Preparação para a Consagração – 2º dia da Primeira Semana

Primeira Semana - Conhecimento de Si Mesmo

Somos  resgatados

consulte os demais dias aqui

Orações

O rosário e a coroinha de Nossa Senhora podem ser encontrados aqui

Veni, Sancte Spiritus

Vinde Espírito Santo, enchei os corações dos vossos fiéis e acendei neles o fogo do Vosso Amor. Enviai o Vosso Espírito e tudo será criado e renovareis a face da terra.
Oremos: Ó Deus que instruíste os corações dos vossos fiéis, com a luz do Espírito Santo, fazei que apreciemos retamente todas as coisas segundo o mesmo Espírito e gozemos da sua consolação.Por Cristo Senhor Nosso. Amém

Veni Sancte Spíritus reple tuórum corda fidélium, et tu amóris in eis ignem accénde. Emítte Spíritum tuum et creabúntur. Et renovábis faciem terrae.

Oremus: Deus, qui corda fidélium Sancti Spíritus illustratióne docuisti da nobis in eódem Spíritu recta sápere, et de ejus semper consolatióne gaudére. Per Christum Dóminum nostrum. Amen

Ladainha do Espírito Santo

Senhor, tende piedade de nós.
Jesus Cristo, tende piedade de nós.
Divino Espírito Santo, ouvi-nos.
Espírito Paráclito, atendei-nos.

Deus Pai dos céus, tende piedade de nós.
Deus Filho, redentor do mundo,
Deus Espírito Santo,
Santíssima Trindade, que sois um só Deus.
Espírito da verdade,
Espírito da sabedoria,
Espírito da inteligência,
Espírito da fortaleza,
Espírito da piedade,
Espírito do bom conselho,
Espírito da ciência,
Espírito do santo temor,
Espírito da caridade,
Espírito da alegria,
Espírito da paz,
Espírito das virtudes,
Espírito de toda graça,
Espírito da adoção dos filhos de Deus,
Purificador das nossas almas,
Santificador e guia da Igreja Católica,
Distribuidor dos dons celestes,
Conhecedor dos pensamentos e das intenções do coração,
Doçura dos que começam a vos servir,
Coroa dos perfeitos,
Alegria dos anjos,
Luz dos patriarcas,
Inspiração dos profetas,
Palavra e sabedoria dos apóstolos,
Vitória doa mártires,
Ciência dos confessores,
Pureza das virgens,
Unção de todos os santos,

Sede-nos propício, perdoai-nos, Senhor.
Sede-nos propício, atendei-nos, Senhor.

De todo o pecado, livrai-nos, Senhor.
De todas as tentações e ciladas do demônio,
De toda a presunção e desesperação.
Do ataque à verdade conhecida,
Da inveja da graça fraterna,
De toda a obstinação e impenitência,
De toda a negligência e tepor do espírito,
De toda a impureza da mente e do corpo,
De todas as heresias e erros,
De todo o mau espírito,
Da morte má e eterna,

Pela vossa eterna procedência do Pai e do Filho,

Pela milagrosa conceição do Filho de Deus,
Pela vossa descida sobre Jesus Cristo batizado,

Pela vossa santa aparição na transfiguração do Senhor,
Pela vossa vinda sobre os discípulos do Senhor,
No dia do juízo,
Ainda que pecadores,nós vos rogamos, ouví-nos.

