A primeira virtude do Congregado deve ser a humildade

Como são raiz e fonte de todos os males a concupiscencia carnis, concupiscencia oculorum et superbia vitae (1 Jo 2, 16): a soberba, a avareza e o amor próprio, são também raiz e princípio da perfeição cristã a humildade, o desinteresse e a abnegação da própria vontade. Por isso, o Congregado Mariano deve ter todo o cuidado e zelo de adquiri-las.

A primeira virtude do Congregado Mariano deve, assim, ser a humildade.

Como ensina São Bernardo, Humilitas est virtus qua homo verissima sui cognitione vilescit: A humildade é a virtude que leva o homem a desprezar-se ante veríssimo conhecimento de si mesmo, e aquele que a quer adquirir deve começar por um vivo conhecimento de sua vileza e miséria. Aquele que buscar se conhecer, ainda que pouco, conseguirá perceber sua baixeza, porque o homem nasce filho da ira e cheio de paixões, vive rodeado de poderosos inimigos e sem forças para vencê-los sozinho, porque sufficientia nostra ex Deo est (2 Cor 3, 5) nossa capacidade vem de Deus; sine me nihil potestis facere (Jo 15, 5) – Sem mim nada podeis fazer; e mais do que isso, se não souber pedir os socorros de que necessita, cairá nas mãos de um Juíz que lhe pedirá conta estrita de todas as suas calmas, e sabe ainda que estas se multiplicam a cada passo, pois setpies cadet justus (Prov 24, 16) – sete vezes por dia cai o justo.

Não é fácil penetrar bem nestas verdades e vivê-las. Para conseguir, o congregado deve recordar-se delas com frequência, e fará com que sirvam não para estéril conhecimento, mas como regra para as humilhações, com a qual se consegue o fundamento de todas as virtudes, a humildade.

As humilhações podem ser enviadas por Deus por meio das criaturas ou tomadas voluntariamente por aquele que aspira a esta virtude, e ambas são necessárias para a perfeita humildade.

Para as humilhações enviadas por Deus, sempre que o congregado se vir desprezado entre os homens, ferido, repreendido, enganado, pensará que ouve da boca de Nosso Senhor: omne quod tibi adplicitum fuerit accipe et in dolore sustine et in humilitate tua habe patientiam (Ecl 2, 4) – Aceita tudo o que te acontecer. Na dor, permanece firme; na humilhação, tem paciência, e o obedecerá com alegria, ou ao menos com boa vontade, dizendo com sua boca e coração: fiat voluntas tua – seja feita a vossa vontade.

As humilhações voluntárias se ordenarão a moderar os afetos da alma por meio de ações externas. Para isso, o congregado buscará mortificar e rejeitar tudo em seu trato e porte que possa fomentar o orgulho e a soberba, conformando-se com o aviso do Espírito Santo: De nada vale a riqueza no dia da ira divina. (Pv 11, 4)

O congregado, assim, se vestirá com o honesto traje comum daqueles de sua própria classe e tempo, fugindo de adornos, posturas e atitudes que causem destaque, chamem a atenção dos outros e fomentem pensamentos de vaidade e orgulho. Veja, cada um, a Absalão amarrado entre o céu e a terra por seus cabelos, símbolo de sua vaidade, enrolado em ramos de carvalho. Evitarão todo vão adereço e modificação em sua aparência.

O jovem São Luís Gonzaga, ainda que primogênito de um dos príncipes do Sacro Império, inserido em uma das primeiras cortes da Europa, não só rejeitava, como jamais aceitou por em si adereços, dizendo que aquele fausto era coisa do mundo, e ele queria servir não a este, mas a Deus.

O congregado, ainda, terá muito cuidado em não ser gloriado em suas ações, suas forças, seus talentos ou outras características, segundo aquele aviso do Senhor: non glorietur sapiens in sapientia sua et non glorietur fortis in fortitudine sua et non glorietur dives in divitiis suis (Jr 9, 23) – não se glorie o sábio em sua sabedoria, nem se orgulhe o forte em sua força, nem o rico de sua riqueza. Considere como se turbou Nossa Senhora ao ouvior as palavras de São Gabriel, e como aos extraordiários elogios com que a felicitava Santa Isabel, não soube responder senão com aquele humilde canto: Magnificat anima mea Dominum… quia respexit humilitatem ancillae suae. A sua semelhança, São Luís não apenas não se gloriava em suas coisas, mas fugia como possível de companhias, conversas e lugares em que se fazia alarde de destreza ou habilidades, e retirando-se a algum lugar apartado, encomendava-se a Deus, enquanto outros gastavam seu tempo em diversões e aplausos.

O congregado dará pouca importância a dignidades de nascimento, riquezas, rendas, bens, pois não sem razão, disse São Luís Gonzaga ainda com poucos anos: Também os príncipes são pó como os pobres: talvez, cinzas mais fedidas.

O congregado não dará lugar à presunção que naturalmente inspiram a ciência, os portes materiais e os dotes da alma. Lembre-se ele que uma sabedoria que leva à presunção non est sapientia desursum descendens, set terrena, animalis et diabolica (Tg 3, 15) – não é a sabedoria que vem do alto, mas é uma sabedoria terrena, humana, diabólica.

Desde que o impeça a equidade ou a prudência, o congregado cederá com gosto e cortesia aos seus iguais, e mesmo aos inferiores, o lugar que ocupa, a honra a que tem direito e as ocasiões que se apresentarem no mundo: caritatem fraternitatis invicem diligentes honore invicem prævenientes (Rm 12, 10) – Amai-vos mu­tuamente com afeição terna e fraternal. Adiantai-vos em honrar uns aos outros. 

Como a soberba, segundo Santo Agostinho, corrompe as boas obras e, por isso, até nas boas obras deve ser temida e evitada, não se contentará o congregado com moderar os afetos que têm por objeto o mal, mas terá, também, muito cuidado  e vigilância sobre as boas obras que faz, para que não as roa o verme da vanglória.

 

 

Excerto da obra de Santo Antônio Maria Claret à Congregação de Nossa Senhora da Imaculada Conceição e São Luís Gonzaga, em Barcelona
Tradução por um congregado mariano

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