Dos séculos V ao XI na construção da filosofia

No primeiro artigo sobre filosofia deste site, nós falávamos um pouco da herança trazida da idade antiga à filosofia medieval. Este é um quesito um tanto importante no que se refere à história da filosofia, porque envolve a influência filosófica grega nos conceitos cristãos. Por isso, necessário se faz compreender por quais circunstâncias passou a filosofia nos primeiros séculos medievais. Vejamos.

 

Os conflitos da filosofia grega com o cristianismo no século V

Na formação da filosofia medieval houve, a priori, uma natural oposição entre a cultura grega e a mensagem evangélica do cristianismo, visto que, de um lado reinava a e do outro a razão natural. Havia, com certeza, a oposição relativa a seus conteúdos, uma vez que o cristianismo se apresenta sobretudo como uma mensagem de salvação, enquanto que a sabedoria antiga se ordenava para uma visão cientificamente organizada do mundo. Além disso, existia uma oposição quanto aos destinatários: os simples, as multidões, clientela privilegiada do Evangelho, em face das classes cultivadas que visavam principalmente as lições dos filósofos da Grécia. O Cristianismo sempre foi a sabedoria da Cruz, que parece nada ter em comum com a sabedoria do mundo.

Foi, portanto, uma luta na tentativa de harmonização entre estas duas vertentes, já que, por outro lado, existia um ponto de contato, pois a mensagem cristã sempre foi muito provida de filosofia, ou seja, do estudo da sabedoria.

No século V, temos como propagadores desta aproximação Santo Agostinho, Boécio e o Pseudo-Dionísio, o qual foi por um bom tempo, na Idade Média, confundido com o Aeoropagita convertido por S. Paulo em Atenas. Estes três foram como que os preceptores do Ocidente medieval, necessários à primeira fase da assimilação viva da filosofia grega, o que podemos chamar de filosofia patrística.

Em santo Agostinho há o primeiro grande sistema de filosofia cristã. A sua obra original, com relação ao pensamento antigo, é sobretudo representada pela assimilação do neo-platonismo, cuja peça mestra era a teoria das ideias. O Doutor de Hipone, colocando as “ideias” em Deus, conseguia dar uma unidade satisfatória ao mundo de Platão e ao da Bíblia. Esta tarefa de assimilação das especulações platônicas foi continuada paralelamente, algumas décadas mais tarde, pelo pseudo-areopagita.

Em resumo, estabelecendo-se o balanço do que possuía o Ocidente logo depois da queda de Roma e da submersão de sua cultura pelos bárbaros, deve-se enumerar, em primeiro plano, as artes liberais, herança da literatura do baixo-império, o conjunto de concepções neo-platônicas que Dionísio e sobretudo Santo Agostinho haviam incorporado à sua visão cristã do mundo, e a Lógica de Aristóteles, conservada por Boécio. Tudo o que mais se tinha de filosofia se perdeu. Mais para frente, ocorrerá um novo conflito, de modo a por totalidade no estudo da filosofia cristã.

 

A contribuição de um irlandês no século IX

Já no século IX, surgiu-nos um notável intelectual irlandês, conhecido como João Scot Erígena, o qual traduziu brilhantemente os escritos pseudo-aeropagídicos, dando-lhes um lugar de relevo na teologia ocidental. Também escreveu uma obra de grande importância, chamada A divisão da natureza, considerada a primeira grande suma da teologia medieval. Desta obra, destacamos a seguinte divisão em quatro instâncias:

  1. a natureza que cria e não é criada (Deus é a causa de tudo);
  2. a natureza que é criada e que cria (as ideias divinas, que são modelos de todas as coisas);
  3. a natureza que é criada não cria (todos os seres materiais e espirituais);
  4. a natureza que não cria e não é criada (Deus, considerado como fim último de tudo).

Os itens 1 e 4 se referem a Deus, e os outros à criatura. A maneira como Scot concebia o trabalho intelectual, aproximando-se de Santo Agostinho e Dionísio, fazia-lhe entender que a filosofia era uma etapa intermediária entre a fé que crê sem nada ver e a contemplação do bem-aventurado que vê e não só mais crê.

A filosofia é, portanto, uma fé que procura compreender, buscando a inteligência, interpretando os símbolos das escrituras e captando a dialética da natureza, ou seja, seu movimento.

 

A tempestade do século X e dialética do século XI

O século X passou por uma fase sombria, pois o império de Carlos Magno, aquele que no século VIII deu vazão ao ensinamento das artes liberais, caía, e a Itália era invadida pelos húngaros, a Espanha pelos sarracenos e os normandos no norte europeu.

Porém, é possível destacar o estudo da dialética, iniciado por Erígena, que se conceituava pela disciplina que orienta a atividade racional distinguindo o verdadeiro do falso.

São Pedro Damião, nascido no início do século XI, inquietava-se bastante com este estudo da lógica como auxílio aos mistérios da onipotência divina. Isto se deu porque alguns estudos desnecessários e até mesmo heréticos surgiram nesta época, como o de  Berengário de Tours, que aplicou a regra de que os acidentes não podem existir sem a substância à santíssima eucaristia, negando, assim, que a substância do pão tornava-se o corpo de Cristo.

O monge considerava a dialética, de certa forma, inútil e perigosa, pois a salvação deveria vir em primeiro lugar, e seria necessário somente o que estava nas Escrituras. Para ele, certamente, as artes liberais ou a própria filosofia deveriam desempenhar um papel de servas da teologia.

Por outro lado, podemos citar um monge que, aplicando a dialética como serva da teologia, angariou sucesso nesse estudo. Santo Anselmo de Cantuária colocou em prática o “crê para entender” de Santo Agostinho, tendo escrito a obra Proslogion, em busca da compreensão por meio da fé. No primeiro capítulo, ele inicia com uma oração humilde:

Não tento, Senhor, penetrar tua profundidade, pois não lhe comparo de modo nenhum minha inteligência; mas desejo compreender um pouco tua verdade, que meu coração crê e ama. Pois, não procuro compreender para crer; mas, creio para entender. E creio também que, se não crer, não entenderei.

Ao realizar seus estudos de dialética, ou seja, do entendimento das verdades por meio da lógica, encerra seu livro do seguinte modo:

Graças a ti bom Senhor, graças a ti, porque aquilo que, por teu dom, eu anteriormente cri, já compreendo de tal modo, por tua iluminação, que se não quisesse crer que tu és, não poderia não compreender

Santo Anselmo esforçou-se, por assim dizer, em por em relevo o caráter absoluto de Deus, ou seja, somente Ele tem em si a razão de sua existência.

Nos próximos artigos, estudaremos os séculos posteriores na história da filosofia. Aguarde.

 

Fontes:

O que é Filosofia Medieval, Carlos Arthur Ribeiro do Nascimento.

INICIAÇÃO À FILOSOFIA DE S. TOMÁS DE AQUINO, H. D. Gardeil.

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