Para que nos perdoeis,
Para que vos digneis vivificar e santificar todos os membros da Igreja,
Para que vos digneis conceder-nos o dom da verdadeira piedade, devoção e oração,
Para que vos digneis inspirar-mos sinceros afetos de misericórdia e de caridade,
Para que vos digneis criar em nós um espírito novo e um coração puro,
Para que vos digneis conceder-nos verdadeira paz e tranqüilidade no coração,
Para que vos digneis fazer-nos dignos e fortes, para suportar as perseguições pela justiça,
Para que vos digneis confirmar-nos em vossa graça,
Para que vos digneis receber-nos o número dos vossos eleitos,
Para que vos digneis ouvir-nos,
Espírito de Deus,

Cordeiro de Deus que tirais os pecados do mundo, envia-nos o Espírito Santo.
Cordeiro de Deus que tirais os pecados do mundo, mandai-nos o Espírito prometido do Pai.
Cordeiro de Deus que tirais os pecados do mundo, dai-nos o Espírito bom.
Espírito Santo, ouví-nos.
Espírito Consolador, atendei-nos.

V. Enviai o vosso Espírito e tudo será criado.
R. E renovareis a face da terra.

Oremos: Deus, que instruístes o coração de vossos fiéis, com a luz do Espírito Santo,
concedei-mos que, no mesmo Espírito, conheçamos o que é reto,
e gozemos sempre as suas consolações.

Por Cristo, Nosso Senhor. Amém.

Kyrie, Eleison
Christie, Eleison
Spiritus Sancte, audi nos
Spiritus Paraclite, exaudi nos

Pater de caelis, Deus, miserere nobis.
Fili redemptor mundi Deus,
Spiritus Sancte Deus,
Sancta Trinitas, unus Deus,
Spiritus veritatis,
Spiritus sapientiae,
Spiritus intellectus,
Spiritus foritudinis,
Spiritus pietatis,
Spiritus recti consilit,
Spiritus scientiae,
Spiritus sancti timoris,
Spriritus caritatis,
Spiritus gaudii,
Spiritus pacis,
Spiritus virtutum,
Spiritus multiformis gratiae,
Spiritus adoptionis Filiorum Dei,
Purificatur animarum nostrarum,
Ecclesiæ catholicæ sanctificator et rector,
Caelestium donorum distributor,
Discretor cogitationum et intetionum cordis,

Dulcedo in tuo servitio incipientium,
Corona perfectorum,
Gaudium angelorum,
Iluminatio patriarcarum,
Instpiratio prophetarum,
Os et sapientiae apostolorum,
Victoria Martyrium,
Scientia Condessorum,
Puritas virginum,
Unctio sanctorum omnium,

Propitius esto, parce nobis Domine,
Porpitius esto, exaudi nos Domine,

Ab omni peccato libera nos Domine,
Ad omnibus tentationinbus et insidiis diaboli,
Ab omnine presumptione e desesperatione,
Ab impugnationem veritatis agnitae,
Ab invidentia fraternae gratiae,
Ab omni obstinatione et impoenitentia,
Ab omni negligentia et tepore animi,
Ab omni immunditia mentis et corporis,
Ab haeresibus et erroribus universais,
Ab omni malo spiritu,
A mala et aeterna morte,

Per aeternam ex Patre ex Filioque processionem tuam,
Per miraculosam conceptionem Filii Dei,
Per descensionem tuam super Christum baptizatum,
Per sanctam apparitionem tuam in tranfiguratione Domine,
Per adventum tuum super discípulos Christi,
In die iudicii.
Peccatores, te rogamus, audi nos.

Ut nobis parcas,
Ut omnia Ecclesia membra vivificare et sanctificare digneris,
Ut verae pietatis, devotionis et orationis donum nobis dare digneris,
Ut sinceros misericordiae charitatisque affectus nobis inspirare digneris,
Ut spiritum novum et cor mundum in nobis creare digneris,
Ut veram pacem et cordis tranquilitatem nobis dare digneris,
Ut ad tollerandas propter iustitiam persecutiones nos dignos et fortes efficias,
Ut nos in gratia tua confirmare digneris,

Ut nos in numerum electorum tuorum recipias,
Ut nos exaudire digneris,
Spiritus Dei,

Agnus Dei, qui tollis peccata mundi, effunde in nos Spiritum Sanctum.
Agnus Dei, qui tollis peccata mundi, emitte promissum in nos Patris Spiritum.
Agnus Dei, qui tollis peccata mundi, da nobis Spiritum bonum.
Spiritus Sanctum, audi nos.
Spiritus Paraclite, exaudi nos.

