Preparação para a Consagração – 3º dia da Primeira Semana

Primeira Semana - Conhecimento de Si Mesmo

Somos grandes feridos

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Orações

O rosário e a coroinha de Nossa Senhora podem ser encontrados aqui

Veni, Sancte Spiritus

Vinde Espírito Santo, enchei os corações dos vossos fiéis e acendei neles o fogo do Vosso Amor. Enviai o Vosso Espírito e tudo será criado e renovareis a face da terra.
Oremos: Ó Deus que instruíste os corações dos vossos fiéis, com a luz do Espírito Santo, fazei que apreciemos retamente todas as coisas segundo o mesmo Espírito e gozemos da sua consolação.Por Cristo Senhor Nosso. Amém

Veni Sancte Spíritus reple tuórum corda fidélium, et tu amóris in eis ignem accénde. Emítte Spíritum tuum et creabúntur. Et renovábis faciem terrae.

Oremus: Deus, qui corda fidélium Sancti Spíritus illustratióne docuisti da nobis in eódem Spíritu recta sápere, et de ejus semper consolatióne gaudére. Per Christum Dóminum nostrum. Amen

Ladainha do Espírito Santo

Senhor, tende piedade de nós.
Jesus Cristo, tende piedade de nós.
Divino Espírito Santo, ouvi-nos.
Espírito Paráclito, atendei-nos.

Deus Pai dos céus, tende piedade de nós.
Deus Filho, redentor do mundo,
Deus Espírito Santo,
Santíssima Trindade, que sois um só Deus.
Espírito da verdade,
Espírito da sabedoria,
Espírito da inteligência,
Espírito da fortaleza,
Espírito da piedade,
Espírito do bom conselho,
Espírito da ciência,
Espírito do santo temor,
Espírito da caridade,
Espírito da alegria,
Espírito da paz,
Espírito das virtudes,
Espírito de toda graça,
Espírito da adoção dos filhos de Deus,
Purificador das nossas almas,
Santificador e guia da Igreja Católica,
Distribuidor dos dons celestes,
Conhecedor dos pensamentos e das intenções do coração,
Doçura dos que começam a vos servir,
Coroa dos perfeitos,
Alegria dos anjos,
Luz dos patriarcas,
Inspiração dos profetas,
Palavra e sabedoria dos apóstolos,
Vitória doa mártires,
Ciência dos confessores,
Pureza das virgens,
Unção de todos os santos,

Sede-nos propício, perdoai-nos, Senhor.
Sede-nos propício, atendei-nos, Senhor.

De todo o pecado, livrai-nos, Senhor.
De todas as tentações e ciladas do demônio,
De toda a presunção e desesperação.
Do ataque à verdade conhecida,
Da inveja da graça fraterna,
De toda a obstinação e impenitência,
De toda a negligência e tepor do espírito,
De toda a impureza da mente e do corpo,
De todas as heresias e erros,
De todo o mau espírito,
Da morte má e eterna,

Pela vossa eterna procedência do Pai e do Filho,

Pela milagrosa conceição do Filho de Deus,
Pela vossa descida sobre Jesus Cristo batizado,

Pela vossa santa aparição na transfiguração do Senhor,
Pela vossa vinda sobre os discípulos do Senhor,
No dia do juízo,
Ainda que pecadores,nós vos rogamos, ouví-nos.

Para que nos perdoeis,
Para que vos digneis vivificar e santificar todos os membros da Igreja,
Para que vos digneis conceder-nos o dom da verdadeira piedade, devoção e oração,
Para que vos digneis inspirar-mos sinceros afetos de misericórdia e de caridade,
Para que vos digneis criar em nós um espírito novo e um coração puro,
Para que vos digneis conceder-nos verdadeira paz e tranqüilidade no coração,
Para que vos digneis fazer-nos dignos e fortes, para suportar as perseguições pela justiça,
Para que vos digneis confirmar-nos em vossa graça,
Para que vos digneis receber-nos o número dos vossos eleitos,
Para que vos digneis ouvir-nos,
Espírito de Deus,

Cordeiro de Deus que tirais os pecados do mundo, envia-nos o Espírito Santo.
Cordeiro de Deus que tirais os pecados do mundo, mandai-nos o Espírito prometido do Pai.
Cordeiro de Deus que tirais os pecados do mundo, dai-nos o Espírito bom.
Espírito Santo, ouví-nos.
Espírito Consolador, atendei-nos.

V. Enviai o vosso Espírito e tudo será criado.
R. E renovareis a face da terra.

Oremos: Deus, que instruístes o coração de vossos fiéis, com a luz do Espírito Santo,
concedei-mos que, no mesmo Espírito, conheçamos o que é reto,
e gozemos sempre as suas consolações.

