Histórico Discurso de Pio XII às Congregações Marianas:

Em 21 de janeiro de 1945, 4 mil congregados marianos de 42 nações se reúnem ao redor do Sucessor de São Pedro, Pio XII, para comemorar o jubileu de ouro de sua consagração na Congregação Mariana do Almo Collegio Capranicense. Na ocasião, Pio XII fez um discurso histórico sobre a Congregação Mariana, cuja tradução inédita para língua portuguesa apresentamos neste artigo.

 

Diletos filhos e filhas, com grande benevolência viestes comemorar conosco o 50º aniversário de uma doce memória da nossa vida – o dia de nossa consagração à Nossa Senhora na Congregação Mariana do Colégio Capranica. Nossa primeira palavra ao receber-vos é para exclamar com todo o fervor do nosso agradecido coração: Magnificate Dominum mecum et exaltemus nomem eis simul: Glorificai ao Senhor junto comigo e exaltemos, juntos, o seu nome (Sl 33, 4)

Nossa consagração à Santa Mãe de Deus é um dom completo de si mesmo para toda a vida e para a eternidade. Um dom não de pura fórmula ou sentimento, mas efetivo, que se prova na intensidade da vida cristã e mariana e na vida apostólica, que faz do congregado mariano o ministro de Maria e, por assim dizer, suas mãos visíveis na Terra, com o fluxo espontâneo de uma vida interior superabundante que é derramada em todas as obras exteriores de devoção sólida, de adoração, de caridade, de zelo. É o que inculca com singular energia a primeira das nossas regras: esforçar-se para se santificar no seu estado e se dar deveras, quanto a posição social permitir, a salvar e santificar os outros e a defender a Igreja de Jesus Cristo. Tal é a escolha que o congregado, livremente, aceita de forma resoluta no ato de sua consagração; Tal é o magnifico programa de vida traçado pelas Regras.

Na verdade, estas regras simplesmente exprimem em termos precisos e quase “codificam” a história e a tradição constante das congregações marianas, providencialmente fundadas pela Companhia de Jesus e que foram aprovadas e repetidamente receberam da Santa Sé elevadíssimos louvores.

Como se pode ver, estamos bem longe de considerar a Congregação Mariana como mais uma confraria piedosa e inativa, como as que existem para abrigar dos perigos as almas fracas; de igual modo, estamos longe também de a considerar apenas como uma associação destinada à prática de atos externos, febril, porque artificial, e que não pode suscitar nem acender senão um fogo de palha, de duração breve. Numquid potest homo abscondere ignem in sinu suo, ut vestimenta eius non ardeant? Pode porventura um homem possuir fogo em seu peito sem que ardam suas vestes? (Prov 6, 27). Se o que diz o livro dos Provérbios é verdade para as paixões humanas uma vez que abrasem o coração humano, quão mais verdade é para o fogo da caridade com que o Espírito Santo abrasa os corações dos congregados e os mantém em chama?!

A devoção Mariana do Congregado Mariano não pode, portanto, ser uma piedade mesquinhamente afetada que vê a poderosa mãe de Deus como uma distribuidora de benefícios, especialmente na ordem temporal; nem pode ser uma devoção do descanso seguro, que não pense apenas em tirar de sua vida a santa cruz da tristeza, da luta, do sofrimento; nem pode ser uma devoção sentimental, alicerçada em doces consolações e manifestações entusiastas; e nem – por mais sagrada que seja a devoção – pode ser demasiadamente focada nas próprias vantagens espirituais. Um congregado, verdadeiro filho de Maria, cavaleiro da Santíssima Virgem, não pode contentar-se com um simples serviço de honra; ele deve estar sob as ordens dEla em tudo, deve ser o guardião e defensor de seu nome, de suas excelsas prerrogativas, o campeão de sua causa, deve trazer aos seus irmãos as graças e favores celestiais de tão boa Mãe, combatendo sem trégua sob o comando daquela “cuncta haereses sola interemit in universo mundo”, daquela que, sozinha, destruiu todas as heresias do mundo inteiro.