V. Emitte Spiritum tuum et creabuntur.
R. Et renovabis faciem terrae.

Oremus: Deus qui corda fidelium Sancti Spiritus illustratione docuisti, da nobis in eodem Spiritu recta sapere et de eius semper consolatione gaudere.

Per Christum Dominum nostrum. Amen.

 

Ave Maris Stella

Clique aqui para ouvir o canto gregoriano

Ave, do mar Estrela
De Deus mãe bela,
Sempre virgem, da morada
Celeste Feliz entrada.

Ó tu que ouviste da boca
Do anjo a saudação;
Dá-nos a paz e quietação;
E o nome da Eva troca.

As prisões aos réus desata.
E a nós cegos alumia;
De tudo que nos maltrata
Nos livra, o bem nos granjeia.

Ostenta que és mãe, fazendo
Que os rogos do povo seu
Ouça aquele que, nascendo
Pos nós, quis ser filho teu.

Ó virgem especiosa,
Toda cheia de ternura,
Extintos nossos pecados
Dá-nos pureza e bravura,

Dá-nos uma vida pura,
Põe-nos em vida segura,
Para que a Jesus gozemos,
E sempre nos alegremos.

A Deus Pai veneremos:
A Jesus Cristo também:
E ao Espírito Santo; demos
Aos três um louvor: Amém.

Ave, Maris Stella,
Dei mater alma,
Atque semper Virgo,
Felix caeli porta.

Sumens illud Ave,
Gabrielis ore,
Funda nos in pace
Mutans Evae nomen.

Solve vincla reis,
Profer lumen caecis,
Mala nostra pelle,
Bona cuncta posce.

Monstra te esse Matrem,
Sumat per te preces,
Qui pro nobis natus
Tulit esse tuus.

Virgo singularis,
Inter omnes mitis,
Nos, culpis solutos,
Mites fac et castos.

Vitam praesta puram,
Iter para tutum:
Ut, videntes Jesum,
Semper collaetemur.

Sit laus Deo Patri,
Summo Christo decus
Spiritui Sancto,
Tribus honor unus. Amen.

Leitura Espiritual

Estas leituras espirituais podem ser feitas no dia anterior, em preparação para a meditação do dia.

Evangelho - Mt 25, 14-30 — Parábola dos talentos

14.[O Reino de Deus] Será também como um ho­mem que, tendo de viajar, reuniu seus servos e lhes confiou seus bens.
15.A um deu cinco talentos; a outro, dois; e a outro, um, segundo a capacidade de cada um. Depois partiu.
16.Logo em seguida, o que recebeu cinco talentos negociou com eles; fê-los produzir, e ganhou outros cinco.
17.Do mesmo modo, o que recebeu dois, ganhou outros dois.
18.Mas, o que recebeu apenas um, foi cavar a terra e escondeu o dinheiro de seu senhor.
19.Muito tempo depois, o senhor daqueles servos voltou e pediu-lhes contas.
20.O que recebeu cinco talen­tos aproximou-se e apresentou outros cinco: ‘Senhor’ – disse-lhe –, ‘confiaste-me cinco talentos; eis aqui outros cinco que ganhei’.
21.Disse-lhe seu senhor: ‘Muito bem, servo bom e fiel; já que foste fiel no pouco, eu te confiarei muito. Vem regozijar-te com teu senhor’.
22.O que recebeu dois talentos adiantou-se também e disse: ‘Se­nhor, confias­te-me dois talentos; eis aqui os dois outros que lucrei’.
23.Disse-lhe seu senhor: ‘Muito bem, servo bom e fiel; já que foste fiel no pouco, eu te confiarei muito. Vem regozijar-te com teu senhor’.
24.Veio, por fim, o que recebeu só um talento: ‘Senhor, disse-lhe, sabia que és um homem duro, que colhes onde não semeaste e recolhes onde não espalhaste.
25.Por isso, tive medo e fui esconder teu talento na terra. Eis aqui, toma o que te pertence’.
26.Respondeu-lhe seu senhor: ‘Servo mau e preguiçoso! Sabias que colho onde não semeei e que recolho onde não espalhei.
27.Devias, pois, levar meu dinheiro ao banco e, à minha volta, eu receberia com os juros o que é meu.
28.Tirai-lhe este talento e dai-o ao que tem dez.
29.Será dado ao que tem e terá em abundância. Mas ao que não tem será tirado mesmo aquilo que julga ter.
30.E a esse servo inútil, jogai-o nas trevas exteriores; ali haverá choro e ranger de dentes’.”