Por Cristo, Nosso Senhor. Amém.

Kyrie, Eleison
Christie, Eleison
Spiritus Sancte, audi nos
Spiritus Paraclite, exaudi nos

Pater de caelis, Deus, miserere nobis.
Fili redemptor mundi Deus,
Spiritus Sancte Deus,
Sancta Trinitas, unus Deus,
Spiritus veritatis,
Spiritus sapientiae,
Spiritus intellectus,
Spiritus foritudinis,
Spiritus pietatis,
Spiritus recti consilit,
Spiritus scientiae,
Spiritus sancti timoris,
Spriritus caritatis,
Spiritus gaudii,
Spiritus pacis,
Spiritus virtutum,
Spiritus multiformis gratiae,
Spiritus adoptionis Filiorum Dei,
Purificatur animarum nostrarum,
Ecclesiæ catholicæ sanctificator et rector,
Caelestium donorum distributor,
Discretor cogitationum et intetionum cordis,

Dulcedo in tuo servitio incipientium,
Corona perfectorum,
Gaudium angelorum,
Iluminatio patriarcarum,
Instpiratio prophetarum,
Os et sapientiae apostolorum,
Victoria Martyrium,
Scientia Condessorum,
Puritas virginum,
Unctio sanctorum omnium,

Propitius esto, parce nobis Domine,
Porpitius esto, exaudi nos Domine,

Ab omni peccato libera nos Domine,
Ad omnibus tentationinbus et insidiis diaboli,
Ab omnine presumptione e desesperatione,
Ab impugnationem veritatis agnitae,
Ab invidentia fraternae gratiae,
Ab omni obstinatione et impoenitentia,
Ab omni negligentia et tepore animi,
Ab omni immunditia mentis et corporis,
Ab haeresibus et erroribus universais,
Ab omni malo spiritu,
A mala et aeterna morte,

Per aeternam ex Patre ex Filioque processionem tuam,
Per miraculosam conceptionem Filii Dei,
Per descensionem tuam super Christum baptizatum,
Per sanctam apparitionem tuam in tranfiguratione Domine,
Per adventum tuum super discípulos Christi,
In die iudicii.
Peccatores, te rogamus, audi nos.

Ut nobis parcas,
Ut omnia Ecclesia membra vivificare et sanctificare digneris,
Ut verae pietatis, devotionis et orationis donum nobis dare digneris,
Ut sinceros misericordiae charitatisque affectus nobis inspirare digneris,
Ut spiritum novum et cor mundum in nobis creare digneris,
Ut veram pacem et cordis tranquilitatem nobis dare digneris,
Ut ad tollerandas propter iustitiam persecutiones nos dignos et fortes efficias,
Ut nos in gratia tua confirmare digneris,

Ut nos in numerum electorum tuorum recipias,
Ut nos exaudire digneris,
Spiritus Dei,

Agnus Dei, qui tollis peccata mundi, effunde in nos Spiritum Sanctum.
Agnus Dei, qui tollis peccata mundi, emitte promissum in nos Patris Spiritum.
Agnus Dei, qui tollis peccata mundi, da nobis Spiritum bonum.
Spiritus Sanctum, audi nos.
Spiritus Paraclite, exaudi nos.

V. Emitte Spiritum tuum et creabuntur.
R. Et renovabis faciem terrae.

Oremus: Deus qui corda fidelium Sancti Spiritus illustratione docuisti, da nobis in eodem Spiritu recta sapere et de eius semper consolatione gaudere.

Per Christum Dominum nostrum. Amen.

 

Ave Maris Stella

Clique aqui para ouvir o canto gregoriano

Ave, do mar Estrela
De Deus mãe bela,
Sempre virgem, da morada
Celeste Feliz entrada.

Ó tu que ouviste da boca
Do anjo a saudação;
Dá-nos a paz e quietação;
E o nome da Eva troca.

As prisões aos réus desata.
E a nós cegos alumia;
De tudo que nos maltrata
Nos livra, o bem nos granjeia.

Ostenta que és mãe, fazendo
Que os rogos do povo seu
Ouça aquele que, nascendo
Pos nós, quis ser filho teu.

Ó virgem especiosa,
Toda cheia de ternura,
Extintos nossos pecados
Dá-nos pureza e bravura,

Dá-nos uma vida pura,
Põe-nos em vida segura,
Para que a Jesus gozemos,
E sempre nos alegremos.

A Deus Pai veneremos:
A Jesus Cristo também:
E ao Espírito Santo; demos
Aos três um louvor: Amém.

Ave, Maris Stella,
Dei mater alma,
Atque semper Virgo,
Felix caeli porta.

Sumens illud Ave,
Gabrielis ore,
Funda nos in pace
Mutans Evae nomen.