Sob sua bandeira, o congregado está alistado como servo perpétuo da Santíssima Virgem. Ele não tem mais o direito de baixar as armas por medo do ataque ou da perseguição. Ele não pode, sem trair sua própria palavra, desertar e abandonar seu posto no campo de batalha.

Congregados, vós vos comprometestes a defender a Igreja de Jesus Cristo. A Igreja sabe disso e conta convosco, assim como no passado contou com as gerações de congregados que vos precederam. Sua esperança jamais foi desapontada. Vossos antepassados nobremente abriram-vos o caminho. Em todas as lutas contra o contágio e a tirania dos erros para a proteção da civilização cristã, o Congregado Mariano sempre combateu na primeira fila, com as palavras, com a pena, com a imprensa, com a controvérsia, com a polêmica, com a apologética, com a ação, sustentando a coragem dos fiéis, resgatando os confessores da fé, trabalhando para ajudá-los e apoiá-los no árduo ministério do sacerdócio católico, combatendo os males morais, com métodos singulares, sempre enérgicos e eficazes e, às vezes, até mesmo com a espada, para as fronteiras da cristandade, para a defesa da civilização, como Sobieski, Chalres de Lorraine, Eugene de Savoy e muitos outros oficiais, todos chefes militares, bem como milhares e milhares de seus soldados.

Mas por que procurar exemplos no passado, quando mesmo em nosso próprio tempo, não em uma única nação, mas em todo o mundo milhares e milhares de heróicos congregados lutaram e deram sua vida, aclamando e invocando Cristo Rei?!

Nós confiamos que vós sabereis carregar dignamente o peso de uma herança tão gloriosa. Nós ousamos dizer que o tipo de católico que, desde seu início, a Congregação Mariana tem produzido nunca foi tão adequado para as necessidades e circunstâncias do seu tempo quanto nos nossos dias, e, talvez, nenhum outro tempo da história precisou tanto do tipo de católico produzido pela Congregação Mariana como hoje se precisa.

O que, de fato, a sociedade civil nos pede para hoje?
Homens. Homens de verdade. Não interessados em divertir-se e gozar dos prazeres da vida como se fossem crianças, mas sim homens com firmeza endurecida e prontos para a ação, aos quais é um dever sagrado não negligenciar nada que possa promover seu crescimento na perfeição cristã. Nós gostaríamos de ver no rosto da juventude de hoje um pouco mais da tranquilidade do passado, mas devemos tomar o nosso tempo tal como ele é: duro, amargo e severamente grave. Nosso tempo requer homens que não tenham medo de andar nos caminhos difíceis da presente condição e sejam capazes de apoiar até mesmo aqueles que a Providência colocou em seu cuidado. Homens que, no exercício de sua profissão, fogem da mediocridade e visam a perfeição que o trabalho de reconstrução exige de todos, depois de tanto desastre1.

E a Igreja? O que ela nos pede?
Católicos. Verdadeiros católicos. Bem-formados, viris e fortes. Em outra ocasião, falamos da profunda transformação social dos nossos tempos. A guerra acelerou muito este processo e podemos dizer que está quase atingindo seu objetivo 2. Infelizmente, especialmente nas grandes cidades, diminuiu o número daquelas almas que, firmemente guiadas pela Tradição Católica e fundamentadas na vivência integral de sua Santa Fé, batalham contra o espírito da época. É uma crise que afeta não menos homens que mulheres, não menos moças que rapazes.

O tempo presente precisa, portanto, de católicos que estejam firmemente enraizados na fé, desde a juventude, que não vacilem, mesmo que não sejam mais sustentados pelo fervor daqueles que os cercam. Católicos que, com os olhos fixos no ideal de virtude cristã, lutam pela pureza, pela santidade, com espírito de sacrifício, tendem a esse ideal com todas as suas forças na vida cotidiana, sempre em frente, sempre retos, sem deixar-se levar pelas seduções e tentações. Eis, amados filhos e filhas, o heroísmo ao qual sois chamados, muitas vezes oculto, mas não menos precioso e admirável que o martírio sangrento.

