Gabriel Garcia Moreno, “O Regenerador da Pátria”

O século era o XIX, marcado por influxos do liberalismo americano e francês, em plena consolidação da Independência norte-americana (1776) e da Revolução Francesa (1789). O pequeno país era o Equador, que se tornara nação independente em 1830, sendo palco posteriormente de revoluções que oprimiram e massacraram o seu povo, formado em sua maioria por índios e mestiços. A Fé Católica deste núcleo social paulatinamente foi arrefecida, consectário de uma política anticlerical, capitaneada pelo Partido Liberal equatoriano à época. Neste período, a perseguição à Igreja Católica foi intensa culminando com a expulsão de ordens religiosas, à guisa de exemplo a dos Jesuítas (1852).

Sempre em momentos difíceis da história humana, Deus não deixa de socorrer seu povo, utilizando-se de homens fiéis à verdadeira doutrina Católica Apostólica Romana, materializando seu Amor e Misericórdia infinitos àqueles em que n’Ele confiam e esperam. Assim foi a vida de Gabriel Garcia Moreno, político, escritor, cientista, advogado, jornalista, ex-reitor, senador, presidente por duas vezes de seu país (1859-1865 e 1869-1875) , que tanto amou a ponto de dedicar-lhe a sua vida, bem como veemente defensor da Igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Este cristão de muitas virtudes, mas também de alguns defeitos, que vieram por vezes à tona em meio aos embates políticos, nasceu em Guayaquil a 24 de dezembro de 1821; seu lar era pobre, mas tinha a herança de nomes e feitos ilustres. Do lado do pai, Gabriel Garcia Gomez, velho castelhano de Cádiz, um antepassado fora secretário do Rei Carlos IV. De sua mãe, Mercedes Moreno, também de parentesco espanhol, há os nomes eminentes de um cardeal, de um cavaleiro da Ordem de Carlos III, de um Jesuíta e de escritores de méritos. O pai, que se dedicava ao comércio, encontrou nele a ruína econômica, mas lhe restou e aos filhos (em número de sete), que enchiam o lar de alegria e de esperanças, a dignidade de costumes austeros e o exemplo de antepassados gloriosos.

A disciplina inquebrantável de Garcia Moreno foi aplicada a tudo que fazia, passando a estudar por mais de 16 horas por dia o ramo das ciências naturais, físico-químicas, zoologia, análises de química orgânica, álgebra superior, cálculo infinitesimal e mecânica racional. A paixão às ciências naturais e físico-químicas cede espaço, por razões de caráter financeiro, ao Direito, cujo ramo graduara-se em março de 1848.

Ocorre que a política o atrai a ponto de abandonar a vida de advogado e dedicar-se ao vulcão desta ciência social; razões, não lhe faltam, sobretudo seu espírito combativo com o uso da pena, no início de sua guerra contra a anarquia, a desordem e a corrupção dos governos ditatoriais, lastreado pelo amor a seu país. Nesta fase de sua vida, surgem seus inimigos Urvina, cuja sombra há de ver em toda a oposição, Montalvo, o escritor cuja pena inspirará a sua sentença de morte, os liberais, a quem acusará da indisciplina e desordem das ruas e dos espíritos, e a Maçonaria, que no rancor contra Garcia Moreno ocupa lugar eminente.

Os inimigos de Gabriel Garcia Moreno multiplicam-se, fruto da aspereza do seu temperamento indomado no início da vida pública, a inflexibilidade do seu comando político contra a desordem e a corrupção, os triunfos do seu talento e os sucessos das suas lutas, a fidelidade inquebrantável a sua fé e uma vigilância incessante contra as perfídias e a astúcia dos inimigos da Igreja.

O ódio dos seus adversários tinha a favorecê-lo e a emprestar-lhe pasto para alimentar os seus defeitos e erros, alguns deles graves. Entretanto, escalou a montanha da perfeição, sob os auspícios da graça Divina, que muito o aparelhou rumo ao caminho da regeneração pessoal e de seu povo a ponto de ter sido a nação equatoriana consagrada ao Sagrado Coração de Jesus, feito que nem os reis franceses chegaram a realizar, apesar das constantes súplicas. Entrementes, mister se faz transcrever as palavras de Garcia Moreno, na catedral de Quito no decorrer da solenidade de Consagração: “Este é, Senhor, o vosso povo; sempre, ó bom Jesus, vos reconhecerá por seu Deus; não volverá seus olhos a outra estrela, senão a essa de amor e de misericórdia, que brilha no vosso peito!”.

A educação entregou aos Jesuítas, resgatando ao país o Estado de alma Cristã. No aspecto jurídico, a Constituição em seu governo requer que, para ser cidadão, se seja católico, partindo da premissa de que a liberdade de crenças é liberdade de erros; e para os erros não pode um governante responsável dar liberdade. Deu asssim um duro golpe no liberalismo, que já prosperava na Europa e inclusive no império vizinho, o Brasil. Combateu as heresias, as sociedades secretas, o liberalismo e o socialismo.