Solve vincla reis,
Profer lumen caecis,
Mala nostra pelle,
Bona cuncta posce.

Monstra te esse Matrem,
Sumat per te preces,
Qui pro nobis natus
Tulit esse tuus.

Virgo singularis,
Inter omnes mitis,
Nos, culpis solutos,
Mites fac et castos.

Vitam praesta puram,
Iter para tutum:
Ut, videntes Jesum,
Semper collaetemur.

Sit laus Deo Patri,
Summo Christo decus
Spiritui Sancto,
Tribus honor unus. Amen.

Leitura Espiritual

Estas leituras espirituais podem ser feitas no dia anterior, em preparação para a meditação do dia.

Evangelho - Mt 25, 31-46 — Descrição do Juízo final

31.“Quando o Filho do Homem voltar na sua glória e todos os anjos com ele, se sentará no seu trono glorioso.
32.Todas as nações se reu­nirão diante dele e ele separará uns dos outros, como o pastor separa as ovelhas dos cabritos.
33.Colocará as ovelhas à sua direita e os cabritos à sua esquerda.
34.Então, o Rei dirá aos que estão à direita: ‘Vinde, benditos de meu Pai, tomai posse do Reino que vos está preparado desde a criação do mundo,
35.porque tive fome e me destes de comer; tive sede e me destes de beber; era pere­grino e me acolhestes;
36.nu e me vestistes; enfermo e me visitastes; estava na prisão e viestes a mim’.
37.Os justos lhe perguntarão: ‘Senhor, quando foi que te vimos com fome e te demos de comer, com sede e te demos de beber?
38.Quando foi que te vimos peregrino e te acolhemos, nu e te vestimos?
39.Quando foi que te vimos enfermo ou na prisão e te fomos visitar?’.
40.Responderá o Rei: ‘Em verdade eu vos declaro: todas as vezes que fizestes isso a um destes meus irmãos mais pequeninos, foi a mim mesmo que o fizestes.’
41.Ele se voltará em seguida para os da sua esquerda e lhes dirá: ‘Retirai-vos de mim, malditos! Ide para o fogo eterno destinado ao demônio e aos seus anjos.
42.Porque tive fome e não me destes de comer; tive sede e não me destes de beber;
43.era peregrino e não me acolhes­tes; nu e não me vestistes; enfermo e na prisão e não me visitastes’.
44.Também estes lhe perguntarão: ‘Senhor, quando foi que te vimos com fome, com sede, peregrino, nu, enfermo, ou na prisão e não te socorremos?’.
45.E ele responderá: ‘Em verdade eu vos declaro: todas as vezes que deixastes de fazer isso a um destes peque­ninos, foi a mim que o dei­xastes de fazer’.
46.“E estes irão para o castigo eterno, e os justos, para a vida eterna.”

Imitação de Cristo - Livro II, Cap II

Da familiar amizade com Jesus

1. Quando Jesus está presente, tudo é suave e nada parece dificultoso; mas, quando Jesus está ausente, tudo se torna penoso. Quando Jesus não fala ao coração, nenhuma consolação tem valor; mas se Jesus fala uma só palavra, sentimos grande alívio. Porventura não se levantou logo Maria Madalena do lugar onde chorava, quando Marta lhe disse: O Mestre está aí e te chama? (Jo 11,28). Hora bendita, quando Jesus te chama das lágrimas para o gozo do espírito! Que seco e árido és sem Jesus! Que néscio e vão, se desejas outra coisa, fora de Jesus! Não será isto maior dano do que se perdesse o mundo inteiro?

2. Que te pode dar o mundo sem Jesus? Estar sem Jesus é terrível inferno, estar com Jesus é doce paraíso. Se Jesus estiver contigo, nenhum inimigo te pode ofender. Quem acha a Jesus acha precioso tesouro, ou, antes, o bem superior a todo bem; quem perde a Jesus perde muito mais do que se perdesse a todo o mundo. Paupérrimo é quem vive sem Jesus, e riquíssimo quem está bem com Jesus.\

3. Grande arte é saber conversar com Jesus, e grande prudência conservá-lo consigo. Sê humilde e pacífico, e contigo estará Jesus; sê devoto e sossegado, e Jesus permanecerá contigo. Depressa podes afugentar a Jesus e perder a sua graça, se te inclinares às coisas exteriores; e se o afastas e o perdes, aonde irás e a quem buscarás por amigo? Sem amigo não podes viver, e se não for Jesus teu amigo acima de todos, estarás mui triste e desconsolado. Logo, loucamente procedes, se em qualquer outro confias e te alegras. Antes ter o mundo todo por adversário, que ofender a Jesus. Acima de todos os teus amigos seja, pois, Jesus amado dum modo especial.

