As Duas Finalidades do Apostolado Sacerdotal

O ofício próprio do sacerdote é ser mediador entre Deus e o povo. Nosso Senhor Jesus Cristo exerceu tanto a mediação descendente, dando ao povo a doutrina sagrada e a graça; quanto a mediação ascendente, oferecendo a Deus as orações e o sacrifício do povo1. Embora todas as suas obras sejam teândricas, Nosso Senhor exerceu ambas as mediações particularmente segundo a sua natureza humana. Portanto, Nosso Senhor era propriamente sacerdote, segundo a sua natureza humana2. O sacerdote católico, como visto, participa deste mesmo sacerdócio.

O fim do sacerdócio é a satisfação de Deus e a santificação das almas. “É necessário ter bem presente ao espírito que o padre só deve trabalhar para a glória de Deus e a salvação das almas”3. Ora, se é mais ou menos evidente como é digno de castigo um sacerdote que falta contra a satisfação de Deus (a sua glória), não menos trágico é o castigo devido ao sacerdote que falta contra a santificação das almas.

Conforme São João Crisóstomo, “o sacerdócio exige zelo a tal ponto que o padre tem a seu encargo orar por todos os habitantes da terra, vivos e mortos: deve ser o pai de todos os homens”. E prosseguindo, nem mesmo entre os justos da Antiga Aliança, grandes mediadores entre Deus e os homens, o Santo Doutor encontra alguém digno deste ministério: “em minha opinião, nem Moisés, nem o profeta Elias teriam crédito bastante para se desempenharem de tal prece”4.

O mesmo São João Crisóstomo5, elenca alguns textos da Sagrada Escritura para dar força ao seu argumento contra os sacerdotes negligentes. Em primeiro lugar, sobre as contas que os sacerdotes darão a Deus pelas almas a eles confiadas: “Obedecei aos vossos superiores e tributai-lhes sujeição: porque eles vigiam pelas vossas almas, como quem um dia há de responder por vós”6. E em segundo lugar, sobre o prejuízo às almas que pode causar um mau sacerdote, a quem Nosso Senhor promete castigos terríveis7;

A Maior Glória de Deus

Conforme Santo Afonso8 o zelo, virtude que dirige as obras da vida ativa, nasce da caridade. A caridade obriga a amar a Deus e ao próximo. Portanto, o zelo obriga primeiro  a procurar a glória de Deus e impedir que se ultraje seu Santo Nome; depois promover o bem do próximo, sobretudo o seu bem sobrenatural, a salvação, e preservá-lo do mal, sobretudo da condenação eterna ao inferno. Deus deseja as obras de apostolado e o zelo pelas almas, conforme o argumento de D. Chautard9: Nosso Senhor derramou o sangue que resgata o mundo. Ora, por si só Ele poderia ter aplicado a virtude deste sangue e ter operado de modo imediato sobre as almas. Mas, ao invés, quis colaboradores associados à distribuição de seus benefícios, isto é, os sacerdotes.

Entretanto, o zelo deve proceder de uma intensa vida interior, sob o risco de se tornar infértil. Ora, a vida interior se pratica pelos atos interiores da virtude da religião, sobretudo pelas virtudes teologais; e implica um duplo movimento de afastamento das criaturas e conversão a Deus, pelo qual a alma se purifica de um desornado amor de si mesma e das criaturas, operando cada vez mais por amor sobrenatural de Deus. O pe. Garrigou-Lagrange, a este respeito, analisa a causa da esterilidade do apostolado sacerdotal:

A esterilidade do apostolado nasce de que muitos sacerdotes e religiosos não têm uma fé sobrenatural suficientemente intensa, viva, penetrante e irradiadora. Não podem, em consequência, comunicá-la ao povo cristão, agitado por tantos erros gravíssimos. A esterilidade provém de que muitos sacerdotes não têm uma esperança firme no auxílio divino e uma caridade ardente, alma do apostolado. Por que falta o zelo pela glória de Deus e pela salvação das almas? Porque falta espírito de sacrifício. (…) Só o espírito de sacrifício arranca da alma sacerdotal e religiosa toda a desordem, fazendo que nela prevaleça a caridade, da que nascem a paz e o gozo. Se se acaba toda a mortificação, desaparece com ela o gozo, porque a vida afetiva de nosso coração, se se apega ao sensível, torna-se incapaz de elevar-se até Deus10.