Quanto à moralidade, é austero: confia à polícia os que andam desmoralizando a cidade; aos que vivem em concubinato, ordena que se casem. Deve-se registrar que, certa feita, assistindo ao exame de direito de um advogado, que termina o curso, indaga-o sobre religião, ao que o examinando demonstra nenhum conhecimento; Gabriel Garcia manda-o primeiro  estudar o catecismo durante oito dias, e depois, censura-o: “Um magistrado deve conhecer não só o direito, mas também a lei de Deus”.

Na Economia, saneou o tesouro público, criou condições para investimentos estrangeiros, fomentou as ferrovias e estradas, construiu escolas, universidades, projetou seu país no cenário internacional, demonstrando que os princípios da verdadeira religião jamais se contrariam ao progresso material de uma nação.

Ao fim de dois mandatos de governo, na condução de chefe máximo da nação equatoriana, sendo eleito para um terceiro mandato, os inimigos de Garcia Moreno conspiram contra sua vida, sendo que a vítima estava  convencida de que havia interferência da maçonaria nessas maquinações e tinha o pressentimento de que o acontecimento seria breve. Assim o foi, mas não antes de decorridos vinte dias antes de seu assassinato, Garcia Moreno dirige-se ao Papa Pio IX as seguintes palavras: “para obter do Céu as forças e luzes de que necessito mais que ninguém para ser fiel ao nosso Redentor e obediente ao seu Vigário infalível… E que felicidade tão imensa seria para mim, se a vossa bênção me alcançasse do Céu o derramar o meu sangue por Ele que, sendo Deus, quis derramar o seu na Cruz por nós!”

Na noite de 5 de agosto de 1875, Garcia Moreno abandona o trabalho e, antes de deitar-se reza com profundo fervor pela pátria, pela Igreja, pelos seus, até pelos inimigos que, àquela hora, fazem os últimos preparativos. 6 de agosto de 1875 é a primeira sexta-feira do mês e dia da Transfiguração de Nosso Senhor Jesus Cristo; ele comunga cedo e volta a casa a trabalhar, a dar os últimos retoques à mensagem, que pensa ler a tarde a seus ministros. Cornejo e Andrade dirigem-se à praça. Já por ali se encontram Moncayo, Sanches e Raio.

Uma e meia da tarde, Garcia Moreno, acompanhado pelo ministro Vallares, atravessa a praça dirigindo-se à Casa do Governo, no caminho, entra na catedral onde se realizava um funeral, vai ao meio da multidão para brevemente rezar, quando é surpreendido por Raio, que grita: “Tirano! Chegou por fim o teu dia, bandido!”, descarrega-lhe com uma machada na nuca. Moreno encontrando-se ensanguentado, procura refugiar-se, mas em vão é novamente atingido por machadada em suas mãos por Raio, continuando o sicário a ferir-lhe golpes sobre sua cabeça; Gabriel Garcia forceja libertar-se, cego pelo sangue que lhe corre, aproximando-se da escada, quando o seu algoz empurra-o pelos degraus abaixo. A vítima rola e, depois de cair, tenta ainda levantar-se; mas Raio, com um furor diabólico, cai sobre ele descarregando novos golpes e gritando: “Tirano da liberdade! Jesuíta de casaca! Morre! Morre!”. Garcia Moreno, com extrema dificuldade, sussurra apenas: “Eu morro, mas Deus não morre. ¡Dios no se muere!“.

Rodeiam-no alguns circunstantes entre eles há um sacerdote que lhe dá a absolvição e em seguida levam-no para o interior da Catedral onde o sacerdote pergunta-lhe se ele perdoa seus inimigos no átimo em que a vítima acena com a cabeça que sim e o ministro de Cristo absolve-o e dá-lhe a Extrema-Unção. E ali, na capela da Virgem das Dores, precisamente junto àquela cruz que ele com tanto amor abraçara e levara aos ombros pelas ruas de Quito, extingue-se agora sobre a terra a vida do grande Presidente. Ia começar a sua vida no Céu. A vida e a glória que há de brilhar mais e mais, coroando o nome de quem quis coroar suas lutas pela pátria e pela Fé com o sangue do martírio.

Moreno caiu, mas não caiu seu governo; o Congresso Nacional, num manifesto dirigido à nação, exalta a sua memória, chamando-lhe “vigoroso gigante” e acrescentando: “Perdemos um grande homem não só para o Equador, mas também para o Mundo, porque possuía a grandeza do gênio!” Entretanto, o maior louvor de Garcia Moreno foi o proferido pelo imortal Pio IX: “Caiu pela Igreja, sob a espada dos ímpios!”. O Papa da Imaculada Conceição e da Infalibilidade Papal, que tinha tanta admiração pelo presidente do Equador e não pode evitar as lágrimas, ao saber da notícia de sua morte.

Exemplo de soldado de Cristo, devoto à Virgem Maria Santíssima e congregado mariano, abnegado defensor da Igreja Católica Apostólica Romana e, a exemplo de tantos Santos e Beatos, procurou em tudo, durante a sua vida, fazer a vontade de Deus, sabedouro de que o caminho que leva a eternidade perpassa pela Santa Cruz!

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