4. Sê livre e puro no teu interior, sem apego a criatura alguma. É mister desprenderes-te de tudo e ofereceres a Deus um coração puro, se queres sossegar e ver como é suave o Senhor. E, com efeito, tal não conseguirás, se não fores prevenido e atraído por sua graça, de modo que, deixando e despedindo tudo mais, com ele só estejas unido. Pois, quando lhe assiste a graça de Deus, de tudo é capaz o homem; e quando ela se retira, logo fica pobre e fraco, como que abandonado aos castigos. Ainda assim, não deves desanimar nem desesperar, antes resignar-te na vontade de Deus, e sofrer tudo que te acontecer, por honra de Jesus; pois ao inverno sucede o verão, depois da noite volta o dia, e após a tempestade reina a bonança.

Meditação

É-nos permitido, agora, dedicar-nos ao conhecimento de nossa., misérias. Há, primeiro, aquelas que derivam em linha direta do pecad( original. Esse pecado deixou em nosso ser natural FERIDAS profundas. Consideremo-las uma após a outra. Quanto mais as conhecermos, mais nos dedicaremos a aplicar-lhes os REMÉDIOS da ascese cristã. Continuemos a invocar o Espírito Santo e sua Esposa imaculada. Em razão de sua preservação do pecado original, Maria — muito mais profundamente do que nós — é capaz de compreender nossa miséria moral; e toda a sua maternal compaixão só pede para nos socorrer.

As FERIDAS do pecado original. Adão, no estado de inocência, não possuía somente a graça santificante em sua alma; ele gozava ainda, por uma abundância de graça, privilégios magníficos que aperfeiçoavam sua natureza e o tornavam mais apto a viver com segurança e alegria seu papel de cabeça do gênero humano. Esses privilégios — dons absolutamente gratuitos — eram a ciência infusa, que o aproximava dos anjos; o domínio sobre as paixões, isto é, a isenção da concupiscência ou da inclinação ao mal; a impassibilidade, isto é, a exclusão da enfermidade e de todo sofrimento; a imortalidade, isto é, a isenção da morte corporal. Tendo transcorrido o tempo da prova, Adão devia passar sem dificuldade do paraíso terrestre ao paraíso celestial. Mas, por sua desobediência grave, ele perdeu de uma só vez a graça santificante e todos os privilégios que Deus lhe havia concedido. O sacramento do batismo nos devolve a graça santificante com o direito à felicidade do Céu; mas não nos restitui os dons preternaturais que a acompanhavam. Permanecemos, assim, num estado de decadência, de desgraça, de empobrecimento, sofrendo em nossa natureza o que denominamos as feridas do pecado original: a ignorância, a concupiscência, o sofrimento e a morte.

Em nossa inteligência, a ignorância substituiu a ciência infusa. O primeiro homem recebera de Deus a revelação das verdades sobrenaturais que seu estado de justiça comportava, assim como um conjunto de conhecimentos sobre as coisas necessárias à vida, em razão de Bua condição de cabeça e educador do gênero humano. Como essa ciência foi perdida, devemos remediar esse mal por meio da ciência adquirida. Quando chegamos ao mundo, ignoramos tudo: nossa inteligência se encontra tão nua quanto uma placa de mármore bem lisa 1 'lide não há nada gravado, ou quanto um painel em branco, sobre a qual nada está pintado. Tudo deverá começar a chegar a nós pelos sentidos, e durante nossa vida inteira será preciso aprender. Um duro e contínuo trabalho se impõe, pois a ignorância, sobretudo a das verdades importantes para a direção de nossa vida moral e de nossa vida espiritual, não é facilmente vencida. É um fato que o a maioria dos batizados se mostra resistente a cultivar e desenvolver em si os ensinamentos do catecismo.

Contentam-se com pouco, não compreendem que importaria nunca se desabituar do estudo das verdades reveladas. Por isso, quantas deficiências, quantas lacunas, quantos erros nos espíritos em matéria religiosa! Mesmo naqueles que se dirigem decididamente ao conhecimento de Deus e das coisas divinas, que se dedicam a reduzir tanto quanto possível a ignorância nativa por meio da inteligência dos mistérios da fé e pelas iluminações provenientes dos dons do Espírito Santo, uma grande parte de obscuridade permanece. Avançam às cegas rumo à plena luz reservada à gloria, sabendo bem que se entregam ao estudo de uma ciência infinita, mas que produz sua beatitude neste mundo.