Imitação de Cristo - Livro II, Cap II

Da consideração de si mesmo

1. Não podemos confiar muito em nós, porque freqüentemente nos faltam a graça e o critério. Pouca luz temos em nós e esta facilmente a perdemos por negligência. De ordinário também não avaliamos quanta é nossa cegueira interior. A miúdo procedemos mal e nos desculpamos, o que é pior. Às vezes nos move a paixão, e pensamos que é zelo. Repreendemos nos outros as faltas leves, e nos descuidamos das nossas maiores. Bem depressa sentimos e ponderamos o que dos outros sofremos, mas não se nos dá do que os outros sofrem de nós. Quem bem e retamente avaliasse suas obras não seria capaz de julgar os outros com rigor.

2. O homem interior antepõe o cuidado de si a todos os outros cuidados, e quem se ocupa de si com diligência facilmente deixa de falar dos outros. Nunca serás homem espiritual e
devoto, se não calares dos outros, atendendo a ti próprio com especial cuidado. Se de ti só e de Deus cuidares, pouco te moverá o que se passa por fora. Onde estás, quando não estás contigo? E, depois de tudo percorrido, que ganhaste se esqueceste a ti mesmo? Se queres ter paz e verdadeiro sossego, é preciso que tudo mais dispenses, e a ti só tenhas diante dos olhos.

3. Portanto, grandes progressos farás, se te conservares livre de todo cuidado temporal; muito te atrasará o apego a alguma coisa temporal. Nada te seja grande, nobre, aceito ou agradável, a não ser Deus mesmo ou o que for de Deus. Considera vã toda consolação que te vier das criaturas. A alma que ama a Deus despreza tudo que é abaixo de Deus. Só Deus eterno e imenso, que tudo enche, é o consolo da alma e a verdadeira alegria do coração.

Meditação

Para nós, que nos preparamos para professar a Consagração montfortina, importa conhecer e aprofundar, em primeiro lugar, o que somos em relação a Jesus Cristo. O fim dessa Consagração não é nos tornar, por intermédio de Maria, seus fiéis, seus perfeitos escravos? "Ó Sabedoria eterna e encarnada, ó tão amável e adorável Jesus, diremos nós... eu vos louvo e glorifico por terdes desejado vos submeter a Maria, vossa Santa Mãe, em todas as coisas, a fim de me tornar, por meio dela, vosso fiel escravo." E, no último parágrafo: "Ó Virgem fiel, tomai-me em todas as coisas um escravo tão perfeito da Sabedoria encarnada, Jesus Cristo, vosso Filho...".

Que abundância de luz afluirá ao nosso espírito, se adquirirmos desde agora a certeza racional de que somos, com toda verdade, pela graça de nosso batismo, seus escravos resgatados pelo preço de seu sangue! Nossa doação total vai aparecer para nós, então, como a ratificação pessoal e amorosa das realidades redentoras. Dediquemo-nos, pois, a reconhecer, antes de qualquer outra consideração, NOSSO INTEIRO PERTENCIMENTO A JESUS CRISTO.

