A multiplicação de pães e as graças no tempo de pandemia

No evangelho da Missa Tradicional do IV Domingo da Quaresma (chamada Missa Laetare), extraído dos escritos de S. João1, Nosso Senhor, mostrando mais uma vez a Glória de Deus, consegue saciar a fome de mais de 5 mil pessoas com apenas 5 pães e 2 peixes, os quais milagrosamente alimentaram toda aquela gente, fazendo sobrar ainda 12 cestos com pedaços dos 5 pães de cevada.

No escrito correlato presente no Evangelho de S. Mateus2, o evangelista menciona que Nosso Senhor Jesus Cristo abençoou os pães e peixes, partiu-os e entregou aos discípulos para que eles os distribuíssem à multidão.

Dentre todas as analogias que podem ser feitas destes trechos, comenta-se que os 5 pães e 2 peixes são uma imagem dos 7 sacramentos instituídos por Nosso Senhor.

Da mesma maneira que Cristo saciou fisicamente as turbas com aqueles poucos pães e peixes, dados das mãos dos apóstolos, quis Ele também, até sua segunda vinda, saciar as almas necessitadas da Redenção e da graça, com os 7 sacramentos, distribuídos ou ministrados ordinariamente, em sua maioria, pelos sacerdotes.

Por isso, diz-se que os sacramentos são o derramamento da Graça de Deus por meios sensíveis, já que sempre há a presença de alguma matéria, além do ministro e da fórmula dita.

O fato é que nos últimos tempos, boa parte de nós está praticamente privado de ter acesso a qualquer um dos sacramentos, até mesmo os mais essenciais, como o Batismo e a Penitência (confissão), tendo em vista a nefasta propagação da COVID-19.

Como faremos então? Se sabemos que a forma mais eficaz de alcançar as Graças de Deus é pelos sacramentos, como será o encaminhamento de nossa alma neste longo período de quarentena?

É vontade de Deus e da Igreja que alcancemos a Graça eficaz para nossa salvação, além de graças atuais para vencermos as tentações, e isto é fato, é dogma. Por isso, agora é o momento de meditar nos 12 cestos com pedaços de pão.

No texto de S. João, fica bastante claro que Nosso Senhor fez questão que todos os pedaços de pão fossem guardados nos cestos, ao ponto de encherem 12.

Primeiramente, a chamada multiplicação dos 5 pães e a sua “sobra” é uma clara imagem da permanência de Nosso Senhor neste mundo de forma substancial por meio da Santíssima Eucaristia. Os 12 cestos figuram os apóstolos, que sucedidos pelos bispos e padres, teriam poder de fazer um simples pedaço de pão transubstanciar-se em Corpo, sangue, alma e Divindade de Nosso Senhor.

O mais importante para esta digressão é o fato de que Nosso Senhor é Deus e, por isso, Ele teria poder suficiente para realizar a multiplicação e saciar a fome do povo sem que sobrasse nada, concordam? Não se pode dizer também que Sua intenção era que houvesse um estrago de pão, já que Ele mesmo determinou o recolhimento de todo alimento que sobrou.

Então havia motivos reais para a sobra. Um deles é que Nosso Senhor lembrou dos muitos que poderiam estar no meio das turbas, mas não estavam, talvez por medo, cansaço, receios, dúvidas…

Em paralelo, existem muitos motivos para que as pessoas, ao longo da história da Igreja, não tenham buscado os sacramentos, em sua maioria ligados à negligência humana, que leva o homem a não buscar a graça em troca de bens terrenos e passageiros.

Nós, hoje e nas próximas não sei quantas semanas, não iremos à fonte de todas as Graças, a Santa Missa, não poderemos nos confessar, talvez, e não comungaremos. Mas, não vamos temer! Apesar da imensa tristeza que é não ter acesso aos sacramentos, podemos compreender claramente que a “superabundância de pão” dos Evangelhos é também a razão de nossa salvação em nossa condição atual. A Graça de Deus é superabundante e Ele não desperdiça dela uma parcela sequer, a não ser que nós mesmos desperdicemos as chances que Ele nos dá.

Então qual seria a fonte de acesso aos “pedaços de pão dos 12 cestos”?

A fonte eficaz da Graça que podemos usufruir em qualquer lugar, incluindo nos recantos de nossas casas, é nada mais nada menos que a Oração. No dizer de S. Afonso de Ligório, só é possível que tenhamos o Socorro da Graça de Deus se nós rezarmos, sendo a oração absolutamente necessária a nossa salvação3.

Ela é, senão, o meio pelo qual alcançaremos as graças presentes nos cestos cheios pela superabundante misericórdia divina. Por meio dela é que temos a capacidade de alcançar graças enormes, como a perfeita contrição, e de realizar comunhões espirituais, enquanto não temos acesso ao Sacramento da Eucaristia. Por meio dela também podemos meditar nas verdades eternas e ganhar a certeza de tempos melhores.

Mais uma vez, não temamos o isolamento e a ausência dos sacramentos. Mas, desejemos ardentemente, pela oração contrita e sincera e pela certeza das graças derramadas através da Missas privadas, a cura dos males, a salvação das almas acometidas pela doença e o mais rápido retorno ao usufruto dos sacramentos. Não desperdicemos o que o próprio Deus separou para nós! Os pedaços de pão nos cestos! As graças abundantes! O céu!

Por fim, lembremos do Introito da Missa Laetare: Regozijai-vos de prazer, vós que tendes vivido na tristeza, porque serão saciados de consolações abundantes.

Que possamos, neste momento de intensa tristeza e aflição, regozijar-nos e saciar-nos com as abundantes consolações presentes nos “cestos de pão”, que separam para nós as graças abundantemente concedidas por Deus, Nosso Senhor, alcançadas principalmente pela oração.

Salve Maria!

  1. S. João VI, 1-15
  2. S. Mateus XIV, 15-21
  3. LIGÓRIO, Santo Afonso de. A ORAÇÃO. Ed. Santuário – 1992. Aparecida – SP, p. 19
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