"Ó Senhor, suplicava santo Agostinho, que vossas Escrituras sejam sempre minhas castas delícias. Que eu beba de vossas águas salutares, desde o começo do Livro sagrado, em que vemos a criação do Céu e da terra, até o fim, onde contemplamos a consumação do Reino perpétuo de vossa Cidade santa." Santo Agostinho era, no entanto, um grande gênio. O que pensar, então, de nós mesmos e de nossas ignorâncias humilhantes? Com a ciência infusa, o pecado original nos fez perder igualmente o domínio sobre nossas paixões. A vontade de Adão inocente, especialmente fortificada pela graça, matinha facilmente a ordem em meio às tendências das faculdades inferiores. "

O poder da imagem de Deus na alma era tamanho, escreve Bossuet, que sobre tudo tinha controle." (O corpo estava submisso à alma, como a alma estava submissa a Deus. Com o desaparecimento da graça, o domínio sobre as paixões também desapareceu. Nossas faculdades reclamam, às vezes imperiosamente, suas satisfações. Nossos sentidos exteriores, nossos olhares, por exemplo, dirigem-se com avidez ao que agrada à curiosidade, nossos ouvidos escutam com zelo as novidades que se apresentam; nosso tato busca as sensações agradáveis, e isto, amiúde, para além dos limites permitidos pela lei moral. O mesmo se dá com nossos sentidos interiores: a imaginação representa para nós toda sorte de cenas mais ou menos sensuais; a sensibilidade cobiça fruições inferiores.

Todos esses sujeitos revoltados tentam arrastar o consentimento da vontade. É a tirania da CONCUPISCÊNCIA, a inclinação violenta ao mal, a atração desordenada pelo prazer proibido. Seguramente, a vontade pode resistir; mas ela mesma experimenta os efeitos da desobediência de nosso primeiro pai. É difícil para ela se submeter a Deus e aos seus representantes sobre a terra. Tem pretensões à independência; de bom grado pensa bastar a si mesma. Por isso, quantos esforços são-lhe necessários para vencer os obstáculos que se opõem à realização do bem.

Quanta fraqueza, quanta inconstância nesses esforços! Quantas vezes ela se deixa arrastar pelo sentimento e pelas paixões! São Paulo (Rom 7, 19-25) descreveu, em termos tocantes, essa deplorável fraqueza: "Eu não faço o bem que quero, mas faço o mal que não quero... Vejo nos meus membros outra lei que se opõe á lei do meu espírito, e que me faz escravo da lei do pecado, que está nos meus membros. Infeliz de mim! Quem me livrará deste corpo de morte?..." .40 É a luta da carne contra o espírito. Todo filho de Adão a experimenta vivamente em sua alma. A graça batismal, desenvolvendo-se em uma vida cristã verdadeiramente virtuosa, corrige, atenua essa propensão ao pecado; mas nunca a cura inteiramente. O domínio sobre eles mesmos, quase sem falha, que admiramos nos santos, é o resultado de lutas heroicas e de pacientes esforços, sustentados por uma graça poderosa.

Quanto às duas outras feridas do pecado original, o sofrimento e a morte, elas permanecem inelutáveis e implacáveis para todos. Devemos comer nosso pão com o suor de nosso rosto, expostos às doenças e enfermidades de toda sorte; esperando voltar um dia à terra da qual fomos tirados. Mas aqui também, com a graça redentora usada proveitosamente, podemos santificar o sofrimento e suavizar o que a morte comporta de pavoroso e de cruel. Lembremo-nos do que diz o Padre S. Montfort quanto à morte dos fiéis escravos de Maria: ela é doce e tranqüila, tendo ordinariamente a assistência da Virgem para conduzi-lo pessoalmente às alegrias da eternidade. (V. D., n. 200.)

II
Os REMÉDIOS da ascese cristã. Conhecendo as feridas que carregamos em nossa natureza humana, importa-nos não somente crer no dogma do pecado original, mas, em consequência disso, desenvolver em nós, de maneira habitual, uma grande humildade de espírito. Essa humildade será o primeiro remédio para a nossa miséria nativa: é impossível conceber seres decaídos que se exaltam. Sem dúvida, nossa natureza não está corrompida em si mesma. As expressões, geralmente fortes, da tradição cristã sobre a decadência original, devem ser entendidas sobre o homem em relação à sua condição primeira, não da natureza considerada em si mesma. Esta, mesmo após o pecado, não é intrinsecamente má; ela conserva seu livre-arbítrio, é ainda capaz de algum bem em sua ordem. Resta, contudo, que somos seres enfraquecidos, empobrecidos, degrada-dos, desfigurados, privados de dons magníficos: a natureza era feita para a graça.

Quando dizemos privação, falamos de uma coisa que falta, enquanto devia estar presente; e, por isso mesmo, é um mal, é uma desordem essa ausência. É uma desordem diante de Deus, é a desordem do pecado original acarretando todas as consequências que assinalamos." Ainda que, pessoalmente, não sejamos culpados por ele, devemos nos humilhar. Essa é a atitude que nos convém: ela vai nos ajudar, agora, a melhor conhecer as tendências perniciosas que predominam em nós e se opõem à aquisição das virtudes. Elas são a causa mais frequente de nossos pecados atuais.

