O exemplo de Nosso Senhor no “Lava-Pés”

No ato conhecido como “Lava-pés”, realizado por Nosso Senhor depois da Santa Ceia, Cristo com ações muito simples perpetuou um modo de agir singular.
Aquele que deveria ser servido passa a servir, como uma premeditação do ato da Redenção. E este serviço pressupõe três ações, segundo S. Tomás de Aquino:
  1. Estar de pé, pois para este serviço sentar-se ou estar recostado é algo inconveniente. Por isso Ele disse: “Pois qual é o maior: o que  está sentado à mesa ou o que serve? Não é aquele que está sentado à mesa? Todavia, eu estou no meio de vós, como aquele que serve” (Lc XXII, 27);
  2. Despojar-se de vestimentas em excesso;
  3. Estar pronto e possuir todas as coisas necessárias para o serviço. Por isso, o Senhor tomou uma toalha e cingiu-se para estar preparado para lavar e enxugar os pés dos apóstolos.
Fantástica é ação do Rei dos céus e da terra. Servir para ser servido. Na via espiritual, estes três singelos atos resumem a ação do bom cristão. Nosso Senhor não fez nada mais nada menos do que ensinar com seu exemplo.
Primeiro, estar de pé significa manter prontidão, estar vigilante diante dos ensinamentos e ordens de Deus. Ser como as cinco virgens prudentes do evangelho (Mt. XXV, 1ss), ou seja, levar consigo o óleo espiritual da salvação, que mantém a luz da Fé acesa. É a que sustenta o homem de pé, que o põe vivo para agir conforme a vontade Deus. Cristo está de pé diante dos seus discípulos, que estão sentados. Os discípulos são símbolo daqueles que, pela falta de fé, deixam a Verdade, como fizeram horas depois do lava-pés ao deixar Nosso Senhor praticamente só quando foi preso. Mas Nosso Senhor, diferentemente, está pronto para tudo: para a agonia no horto, para sua prisão, sua flagelação, sua crucificação e morte…
Segundo, despojar-se das vestimentas em excesso significa desvencilhar-se das glórias do mundo, dos seus prazeres, dos seus holofotes. Manter uma roupa simples e modesta para fazer aquilo que Deus deseja. Desapegar-se daquilo que nos afasta dEle por meio de uma sincera mortificação, que torna a vida espiritual mais viva em detrimento dos prazeres da carne.
Por fim, estar pronto com tudo o que é necessário ao serviço é, de forma contraposta ao tópico anterior, equipar-se através da oração do que espiritualmente nos eleva até Deus e nos torna agradáveis ao seu serviço. Se a função é lavar e enxugar pés, prepara-se a toalha cingida na cintura, mas se a função é a própria salvação, que nos revistamos da armadura de Deus, da couraça da justiça, do escudo da fé tendo a cintura cingida pela Verdade, como diz S. Paulo (Ef. VI, 13-15). Pela oração, o homem reveste-se de todas estas armas, mantém-se firme no serviço que Deus lhe designou, torna-se enfim um santo.
Ao fim de todo este exemplo, Nosso Senhor executa o ato para o qual se preparou: lava os pés dos discípulos, não aos mãos nem a cabeça como pedido por S. Pedro (Jo. XXIII, 4), mas somente os pés. A cabeça e as mãos, segundo S. Tomás, são símbolo da razão superior e da razão inferior respectivamente. Pela primeira, a alma adere a Deus e pela segunda age conforme a vontade dEle. Não era necessário que Cristo lavasse a cabeça e as mãos dos discípulos, porque eles já estavam purificados quanto ao intelecto pela caridade e quanto à vontade porque suas ações eram santas. Porém os pés, símbolo da sensibilidade humana, que tem o contato com os afetos inferiores, deveriam ser lavados para que eles tomassem parte com Cristo, pois para estar inteiramente com Deus é necessário desapegar-se de todos os afetos terrenos.
Por isso, Nosso Senhor ensina-nos a estar de pé pelo exercício da Fé, despojados do que é mundano e equipados pela armadura de Deus, para que, desapegados de todos os afetos materiais, estejamos prontos ao serviço, primeiramente, de nossa salvação e ao que por e para Ele tenhamos que fazer.
Diferentemente dos discípulos, é possível que necessitemos da lavagem não só de nossos pés, mas cabeça e mãos, já que a nossa razão, por uma dificuldade intelectual de entendimento das coisas celestes, e vontade, por fazermos o que não queremos (Rm VII, 20), podem precisar ainda de purificação. O fato é que Nosso Senhor completa o ato do Lava-Pés na Cruz, ao fazer jorrar não só sangue de seu lado, mas água, mostrando que por sua morte na Cruz nossos pecados seriam lavados. E como Cristo entregou-se inteiramente, lavou-nos integralmente. Da cabeça aos pés fomos lavados pela água da graça, jorrada do lado de Nosso Senhor. Então, Cristo deseja ardentemente mover nossa razão, vontade e sensibilidade, turvadas pelo pecado, à adesão integral à vida da graça, pela qual conseguimos permanecer prontos ao serviço dEle e merecedores do Céu que Ele quer nos dar.
Por um congregado mariano
Todas as citações de S. Tomás de Aquino foram retiradas do Livro “Meditaciones Entresacadas de sus Obras”, organizada pelo Padre Mézard, O.P (pgs. 284-288)
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