, pede a Deus a graça de ter suas forças novamente para derrubar as duas colunas, e assim mata os filisteus e a si mesmo. Ao contrário de Cristo que dá a sua vida para que nós tenhamos a vida eterna. Que nos aproximando da Semana Santa, meditemos na Paixão do Senhor para que Ele possa nos revelar o segredo de como sermos verdadeiros devotos de seu Sacratíssimo Coração, já aberto na cruz para nós e assim possamos provar da verdadeira doçura e chegarmos até a Páscoa. Por fim, não nos esqueçamos que a mulher que acompanhava Sansão o entregou à morte, porém a mulher que acompanhava Nosso Senhor morreu misticamente com Ele no calvário. Que o Imaculado Coração de Maria, também traspassado, entregue Nosso Senhor a nós, na sagrada comunhão, a fim de repararmos todas as ofensas que sofre esse Coração que tanto nos amou.