Essas tendências, chamadas comumente de defeitos dominantes, não são outra coisa senão o apego a si mesmo, enraizado mais fortemente em uma ou outra das três grandes cobiças que nos arrastam para o mal: o orgulho, a cobiça da carne e a dos olhos. Importa conhecê-las bem, a fim de estar em condições de melhor combatê-las. O orgulho nos arrasta a um amor excessivo por nossa pessoa. Esse amor se manifesta de diversas maneiras: sob a forma de egoísmo, ou de vaidade, ou de presunção, ou ainda de ambição com desejo de dominar. Certas naturezas são de um egoísmo muito acentuado, sempre pronto a se mostrar: o eu vem em primeiro lugar. Tudo está concentrado em si mesmo, não há preocupação ou inquietação senão em relação a si, a natureza fecha-se em si mesma como se fosse seu próprio centro. Não pensa nos outros, não se interessa por eles, não desenvolve simpatia. Esse defeito traz muito sofrimento aos que a cercam. Não podeis dizer nada, nem sobre uma dificuldade, nem sobre uma alegria, nem evocar uma lembrança ou relatar vossas impressões, sem que vosso interlocutor, de imediato, sem dar ouvidos a nada, vos dirija ao que ele mesmo viu, conheceu, experimentou: eu isto, eu aquilo... É sempre o eu posto adiante. Outras naturezas são vaidosas: buscam a estima, a aprovação, o louvor. A exibição não as constrange: falam de si com vantagem, de sua inteligência, de suas capacidades, de seus talentos, de sua habilidade; e também de sua familia, de suas relações, de seus sucessos, que sempre superaram os sucessos dos outros.

Gostam também de atrair sobre si a atenção por certas maneiras de agir, de se vestir, de aparecer, por uma pompa que manifestam sempre que há ocasião, ou por singularidades que se permitem. Medíocres satisfações que privam a alma de muitos méritos. Outros apresentam o defeito de presunção: trata-se de uma confiança ilimitada em si mesmo, em suas faculdades naturais, em sua ciência, sua força, e até mesmo em suas virtudes. Donde a tendência a se elevar acima dos outros, a querer fazer coisas surpreendentes; e mais ainda a desejar sempre ter razão, a não reconhecer seus erros, a não considerar as advertências recebidas; a não se dobrar, a não ceder; muito mais, a resistir a tudo e contra tudo.

E diante de uma resistência, irritam-se, indispõem-se, chegam às vezes à cólera, que faz perder o controle das faculdades. Esse defeito, como vimos, era o do apóstolo Simão Pedro, cabeça do colégio apostólico. Por não tê-lo reconhecido, expôs-se à tentação sem precauções nem garantias, e caiu em um triplo pecado grave. Acrescentemos, em seu louvor, que depois de ter reconhecido e chorado suas negações, tornou-se o mais humilde de todos, como testemunhou sua morte na cruz. A ambição e o desejo de dominar derivam da mesma fonte.

A natureza ama e busca as honras, as dignidades. Quer chegar aos primeiros cargos; e por isso, mostra-se lisonjeira, elogiosa, buscando o favor dos que estão no alto. Quando ali chega de fato, para manter seu posto, não pensa duas vezes antes de afastar as pessoas que a incomodam, e cerca-se de outras que a adulam. A inveja ou o ciúme entram então em jogo em relação a quem exerça uma ascendência capaz de destruir sua situação elevada ou rivalizar com as qualidades brilhantes que admira em si. Sofre ao ouvir louvar os outros; esforça-se por atenuar esses elogios por meio de críticas malignas. Tal é a triste demonstração do defeito de orgulho. Como vemos, ele se opõe antes de tudo ao espírito de humildade.

A cobiça da carne leva-nos a amar o corpo mais do que devemos: é uma tendência muito pronunciada a se dedicar excessivamente às satisfações que o afetam. Aqueles em que domina esta cobiça têm de lutar mais do que os outros contra a preguiça, a gula, e contra as afeições sensíveis. A preguiça faz recuar diante de todo esforço corporal: o trabalho assíduo, as obrigações, os empregos que reclamam uma coragem perseverante. Por outro lado, ela se compraz no que favorece o descanso do corpo, seu bem-estar, como o sono prolongado, Os banhos frequentes, o uso dos perfumes, as vestimentas delicadas, os passeios agradáveis, as visitas sem razão. Essa preguiça, se não é combatida, expõe a muitas tentações.

