A Imaculada Conceição de Nossa Senhora

Conceição, ou concepção, é a origem de um ser humano no seio de sua mãe, o exato momento em que uma alma intelectual é infundida no embrião que acaba de se formar pela união parental1. Por conta do pecado original, porém, toda alma é criada privada da graça santificante, dom gratuito ao qual não temos direito. A alma de toda criança é, nesse momento, como uma estrela cuja luz está apagada, envolvida pelas trevas do pecado, da qual só pode sair pelo batismo.

Embora este triste estado fosse totalmente contrário à vontade de Deus, que só faz o bem, desde toda a eternidade sabia Deus que o homem pecaria. Por que Deus criaria, então o homem sabendo que incorreria no verdadeiro mal, que é o pecado? Santo Agostinho nos responde: Deus não permitiria o mal se não soubesse tirar dele um bem maior2. Em sua Providência, daquele mal indesejado, Deus havia preparado um bem ainda maior do que a criação, a Redenção, a Encarnação de seu Filho, plenitude de sua bondade e de amor — De fato, Deus amou de tal modo o mundo, que lhe deu seu Filho unigênito, para que todo o que crê nele não pereça, mas tenha a vida eterna3.

Tendo preparado antes de todos os séculos a Encarnação de Nosso Senhor Jesus Cristo, que nos livraria das amarras do pecado, escolheu e preordenou para seu filho uma Virgem que lhe fosse Mãe – milagre admirável – a fim de que, dotado da natureza humana e divina, pudesse – sozinho – oferecer a perfeita satisfação devida pelo pecado e pagar a dívida da humanidade diante de Deus.
Tendo sido escolhida desde toda a eternidade, conviria a Deus ornar esta Virgem dos fulgores da santidade mais perfeita4 e da mais perfeita inocência.

Esta Virgem, cheia de graça, bendita entre todas as mulheres5, cuja alma foi traspassada por uma espada para que fosse descoberto o que estava escondido6, foi escolhida pelo Pai Eterno para gerar, na humanidade o mesmo Filho gerado por Ele na Eternidade.

Esta Virgem, lírio entre os espinhos7, a que esmaga a cabeça da serpente8, foi escolhida pelo Filho Unigênito de Deus para ser sua Mãe, protetora durante a infância, refúgio durante a vida, consolo na hora da morte.

Esta Virgem, a mãe do puro amor9, que avança como a Aurora quando desponta, formosa como a lua, eleita como o Sol10, foi escolhida pelo Espírito Santo como sua esposa, coberta por sua sombra11 e guardou-O em seu coração12 para sempre, a fim de que fosse ela a dispensadora de todas as graças e o auxílio dos cristãos.

De todos os filhos de Adão, nascidos – como dissemos – nas trevas do pecado, esta Virgem, que achou graça diante de Deus13, foi a única exceção. Ela, sozinha, nasceu em graça, ela, sozinha, foi preservada da mancha do pecado desde o primeiro instante da sua concepção não por seus próprios méritos, mas pelos méritos dAquele que a escolheu para ser sua mãe. Mais do que ter sido preservada do pecado, ao comemorarmos a Imaculada Conceição de Nossa Senhora, comemoramos suas iminentes virtudes. Ela pertenceu ao Senhor desde o princípio14 e foi preparada com dons tão grandes que jamais poderemos compreender totalmente.

A cada dignidade dada por Deus, corresponde uma graça proporcional. No momento de sua concepção, por ter sido escolhida para Mãe de Deus, a maior dignidade possível, Nossa Senhora tinha mais graças que todos os anjos e santos no céu juntos. E esta graça cresceu ainda mais durante a sua vida.

Por ter mais graças, ela era mais íntima de Deus que qualquer criatura. Ela, mais que ninguém, soube amar a Deus. Ela, mais que ninguém, honra a Nosso Senhor Jesus Cristo. Ela é a nova Eva, que colabora com o novo Adão na remissão dos primeiros dos nossos primeiros pais:

O gênero humano que fora submetido à morte por uma virgem, foi libertado dela por uma virgem; a desobediência de uma virgem foi contrabalançada pela obediência de uma virgem; Mais, o pecado do primeiro homem foi curado pela correção de conduta do Primogênito e a prudência da serpente foi vencida pela simplicidade da pomba: por tudo isso foram rompidos os vínculos que nos sujeitavam à morte15

A cada 8 de dezembro, comemoramos a proclamação infalível deste admirável dogma da fé católica. Embora proclamado em 1854, a Imaculada Conceição de Nossa Senhora foi crida e venerada desde sempre, pois é verdade apostólica revelada pelo próprio Cristo. Já no século III a vemos sendo chamada nas Liturgias de “Toda-Pura”, o “Paraíso Virginal preservado da maldição de Deus”, o “milagre da graça, mais santa e pura que os anjos”, a “mais santa que os querubins e mais excelente que os serafins”, aquela que é “mais santa que o Céu e mais pura que o sol que vemos”16 Venerar a Imaculada Conceição de Nossa Senhora deve nos fazer crescer na devoção e na piedade. Ao nos revelar este inefável mistério, ao exaltar aquela que durante toda sua vida foi humilde e escondida, Cristo nos apontou o caminho que devemos seguir: Devemos ir até ele pelo caminho pelo qual ele veio até nós. Ter devoção a Nossa Senhora é ter melhor devoção a Nosso Senhor. Ser devoto de Nossa Senhora é estar em prontidão para servi-la, a fim de melhor servir ao seu Divino Filho. Como os empregados das Bodas de Caná, obedecer a Maria é fazer Tudo o que Cristo nos disser.

Que Nossa Senhora, a mulher vestida de Sol, com a lua debaixo de seus pés e ornada com uma coroa de doze estrelas17, cuja Conceição Imaculada veneramos e a cujo serviço nos colocamos interceda dos Céus por nós. Colocamo-nos totalmente sob sua liderança, confiantes que “de mil soldados não teme a espada quem pugna à sombra da Imaculada”.18

 

 

  1. Daqui se tira a imoralidade e a torpeza do aborto, crime e pecado que por razão alguma pode ser justificado ou defendido em nenhum momento da gestação
  2. Enchiridion, ano 420
  3. Jo 3, 16s
  4. Ineffabilis Deus, Pio IX 7 Lc 1,42
  5. Lc 1,42
  6. Lc 2, 35
  7. Ct 2,2
  8. Gn 3,15
  9. Eclo 24, 24
  10. Ct 6,9
  11. Lc 1, 35
  12. Lc 2, 51
  13. lc 1, 30
  14. Prov 8, 22
  15. S. Irineu de Lyon (130 – 203) em Contra Heresias
  16. Passaglia and Palmieri; Dial. c. Tryph, ano 100. Liturgia Syro-Maronita, ano 327; O. Bardenhewer, p. 236
  17. Ap 12, 1
  18. Hino Tradicional da Congregação Mariana
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