O nosso tempo exige católicos sem medo, que professem sua fé abertamente, nas palavras a atos, sempre que a lei de Deus e o sentimento de honra cristã o exigirem. Homens de verdade, inteiros, firmes, intrépidos! Aqueles que não assim serão perdidos pelo mundo.
Sempre foi objetivo da Congregação Mariana formar homens e católicos desta maneira. Agora vós sabeis que os inimigos da Igreja e de Cristo nunca baixam suas armas, mesmo quando simulam intenções pacíficas; além da sangrenta perseguição e ataques violentos, eles têm outros métodos de guerra: a perversão, a intoxicação dos espíritos pelo mundanismo, e nisso têm a contribuição inconsciente de muitos iludidos, que se deixam enganar e seduzir.

Nas lutas incessantes, coragem e generosidade; piedade e humildade; constância infatigável. Estes são os pré-requisitos indispensáveis a todo congregado mariano. Mas eles, sozinhos, não são suficientes. Com a proteção de Maria, vós deveis ganhar os homens de hoje para Cristo.

Vós deveis lutar pela Verdade com as armas da Verdade, mas também deveis saber carregar e usar estas armas. Como sereis capazes de adquirir o domínio delas? É pelo estudo de vossa religião, seus dogmas e ensinamentos, sua liturgia, vida, história. Não fazer isso seria trair o passado das congregações marianas, em que sempre se procurou, com todos os meios adequados, encorajar o estudo da fé, a cultura geral e profissional, ambos, naturalmente, em harmonia com o estado de cada um. Esta é uma das grandes características das Congregações Marianas, testemunhadas pelas suas Academias, que graças a Deus jamais foram abandonadas.

Sem dúvida, a cultura geral e profissional não podem ter em toda parte a amplitude alcançada, por exemplo, em Valência, na Espanha, onde as diferentes seções de direito, ciência, literatura, tecnologia, equipadas com todos os instrumentos de estudo e trabalho prático, especialmente a seção médica com sua clínica e seu dispensário, asseguram aos Congregados, graças à cooperação de ilustres mestres que também pertencem à Congregação, um lugar eminente no campo de suas respectivas profissões. Mas, embora em menor grau, as Congregações em todos os lugares, dignas do nome,  têm esse cuidado e mostram isso seu próprio caráter. Primeiro, porque a eficácia do trabalho apostólico de cada congregado depende em grande parte de seu valor intelectual, social, profissional, e não apenas por suas qualidades morais e espirituais; além disso, porque desde a sua origem as Congregações, visando a restauração de uma sociedade cristã, exerceram seu apostolado particularmente na profissão e através da profissão. Sob o impulso deste ideal, foram formados, distintamente, mas também em estreita união e colaboração entre si, Congregações para os diferentes estados de vida e para todos os graus da escala social, congregações de sacerdotes, de “intelectuais”, de senhores e senhoras da alta sociedade, de estudantes universitários, até de humildes engraxates de Beyrouth e de pequenos jornaleiros em Buenos Aires. Da Congregação de Estudantes de Medicina em Paris foi publicado o primeiro núcleo da União de São Lucas de médicos católicos. Os Estados Unidos têm suas congregações de enfermeiras. E chamar à mente também nossas memórias pessoais de Monaco, o que é uma riqueza de vida familiar verdadeiramente cristã, como coragem viril na profissão de fé pública, a ação benéfica da Congregação dos homens em S. Michael, então que assim florescente, produzidos na capital da Baviera! Finalmente, perto, muito perto de nós, na Congregação Mariana de Nossa Guarda Suíça, sob o nome de Nossa Senhora do Rosário, que são todos representados de alguma forma, de dia e de noite, junto de nós.