Submeter-nos-emos com maior generosidade às OBRIGAÇÕES que dele decorrem. Roguemos ao Espírito Santo e à divina Mãe que nos iluminem. Peçamos-lhes que desenvolvam em nossas almas sentimentos de gratidão e de humildade, na lembrança da graça de nossa redenção. Veni, Sancte Spiritus! Ave, Maria.

NÓS PERTENCEMOS A JESUS CRISTO NA QUALIDADE DE ESCRAVOS. "Antes do batismo, escreve São Luís Maria de Montfort, éramos escravos do diabo; o batismo nos tornou os verdadeiros escravos de Jesus Cristo." (V. D., n. 68 e 73.) Em consequência do erro de Adão, cabeça do gênero humano, chegamos ao mundo com uma alma manchada pelo pecado original, isto é, privada da graça santificadora, da participação na própria vida de Deus. Essa privação da vida sobrenatural faz com que nasçamos submissos à influência do demônio.

Ele é o senhor em nós, um senhor tirânico, que não possui nenhum direito, mas que ocupa seu espaço. É por isso que, antes de derramar a água santa do batismo sobre nossa cabeça, o sacerdote realiza os exorcismos contra Satanás: "Sai desta criança, espírito imundo, e deixa lugar ao Espírito Santo!" Por duas ou três vezes, a mesma ordem é reiterada: Sai! Vai-te! Não és mais o senhor aqui. Retira-te, espírito do mal, e deixa lugar ao Espírito Santo. Em virtude dessas palavras, unidas à do rito essencial, o demônio é obrigado a se retirar; e Deus, Trindade santa, faz em nossa alma sua entrada silenciosa e santificadora.

A vida sobrenatural, que fora dada ao nosso primeiro pai, e que ele havia perdido para si e para seus descendentes, por sua grave desobediência, é misericordiosamente devolvida a nós nesse instante. Tornamo-os filhos de Deus. Satanás não poderá exercer sua tirania, a menos que o obriguemos a retornar, cometendo o pecado mortal. Que os homens que vivem sem a graça do batismo sejam escravos do demônio, podemos nos convencer disto ao refletir sobre o que era o mundo pagão antes da vinda de Nosso Senhor, e sobre o que ele é ainda hoje, depois de dezenove séculos de pregação evangélica. Satanás reinava e reina ainda como senhor absoluto. Que estragos provoca ele nas almas!

Que degradação produz até nos corpos! Mesmo em nossos velhos países cristãos, que retornam, em grande parte, ao paganismo, ou — pecado ainda mais grave — que professam abertamente o ateísmo, não vemos Satanás triunfar novamente, e multiplicar por milhares e milhares o número de seus escravos? É uma verdade experimentada que nos tornamos escravos de nosso sedutor. "A ordem da justiça divina é assim constituída, ensina São Tomás de Aquino que se alguém cede à sugestão de outro para pecar, deve submeter-se ao poder desse outro para ser punido, segundo esta palavra de São Pedro em sua segunda epístola: a quo gris superatus est, hujus et servus est." (2, 19.) Somos escravos daquele por quem nos deixamos vencer.

É assim que Satanás se torna o tirano de toda alma da qual Deus não é mais o Senhor. Como devemos, então, estimar a graça de nosso batismo! Ao nos arrancar da escravidão de obrigação do demônio, ela nos torna Os verdadeiros escravos de Jesus Cristo. Pois a vida divina não é então derramada em nossa alma senão em virtude dos méritos da Paixão e da morte de Nosso Senhor Jesus Cristo. Adão, abusando de sua liberdade, pôde desobedecer a Deus e ofendê-lo gravemente; todavia, depois do pecado cometido, ele não podia justificar a si mesmo. Impotente para oferecer uma reparação adequada, igual à ofensa, ele arrastava consigo toda a sua descendência à danação.