A gula revela um abuso do prazer legítimo que Deus quis relacionar ao comer e ao beber: seja consumindo alimento ou bebida sem necessidade, fora das refeições, pelo prazer de se satisfazer; seja buscando nas refeições o que há de melhor, os pratos mais bem preparados, como fazem os gastrônomos; seja consumindo uma quantidade exagerada de alimentos, com o risco de comprometer a saúde (quantas enfermidades provêm dos excessos à mesa!); seja, ainda, comendo com avidez, um pouco como os animais que se precipitam sobre o que lhes dão. Quantas faltas cometemos assim contra a mortificação. As afeições ou amizades sensíveis, buscadas por si mesmas, sem outra razão senão a satisfação do coração, são sempre perigosas, pois o limite é rapidamente ultrapassado, e passa do sensível ao sensual, e do sensual ao carnal.

Entregamo-nos, não vigiamos nossa imaginação, nossa sensibilidade, nossos olhares e sobretudo o sentido do toque. Esse é o defeito dominante de certas naturezas que podem ser muito ricas, mas que são, ao mesmo tempo, muito fracas. É preciso saber colocar ordem nisto desde o começo, senão correremos ao encontro de quedas lamentáveis. Essas espécies de afeições são permitidas somente entre os que têm a liberdade e a intenção de se unirem em matrimônio. A cobiça dos olhos inclina à avareza, que entendemos aqui como o apego exagerado aos bens que se possui ou dos quais se pode dispor. Temos a tendência de guardar de modo ciumento nosso dinheiro uma vez adquirido.

Gastamos com pesar, com mesquinharia. Recusamos ajudar os nossos, não damos nada ou quase nada aos pobres e às boas obras. Em vez de economizar sabiamente, capitalizamos com exagero, por medo de que venha a faltar, e sem confiar no Pai dos Céus, que cuida de nossas necessidades. Assim, pouco a pouco, os olhos se cravam na terra, como se fôssemos permanecer nela para sempre. Amemos doar, amemos dar a esmola. Todos esses defeitos não são pecados em si mesmos, mas nos fazem cometer muitas faltas, em geral veniais; e à medida que os satisfazemos, eles se fortificam e se tornam cada vez mais exigentes. Podem, então, arrastar-nos aos pecados graves, e até se transformar em hábitos viciosos, tirânicos. É então que, às consequências do pecado original, somam-se as consequências muito mais acentuadas dos pecados pessoais.

O preceito evangélico da renúncia se impõe. Importa-nos, diz Montfort, "renunciar às operações das faculdades de nossa alma". (V. D., ti. 81.) No que concerne à nossa INTELIGÊNCIA, renunciar a esse mal que é a ignorância religiosa. Dediquemo-nos a conhecer o que diz respeito a Deus, nosso fim derradeiro, e aos meios de chegar a ele. Esse conhecimento é primordial: seria insensato se ocupar das ciências humanas e negligenciar a ciência da salvação. Quantos batizados, muito instruídos neste ou naquele ramo do saber humano, têm um conhecimento bastante imperfeito das verdades cristãs. Renunciar a essa vã curiosidade, que busca antes de tudo e de maneira excessiva as leituras agradáveis, como as dos romances, dos jornais e de certas revistas da moda, onde a alma não encontra nada que possa elevá-la ou enriquecê-la. Fazemos, assim, o agradável passar à frente do útil e do necessário, perdemos um tempo precioso, transformamos o que devia ser momento de relaxamento em uma ocupação vazia que se prolonga e prejudica grandemente o bom emprego do dia. Renunciar também e, sobretudo, a essa particularidade de orgulho do espírito, que pretende bastar a si mesmo e se inclina com dificuldade diante dos ensinamentos da fé ou das diretivas do Magistério, como também diante da obediência devida aos Superiores. Argumentamos, criticamos, agarramo-nos às nossas próprias ideias, não consultamos a autoridade, só temos confiança em nosso julgamento, tratamos com desdém as opiniões dos outros. Semeamos, assim, a divisão, em vez de cultivar a paz e a concórdia. No que concerne à VONTADE, que é em nós a faculdade mestra, a causa de nossos méritos ou deméritos, devemos renunciar a seguir as exigências das faculdades inferiores, a fim de sempre submeter perfeitamente nosso querer ao de Deus; o que exige muitos sacrifícios, em particular o sacrifício de nossos gostos, de nossos caprichos, de nossos interesses naturais. Renunciar à irreflexão que nos faz seguir o impulso do momento, o arrebatamento ou mesmo a rotina. Não refletimos antes de agir, não nos perguntamos o que Deus espera de nós. Renunciar à displicência, à indecisão, à falta de força moral, todas coisas que paralisam as forças da vontade. Importa adquirir,

desenvolver as convicções de fé, que estimulam nosso querer e o determinam a escolher o que se conforma ao querer divino. Renunciar ao medo do fracasso: ele é uma falta de confiança, e, p( )1. isso mesmo, diminui singularmente nossas forças. Importa, ao coo trário, lembrar-nos de que com o auxílio da graça temos a certeza de alcançar bons resultados. Renunciar também a esse outro medo que é o respeito humano: temendo as críticas ou as zombarias dos outros, apoiamo-nos menos sobre o julgamento de Deus, o único que importa; nossa vontade é, assim, enfraquecida.

