À Nossa Senhora da Piedade

 

Eu de vós que direi. Virgem sagrada?
De vós, que ao pé da cruz de espada aguda
Vejo co’os olhos da alma trespassada?

Nada posso dizer sem vossa ajuda;
Pois vós nunca a negais a pecadores,
Soltai a minha lingua atada e muda.

Por ver que sempre fui o mor dos mores,
Jamais pude de mim presumir tanto,
Que tentasse cantar vossos louvores.

Agora vos dou choro em vez do canto,
Que grande razão é, Virgem sem mágua1,
Que com pranto acompanhe o vosso pranto.

Os vossos olhos vejo fontes de água;
Vendo sua luz morta em vossos braços,
Que fazem estes meus em tão grão mágoa?

Ai! quanto são de lágrimas escassos!
Quanto mostra de amor pequeno efeito
Uma alma a quem a dor não faz pedaços!…

 

Ai! Cegos, descuidados pecadores!
Pobres de piedade e de sentido,
Não vemos de que somos causadores!

Não vemos o Senhor da cruz descido,
Que tal está no colo da Senhora,
Que não sei como d’ella é conhecido!

Abri-vos, olhos meus, e vede agora
Em qual forma se mostra, em qual estado
Aquele a quem a terra e o céu adora.

Vede como no seu corpo sagrado
Desde a planta do pé até a cabeça
Não tem onde não seja maltratado.

Crudelíssimas mãos, gente perversa,
Quem para executar tal crueldade
Vos deu tamanha força, quem tal pressa?

Como vos não movia a piedade
D’um cordeiro sem mancha a mansidão?
Da sua fala a grão suavidade?

Como vos consentia o coração
Pagar com tal crueza tal brandura?
Ah gente cega, gente sem razão.

Porque tratastes mal tal formosura,
Bem tinheis coracões de ferro duro,
Quando desfigurastes tal figura.

Aquele Sol sereno, claro e puro
Do seu divino rosto ai! quão asinha
Cobriu a luz e se mostrou escuro!

Que fará a triste mãe, que por vós tinha
gosto da pobre vida e vida amando,
ó bom Jesus, glória desta alma minha?

Vejo que sobre vós está chorando,
E com o licor triste que derrama
As sanctas chagas vos está lavando

Ouço quanto por vós suspira e chama,
e não lhe respondeis, sabendo certo
que inda assi mais que a si mesma vos ama:

assi nu como estais, assi coberto
do sangue que por nós foi derramado,
assi ferido, assi c’o lado aberto;

Assim de espinhos duros coroado,
cruel nova invenção, honra penosa,
tormento só em vós executado.

Que fará senão pranto, lastimosa
de ver que falta em nós conhecimento
de morte tão cruel, tão afrontosa?

Ah grão frieza minha! Ah pouco tento!
Quanto, sem custar muito, valeria
ter de quanto sentistes sentimento!

Ah! quem da noute escura, quem do dia
me desse não gastar hora nem ponto
que na dor vos não tenha companhia!

Quem lágrimas me desse tão sem conto,
que chorando tal morte juntamente
de minha vida má fossem desconto!

Quem no porvir me desse e no presente
a vós, meu Deus, me dar tão de verdade
que de mi vos não visse nunca absente

Quem me dará enfim ūa vontade
que sempre a vossa siga sem errar,
havendo tudo o mais por vaidade?

Quem senão vós, meu Deus, me pode dar
das cousas que desejo cumprimento?
Destes a vida, que podeis negar?

Mas, Virgem, dai vós já consentimento
que dem a vosso filho sepultura;
tende, pois assi cumpre, sofrimento.

Abrandai vosso pranto, Virgem pura,
porque o vereis primeiro e mais fermoso,
antes de ver três vezes noute escura;

Imortal, impassível, glorioso,
ornado dos despojos da vitória,
do reino dos tormentos temeroso
tornando com triunfo a sua glória

Diogo Bernardes.

 

  1. Mácula

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