Foi então que, por uma misericordiosa condescendência, o Filho de Deus se ofereceu ao seu Pai para satisfazer a Justiça divina, infinitamente ofendida. Ele se fez homem na plenitude dos tempos. Durante os trinta e três anos de sua vida sobre a terra, ele rezou, trabalhou, lutou, sofreu para arrancar nossas almas da escravidão do demônio. Sendo todas as suas ações e sofrimentos, e principalmente sua morte na cruz, de um valor infinito, ele pagou nossa dívida. Ele nos resgatou por um alto preço, "não a preço de coisas corruptíveis, de ouro ou de prata, mas a preço de todo o seu sangue". (1Pdr 1, 1819.) Somos sua Conquista, seu povo adquirido, sua herança, seu bem, sua propriedade.

Pertencemos-lhe inteiramente. Estamos divinamente marcados pelo selo de seu domínio. Eis que nos tornamos "seus verdadeiros escravos" por meio de um prodígio inaudito de seu amor, pois foi seu amor que o fez encarnar e aceitar morrer por nós. Como testemunharlhe melhor nossa gratidão senão derramando nosso espírito, nosso coração, toda a nossa alma na sabedoria desse maravilhoso plano redentor? É precisamente isto que nos pede São Luís Maria de Montfort, quando propõe aos batizados, em resposta ao seu inteiro pertencimento a Jesus Cristo, que se consagrem ao seu serviço por meio de uma dependência total, espontânea e livre, com base unicamente no amor.

Tal atitude de nossa parte parecerá ainda mais atraente, se considerarmos, agora, as OBRIGAÇÕES que decorrem de nossa bemaventurada condição de escravos de Jesus Cristo. Roguemos novamente ao Espírito Santo. Não pertencendo mais a nós, mas inteiramente ao nosso divino Redentor, fica claro que devemos viver, trabalhar e produzir frutos somente para ele. Seus direitos de propriedade sobre nossas obras são a consequência de seus direitos sobre nossa pessoa. O dono do campa) é o dono dos frutos que esse campo produz. "É por essa razão, diz nos Montfort (V D., n. 68), que o Espírito Santo nos compara: a árvores plantadas ao longo das águas da graça, no campo da Igreja, que devem dar seus frutos em seu tempo; às varas de uma vinha da qual Jesus Cristo é a vide, que devem produzir boas uvas; a um rebanho do qual Jesus Cristo é o Pastor, que deve ser multiplicado e produzir leite; a uma boa terra da qual Deus é o lavrador e na qual a semente se multiplica e produz na espiga trinta vezes, sessenta vezes, cem vezes o grão confiado ao solo."

Essas belas comparações bíblicas nos mostram, com efeito, muito claramente, a obrigação de produzir obras de santidade e a propriedade de Jesus sobre essas obras desde que elas se abrem e desabrocham em nossas almas. Os frutos do campo pertencem a ele, assim como os cachos da vinha, o leite do rebanho e o bom grão multiplicado. Tudo lhe pertence: o campo, a vinha, o rebanho, a terra, assim o mu nossas pessoas. Nossa felicidade dever ser fazer valer seus bens, para o enriquecimento de sua glória e para o louvor de sua graça, que ele infunde incessantemente em nossas almas.

A imagem da vinha, tão amada por Nosso Senhor, é das mais significativas. Jesus Cristo é a "Videira" que mergulha suas raízes nas profundezas da Trindade, e nós somos os galhos cheios de seiva divina. Os cachos de uva são o bem e a glória da vinha. Quanto mais pesados e coloridos são esses cachos, mais glorificam a seiva vivificante que sobe da videira e chega até as extremidades dos mais longínquos galhos. A ninguém sucede pensar que os cachos que pendem dos ramos pertencem a si mesmos, independentemente da vinha que os suporta e produz.