Quanto aos maus exemplos, devemos resistir-lhes com força, pois nos arrastam mais facilmente na medida em que correspondem a uma propensão de nossa natureza. Vimos em nossas meditações dos dias preliminares que é Nosso Senhor que devemos imitar, e não o mundo.
É preciso, além disso, diz-nos Montfort, "renunciar às operações dos sentidos de nosso corpo", isto é, "devemos ver como se não víssemos, ouvir como se não ouvíssemos, nos servir das coisas de‘ste mundo como se não o fizéssemos". (V. D., n. 81.) Essa é a doutrina do apóstolo São Paulo em sua primeira Epístola aos Coríntios (7, 29-31). Decorre disso que devemos renunciar aos olhares gravemente culpados, aqueles que são comandados por maus desejos. Nosso Senhor reprova-os energicamente quando diz: "Se o teu olho direito é para ti causa de queda, arranca-o e lança-o para longe de ti, porque é melhor para ti que se perca um dos teus membros, do que todo o teu corpo seja lançado na geena." (Mt 5, 29.)

O que não quer dizer que devemos furar nossos olhos, mas que é preciso saber arrancar seu olhar da visão de pessoas ou objetos que são motivo de escândalo. Mas devemos também renunciar aos olhares simplesmente curiosos: eles podem suscitar tentações; são sempre causa de uma multidão de lembranças e de imagens que dissipam a alma, obstruem a memória e ocasionam a maior parte de nossas distrações na oração.

Purifiquemos nossos olhares, pousando-os sobre tudo o que é de natureza a elevar nossa alma e a nos fazer bendizer o Criador. No que concerne às palavras contrárias à pureza ou à caridade, me não podemos evitar ouvi-las, ao menos não as escutemos, não ofereçamos a elas um ouvido atento; sobretudo, não interroguemos para estabelecer ou prolongar uma conversação já perniciosa em si mesma. É muito raro que conversações desonestas ou contrárias à caridade não produzam efeitos desastrosos nos que as escutam. As primeiras acendem desejos maus e provocam o pecado; as segundas conduzem a falatórios que prejudicam a reputação do próximo: somos levados a repetir o que ouvimos.

Apreciemos as conversações que são luz e benevolência, ao mesmo tempo que sábia distração. Assim usaremos deste mundo como se não usássemos, sabendo que tudo nele é passageiro, caduco, efêmero. É o que São Paulo denomina "morrer todos os dias": Quotidie morior (1Cor 15, 31). Jesus, recorrendo a uma comparação que lhe é familiar, já havia dito: "Se o grão de trigo, que cai na terra, não morrer, fica infecundo; mas, se morrer, produz muitofruto." (J0 12, 24.) Se não morrermos para nós mesmos, explica Montfort, e se nossas devoções mais santas não nos levam a essa morte necessária e fecunda, não produziremos fruto que valha para a vida eterna, nossas devoções se tornarão inúteis, todas as nossas obras de justiça serão manchadas por nosso amor-próprio e por nossa vontade, o que fará que Deus abomine os maiores sacrifícios e as melhores ações que possamos realizar. No momento de nossa morte, nos encontraremos com as mãos vazias de virtudes e de méritos; não teremos uma centelha do puro amor, que só é comunicado às almas mortas para si mesmas, cuja vida está escondida com Jesus Cristo em Deus. (V D., n. 81.)

Tenhamos, pois, a coragem, com a graça divina, de não recuar diante do austero preceito da negação de si mesmo: ele é a condição primeira e indispensável de nossa caminhada após o divino Mestre. Mas, como a graça divina não nos é dada senão por Maria, as meditações que seguirão — ainda continuando a descobrir nossas misérias — nos mostrarão que poderoso socorro é a Santíssimo Virgem, quando sabemos fazer bom uso de seu papel providencial de Mediadora. Longe de nos apoiar somente sobre nossos esforço!, pessoais, nos dedicaremos a recorrer continuamente à sua ajuda e intercessão. Assim, cultivaremos e desenvolveremos em nós a virtude da humildade; e Maria estará presente para fortificar nossa vontade na luta contra nós mesmos e contra Os inimigos que se opõem ao nosso progresso espiritual.

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