Para Santo Afonso, o sacerdote que tiver como fim o respeito humano, a honra própria ou qualquer outra razão diferente da glória de Deus, não poderá eximir-se de pecar no exercício do apostolado e de produzir uma obra estéril, pois Deus concede sua graça e seus auxílios a quem opera com a intenção de agradá-lo11. D. Chautard evidencia esta necessidade, que demanda a atividade apostólica, pelos quatro primeiros dos seus princípios da vida interior12: Não são abençoadas obras mantidas unicamente pela atividade natural, ou mais por amor próprio que por amor a Deus; é imprudente e nocivo dedicar-se excessivamente às obras em detrimento dos exercícios essenciais da vida interior; é para isso útil e necessário impor-se um regulamento de vida, segundo um prudente diretor espiritual; e quanto maiores e mais numerosas forem as ocupações, maior a necessidade da alma de vida interior.

A Santificação das Almas

“Quem houver convertido um pecador extraviado, salvará sua alma e cobrirá a multidão de seus pecados”13. Sobre a recompensa ao sacerdote, pelo zelo das almas, afirma Santo Afonso que não pode morrer mal um sacerdote que gastou a sua vida a trabalhar na salvação das almas14. Esta graça da boa morte, da perseverança final, é alcançada pelo valor meritório de suas obras: “um padre que trabalha, ainda que sem frutos, em reconduzir um pecador obstinado, receberá uma recompensa tanto maior quanto mais penosos tiverem sido os seus trabalhos”15.

A respeito das obras a que se deve consagrar o sacerdote zeloso, o mesmo Santo Doutor ensina que deve ter o cuidado de advertir os pecadores, a fim de não lhe serem imputados os pecados do povo que culposamente negligenciar; dar-se à pregação, pela qual a fé e o temor de Deus florescem e se conservam entre os fiéis; assistir os moribundos, dado que no momento da morte os pobres pecadores são mais tentados pelo demônio e menos capazes de lhe resistir; por fim, como meio mais eficiente para salvar as almas, deve o sacerdote aplicar-se a ouvir confissões16. O pe. Garrigou-Lagrange trata específica e detidamente da pregação, da confissão sacramental e da direção espiritual, como os principais meios do apostolado sacerdotal em seu livro  La union del sacerdote con Cristo, sacerdote y víctima.

Afirma D. Chautard que, depois da oração e da imolação, o meio mais eficaz do seu apostolado é o conjunto das funções sacerdotais, especialmente a direção espiritual, pois “ninguém é capaz de se conduzir a si próprio”17. “A direção espiritual consiste no conjunto metódico e seguido dos conselhos que uma pessoa, tendo graça de estado, ciência e experiência, dá a uma alma reta e generosa, para fazê-la progredir na sólida piedade e até na perfeição”. É, antes de tudo, em suas palavras, uma “educação da vontade”18.

Do princípio de que “é mais agradável aos olhos de Deus uma alma perfeita do que mil imperfeitas”19, conclui o autor que “a direção espiritual é o meio normal para caminhar na virtude e para chegar à íntima união com Deus”20, pois “todos os que alcançaram a perfeição o fizeram, em geral, seguindo o caminho da obediência”21.


 

Este artigo foi produzido por um congregado da Seção da Boa Imprensa da Congregação Mariana da Imaculada Conceição e Santo Afonso de Ligório, Manaus, Amazonas. A reprodução deste conteúdo é livre, desde que se cite a fonte de origem. Para contato, envie-nos um e-mail

  1. cf. II Pedro I,4; Colossences I,19
  2. cf. GARRIGOU-LAGRANGE, 1962, p. 21-21
  3. LIGÓRIO, 2014, p. 132
  4. Os seis livros do sacerdócio, 2015, p. 109
  5. 2015, p. 106
  6. Hebreus XII,17
  7. cf. São Mateus XVIII,6; I Coríntios VIII,12; Ezequiel XXXIII,6
  8. cf. 2014, p. 114
  9. cf. A alma de todo apostolado, 2017, p. 18
  10. La union del sacerdote con Cristo, sacerdote y víctima, 1962, p. 110-111, tradução nossa
  11. cf. A selva, 2014, p. 127
  12. cf. A alma de todo apostolado, 2017, p. 191-192
  13. São Tiago V,20
  14. cf. A selva, 2014, p. 123
  15. 2014, p. 127
  16. cf. 2014, p. 129-132
  17. CHAUTARD, 2017, p. 170
  18. CHAUTARD, 2017, p. 175
  19. LIGÓRIO, Sto. A. M., Praxis Conf. C. 9. Apud: GARRIGOU-LAGRANGE, 1962, p. 245, tradução nossa
  20. La union del sacerdote con Cristo, sacerdote y víctima, 1962, p. 246, tradução nossa
  21. 1962, p. 247, tradução nossa
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