Assim nossas obras, frutos da graça, pertencem em primeiro lugar a Jesus Cristo. Quanto mais essas obras se mostram impregnadas de seiva divina, embebidas e como que saturadas de santidade, mais também elas reivindicam a honra de ser a riqueza e a glória de sua incessante ação em nós. Nossas obras sobrenaturais e meritórias são de tal modo o bem de Nosso Senhor, que "Jesus amaldiçoou a figueira seca36 e proferiu a condenação contra o servo inútil que não fizera valer seu talento" (V. D., n. 68.)

A árvore era o bem do Senhor, assim como o escravo e o talento concedido; o Senhor tinha, pois, o direito de esperar frutos de sua árvore e os lucros do trabalho de seu escravo. Se ele não Os colhe nem os recebe, vê-se frustrado com rigor de justiça, e é por isso que amaldiçoa e condena. "Tudo isto, acrescenta São Luís Maria de Montfort, prova-nos que Jesus Cristo deseja receber alguns frutos de nossas frágeis pessoas, conhecer nossas boas obras, porque essas boas obras lhe pertencem unicamente (nossa cooperação com a graça sendo ela mesma o resultado de uma graça): creati in operibus bons in Christo Jesu," fomos criados para realizar boas obras em Jesus Cristo."

Nossa regeneração é, com efeito, uma criação nova no Cristo, cujo fim é nos fazer produzir obras novas que Deus espera de nós e que são em nós o fruto de sua graça. Assim, "Jesus Cristo é o único princípio e deve ser o único fim de todas as nossas boas obras." (V. D., n. 68.)Pertencemos-lhe inteiramente. Dessa doutrina, Montfort não hesita em extrair a conclusão seguinte, a saber, que devemos servir nosso divino Redentor e Senhor "não somente como servos que recebem sua paga, mas como escravos de amor". (n. 68.)

Visto que somos "seus verdadeiros escravos" no sentido pleno do termo, seria manifestar-lhe nossa mais amorosa gratidão entregar-nos assim ao seu serviço, para honrá-lo pertencendo a ele. Não temamos ostentar confiantemente, assim como fez o apóstolo São Paulo (Rom 1, 1), esse nobre título de escravos de Jesus Cristo. "Escravos", e não simplesmente "servos". O servo só depende parcialmente de seu senhor: ele trabalha pela contrapartida dos rendimentos, e por um tempo limitado. Por isso, não se pode chamá-lo de servo de amor. Nós desejamos, ao contrário, dar-nos inteiramente e para sempre, respeitando nosso inteiro e eterno pertencimento, reconhecido e amado.

Desejamos que nada possa limitar nossa doação, nem medi-la, restringi-la ou condicioná-la. Não se trata, aqui, senão da escravidão por vontade, a qual procede do coração; e a palavra "escravo", como a entendemos, não é de modo algum oposta a "livre", mas somente a "Senhor". Escravos de um Senhor que se chama Nosso Senhor Jesus Cristo, o que pode haver de mais espontâneo, de mais livre, de mais impregnado de amor profundo? Nunca o amaremos ou pertenceremos a ele demais; é por isso que prosseguimos utilizando a palavra mais forte em nossas linguas humanas, para exprimir-lhe nossa total e absoluta dependência.

Compreendemos, com isso, a incansável insistência da Igreja em terminar todas as suas Orações litúrgicas, todas as suas implorações (le graças, recorrendo à fórmula que relembra e honra seus direitos de Redentor: Per Dominum nostrum Jesum Christum... Por Jesus Cristo, Nosso Senhor e Mestre. Se o reconhecemos "Senhor e Mestre" (e e o único Senhor e Mestre: Tu solus Dominus... Jesu Christe, dizemos lia Gloria da missa), é preciso que a esse título corresponda o nosso título de escravos, assim como ao título de "pai" corresponde o de "filho". Um chama o outro; são inseparáveis. Na manhã da Anunciação, quando a Virgem de Nazaré aceitou 1.,,,..1 divina Maternidade corredentora que o enviado do Céu lhe punha, não começou por inclinar toda a sua pessoa diante dos direitos de Deus?