Quanto bem fazem as congregações marianas em suas esferas de ação! Que bons frutos produzem nos variados campos de caridade e zelo! Em uma solene ocasião, nosso glorioso predecessor, Pio XI, lembrou que “as congregações ao longo de sua história centenária fizeram por seu trabalho apostólico em todo lugar e em toda possibilidade, da maneira mais humilde e mais nobre, mais complexa e mais simples, da forma como sua Mãe, Rainha e Advogada os inspirasse”.

Como que a confirmar a verdade dessas palavras, vós nos anunciais dois presentes preciosos: Vossas ofertas espirituais, que são muito importantes no cumprimento do nosso dever e são para nós grande conforto; e suas ofertas materiais, que vão nos ajudar a defender do frio os miseráveis afetados pela guerra, nossos filhos amados e vossos irmãos em Cristo. Mas nossa gratidão vai além dessa reunião íntima, embora numerosa; é dirigida a todas as congregações do mundo, que querem se unir a vós no coração e na oração.

Conforme o preceito do Divino Mestre, de acordo com o exemplo admirável de sua Mãe celeste e Patrona, as congregações amam fazer o bem “in abscondito” e tão frequentemente nosso Pai Celestial, que vê o que está oculto (Mt 6, 4), é a única testemunha da sua dedicação. Muitas vezes, também, põe a Congregação ao serviço de outras organizações seus melhores soldados. Quase não há forma de apostolado ou caridade em que, no passado, a congregação mariana não estivesse à frente ou como iniciadora. A Congregação sempre antecipou as novas necessidades que surgiram para poder atendê-las. Sempre entendeu as novas esperanças para poder satisfazê-las. Estas obras, iniciadas modestamente, tomaram então o impulso de voar com as asas, sempre com a certeza de encontrar nas congregações um apoio e uma participação igualmente atenciosa e discreta.

Mas, de toda essa fecundidade qual é a fonte íntima senão a vida de fervor nutrida pela devoção mais terna e eficaz a Maria que deveis ter, segundo vossas regras, até o mais alto grau de santidade? Essa vida permanece escondida no segredo dos corações, no entanto, a vemos transparecer nos frutos que produz, nas numerosas vocações que brotam, no maravilhoso conjunto de santos, de beatos, de mártires que representam a Congregação Mariana no Céu.

Amados filhos e filhas, vós podeis fazer vossas a piedosa invocação de S. João Eudes à Santíssima Virgem: “Combien vous suis-je redevable… de m’avoir admis en votre sainte congregation, qui est une vraire école de vertu et de pieté… Et c’est ici, ó Mere de gràce, une de plus grandes gràces que j’ai regues de mon Dieu par votre entremise3: “Como estou em débito convosco, minha Mãe, por ter sido recebido em vossa Congregação, que é verdadeiramente uma escola de virtude e piedade. Esta é, ó Mãe da Graça, sem dúvidas uma das maiores graças que recebi de Deus por meio de vossa intercessão”

Confiantes de que sabereis como corresponder com cada vez mais fidelidade a tão grande favor que vos mostrar dignos da graça de serdes congregados dia após dia, suplicamos por vós e por todos os congregados espalhados pelo mundo a Jesus e Sua Santíssima Mãe seus favores, enquanto, com todo o amor de nosso coração, transmitimos a vós e vossas queridas famílias, na esperança das graças mais caras, nossa paternal Benção Apostólica

Pio XII em seu discurso às congregações marianas (grifos da edição)
Tradução por um congregado da Congregação Mariana da Imaculada Conceição

 

Pio XII, papa e congregado mariano, autor da Bis Saeculari Die, sobre as CCMM

 

  1. Nota do tradutor: Aqui, Pio XII se refere à II Guerra Mundial, que estava em seu fim. Sem dúvidas, porém, estas palavras se aplicam ainda mais à nossa época em que temos que lutar pela reconstrução não da Europa destruída pelos conflitos, mas da Cristandade adormecida sob os escombros das revoluções e da crise da Igreja
  2. Nota do tradutor: Pio XII fala, aqui, sobre a decristianização da sociedade, acelerada pela Guerra
  3. Le cœur admirable de la très sacrée Mère de Dieu, Livre XII, pg 355

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