Ela não hesitou em se proclamar sua escrava: Ecce ancilla Domini, isto é, segundo a força do texto original, não somente a serva, mas a escrava de seu Senhor e único Mestre, Deus. E de modo semelhante, desde a primeira estrofe de seu cântico do Magncat: Minh'alma engrandece ao Senhor... pois contemplou a humildade de sua escrava. O esplendor de humildade! Maria pronuncia essas palavras, quando se vê elevada à transcendente dignidade de Mãe de Deus. Já, pela graça de sua Imaculada Conceição, ela era sua Filha amada, a mais privilegiada e a mais agraciada; muito acima de todas as outras criaturas angelicais ou humanas. E eis que ela se afirma sua escrava. Ela é, pois, ao mesmo tempo a Filha, a Mãe e a Escrava de Deus.

Prova evidente de que essas palavras e esses títulos se harmonizam. E se se harmonizam em Maria, por que não se harmonizariam em nós as palavras e os títulos de filhos de Deus e de escravos de Jesus Cristo? Filhos do Pai dos Céus pela graça de nosso batismo; escravos de Jesus Cristo pelo reconhecimento de seus direitos de Redentor: essa é nossa amorosa resposta ao infinito benefício do preço de seu sangue. Sendo seus verdadeiros escravos, oferecemonos a "servilo nessa qualidade, pela única honra de pertencer a ele". (V. D., n. 73.)

Conformamonos, assim, ao ensinamento do Catecismo do Concílio de Trento,39 quando prescreve aos pastores que conduzam aos fiéis a relembrar e crer que estão ligados e consagrados a Nosso Senhor Jesus Cristo como escravos ao seu Redentor e Senhor: non secus ac mancipia Redemptori nostro et Domino. (V. D., n. 72 e 129.) Os dois termos "Redentor e Senhor" são unidos propositadamente, para mostrar que nosso pertencimento ao Cristo decorre diretamente dos direitos que sua Redenção lhe confere. Concluamos com São Luís Maria de Montfort: "Ou importa que os cristãos sejam escravos do diabo, ou escravos de Jesus Cristo." (V D., n. 3.) Não há meiotermo. Escravidão de obrigação, de um lado; escravidão de vontade, do outro. Ambas começando durante a vida e consumadas após a morte. No inferno, os reprovados são os eternos escravos do ódio de Satanás. No Céu, os eleitos são Os eternos escravos de amor de Deus: o apóstolo São João os viu reunidos de todas as nações da terra e gloriosamente marcados na fronte com o selo do Cordeiro imolado (Apoc 7, 212.)

Conhecendo, pois, agora, o que somos em relação a Jesus Cristo, amaremos nosso fundamental pertencimento de resgatados. Amaremos o termo que o exprime: é o da humildade na verdade. As almas verdadeiramente humildes não experimentam qualquer dificuldade em assumi-lo, pois ele vai ao encontro de sua necessidade de depender, de servir e de doar-se. As objeções sobrevêm somente se nos colocamos diante dos homens e de nós mesmos, enquanto importaria colocar-se unicamente diante de Deus, como fez a Virgem em Nazaré.

Se olharmos para os homens, constataremos apenas violências e ultrajes à dignidade humana. Se nos detivermos em nós mesmos, estaremos às voltas com pensamentos de egoísmo e de amor próprio. Olhemos para o alto, bem acima dos homens e de nós mesmos! Olhemos o adorável e amável Jesus, a Sabedoria eterna e encarnada, que nos comprou ao preço de todo o seu sangue. Rendamos-lhe graças por ele ter aniquilado a si mesmo, assumindo a forma de um escravo, para nos tirar da cruel escravidão do demônio. Peçamos-lhe, pela santa Mãe, a contrição e o perdão de nossas faltas, e ofereçamo-nos generosamente a todas as renúncias que exige nosso divino pertencimento.

Artigos Relacionados

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *