A Regra e a Santidade do Congregado

A alma da Congregação Mariana são suas Regras. Em seu quase meio milênio de história, foram elas que garantiram a continuidade de sua autêntica espiritualidade. Não há dúvidas que desde a primeira revisão das Regras Comuns, em 1587, o mundo sofreu mudanças sem precedentes; muitas das condições e costumes que antes havia passaram. Encontramos mudanças profundas em questões práticas e em regulamentos de autoridade. No entanto, certos elementos, que chamaremos de essenciais, jamais mudaram e nem poderiam. Dentre estes elementos essenciais, o primeiro é sem dúvida o esforço pela Santidade e Perfeição dos Congregados.

A devoção a Nossa Senhora, característica mais marcante da Congregação Mariana, é praticada de duas formas: Em primeiro lugar, através da busca pela Santidade e Perfeição Pessoal. Em segundo lugar, pela prática do apostolado e de obras de zelo e caridade. Esta ordem não é arbitrária. O segundo meio pressupõe o primeiro. Sem uma verdadeira luta pela Santidade Pessoal, todo trabalho dito apostólico será como palha. Tudo, na congregação, flui da luta pelo crescimento vida interior de seus membros, é este o principal e mais crítico trabalho de uma congregação.

A santidade individual da vida em todos os seus detalhes é, portanto, o objetivo mais importante e imediato da Congregação Mariana1. Aqui, não se deve entender santidade de modo vago, como é infelizmente tão comum em nossos tempos, como uma coisa de beatos de paróquia, homens de obras ou mesmo algo acessível a qualquer um. A santidade proposta pela Congregação não é esta, mas sim a verdadeira perfeição cristã no próprio estado, encarnando a espiritualidade de Santo Inácio: Fazer mais e melhor por Cristo, isto é, vencer-se a si mesmo, rejeitar o mundo e suas seduções e praticar a virtude através de uma profunda vida interior, em poucas palavras, buscar ardentemente assemelhar-se a Cristo, sendo crucificado com ele para o Mundo, vivendo para Deus.

Encontramos esse traço desde as primeiras Regras de 1587:

Art. III – Por ser o propósito desta Congregação a aquisição da virtude e da piedade cristã, junto com o estudo das letras, para esse fim, meio muito eficaz é a frequência dos Santíssimos Sacramentos […]

Art. XIII – Que todos [busquem] fazer todos os dias todo o possível para crescer na verdadeira virtude cristã. Para esse fim, ajudará muito a frequência a congregação e seus exercícios, frequentes conversas edificantes, fuga das más companhias e todo tipo de ocasião que podem causar danos, como jogos, brigas, contendas, murmuração e outras conveniências, que tolham o bom nome e crédito da Congregação. Procurem, por isso, em sua conversação, na honestidade de seus costumes e, finalmente, em todas as suas ações, para portar-se de tal forma que sejam dignos da proteção da Santíssima Virgem Maria, em cuja congregação vivem.

 

Igualmente vemos este elemento nas Regras de 1855:

Art. III  – Pelo fato de o objetivo desta Congregação ser a virtude e a piedade cristã, para a realização desse fim é de maior utilidade a frequência dos sacramentos.

Art. XIV – Por professar perfeição maior que os demais, todos os membros são exortados a mostrar maior seriedade em práticas de piedade cristã […]

 

Por fim, nas Regras de 1910, vemos igualmente este elemento:

Art. I – As Congregações Marianas […] têm em vista  fomentar nos seus membros uma ardentíssima devoção, reverência e amor filial para com a B. Virgem Maria, e, por esta devoção e pelo patrocínio de tão boa Mãe, tornar os fiéis, reunidos em nome dela, bons cristãos, que sinceramente se esforcem por santificar-se no seu estado e se deem deveras, quanto a posição social lhes permitir, a salvar e santificar os outros e a defender a Igreja de Jesus Cristo dos ataques da impiedade.

Art. XII – Como as Congregações Marianas tem por fim levar a maior perfeição os seus membros e fazer que a muitos outros se estenda o seu salutar influxo e bem das almas, é mister que procurem, intensamente, fomentar de vários modos a piedade nos Congregados e move-los à pratica de obras de caridade com o próximo

Art. XXXIII – O bom Congregado deve, acima de tudo, ser um cristão exemplar, conformando perfeitamente sua fé e os seus costumes com o que ensina a Santa Igreja Católica […]

 

Pio XII, na Bis Saeculari, tece por fim este elogio:

As Congregações Marianas, como bem al­to proclamam suas próprias leis aprovadas pela Igreja, são associações impregnadas de espírito apostólico e como tais incitam seus membros, por vezes elevados às culminâncias da santidade, não somente a realizarem em si e nos demais o ideal da perfeição cristã, mas ainda, com o favor dos Sagrados Pasto­res, a defenderem os direitos da Igreja, conseguindo formar incansáveis arautos da Vir­gem Santíssima e propagadores do Reino de Cristo

 

Diz-nos, também, o Pe. Wernz, Superior Geral da Companhia e, por extensão, Diretor Geral da Congregação Mariana2:

Aquele a frente deve estar atento a tratar dos temas mais importantes ao progresso espiritual da Congregação e não deve se satisfazer em tratar apenas do ordinário, mas colocar diante de seus congregados os assuntos concernentes à vida católica mais elevada e apresentar razões e motivos para urgir a todos a praticá-la, cultivando, assim, neles um acentuado fervor na prática da virtude, exortando todos a uma vida mais perfeita e tornando sua congregação um celeiro de virtudes acima do comum dos demais fiéis.

Isso se fará sobretudo através excelentes exortações e conferências adequadas às condições, idade e sexo da congregação, armando seus membros contra os muitos perigos que os cercam

 

Diz-nos, ainda, o texto “A Vida do Congregado“, encontrado em diversas edições dos manuais brasileiros, que apresenta textos similares em manuais em todo o mundo:

A vida do Congregado há de ser, primeiramente, a vida do bom Cristão: vida de fé ardente e incondicional e de obras inteiramente conformes à fé e a moral cristã. Há de ser a vida do filho amoroso da Santa Igreja de Deus, louvando o que ela louva e reprovando o que ela reprova, sentindo como ela sente, procedendo com desassombro na vida pública e particular como filho obediente, fiel, ardorosamente leal à tão Santa Mãe, e, finalmente, defendendo-a em toda parte dos ataques dos inimigos, com o mesmo brio com que defenderia o nome e a honra de sua mãe.

Há-de evitar tudo quanto possa ser desdouro seu, trazer-lhe dano à alma e escandalizar o próximo: Intimidade ou trato desnecessário com pessoas más ou suspeitas ou com pessoas do sexo oposto; Espetáculos, livros, revistas, filmes inconvenientes, divertimentos perigosos ou menos morais, como bailes, banhos públicos, praias, carnaval ou festivais contrários à moral cristã.

E não basta. É preciso que seja um cristão fervoroso, não omitindo as orações da manhã, agradecendo a Deus os inúmeros benefícios recebidos, oferecendo-lhe todo o bem que faz, procurando, na intenção diária, lucrar todas as indulgências anexas às obras desse dia, invocando a Santíssima Virgem Maria, consagrando ao menos um quarto de hora para a oração mental, assistindo, se possível, ao Santo Sacrifício da Missa, confessando-se ordinariamente a um confessor escolhido, prudente e douto ao qual manifeste sinceramente os arcanos da sua consciência e confie a direção da sua vida espiritual. comungando muitas vezes, rezando cada dia ao menos a terça parte do rosário a Nossa Senhora e não omitindo, à noite, nem o exame diligente de consciência com um ato de contrição sincera, nem as orações da noite.

 

Meios da Congregação para levar os membros à perfeição

Se a Congregação possui um objetivo tão elevado, não há dúvidas que fornece também os meios adequados para atingir a esse objetivo. Como já dito, nisso reside sua força e principal foco de suas energias. Grande ou pequena, de ricos ou pobres, de homens ou mulheres, a congregação precisa ter em primeiro lugar de suas preocupações o fomento da santidade de seus membros, e é este o único meio seguro de avaliá-la. A Regra nos fornece vários meios para atingirmos esse objetivo.

 

Orações da Manhã diária

O primeiro meio para atingir a santidade proposto pelas Regras não são as grandes penitências, nem os grandes dons místicos ou os estudos mais profundos dos arcanos da Sabedoria Divina. O primeiro meio é o trabalho dos mais simples, mas que, quando feito com humildade e devoção, é de sobremaneira agradável a Deus. Vemo-lo nas três edições da Regra:

Regra de 1587, Art. VIII
Cada manhã, ao sair da cama, depois de agradecer a Deus pelos benefícios recebidos de Sua Majestade dirão, em comum ou particular, três Pater Noster e três Ave Marias para honrar a Santíssima Trindade, o Credo e Salve Regina, além de outras devoções que podem fazer de acordo com o conselho de seu confessor.

Regras de 1855, Art. XIII
Assim que despertarem pela manhã e tendo dado graças a Deus por todos os benefícios recebidos da Divina Majestade, especialmente durante a noite passada, os congregados devem realizar Atos de Fé, Esperança e Caridade, recitar três vezes o Pai Nosso e a Ave Maria, em honra da Santíssima Trindade, e uma vez o Credo Apostólico, a antífona Salve Rainha, além de outras preces que cada um deverá recitar conforme sugerido por seu confessor.

Regras de 1910, Art. XXXIV
Procurem os Congregados fazer com toda diligência os exercícios de piedade, que são sobretudo necessários para a vida de fervor. Todos os dias pela manhã, ao se levantarem, façam breves atos de fé, esperança e caridade, deem graças à Divina Majestade pelos benefícios recebidos, ofereçam a Deus as suas obras com intenção de lucrar todas as indulgências que puderem naquele dia e invoquem N. Senhora, rezando pelo menos três vezes a Saudação Angélica.

 

Meditação diária

O segundo meio para atingir a santidade proposto pelas Regras é a oração mental, a meditação:

Regra de 1587, Art. VII
Todos os dias, devem assistir a missa, mas os domingos e festas devem assisti-la, tanto quanto possível, no local habitual; e nesses dias comungarão juntos, fazendo, depois, um quarto de oração, mental ou vocal, de acordo com a devoção de cada um.

Regra de 1855, Art. XIII
Não devem, pois, satisfazer-se apenas com estas orações, mas devem empenhar-se em dedicar pelo menos um quarto de hora em oração mental (meditação)

Regra de 1910, Art. XXXIV
Exercitem por ao menos um quarto de hora a oração mental

 

Missa Diária e Recepção Frequente da Sagrada Comunhão

O terceiro meio proposto pelas Regras é a assistência frequente à Santa Missa e a recepção frequente da Comunhão. De fato, diz-nos São Pio X em seu discurso aos congregados:

O Congregado Mariano […] não tem outro propósito senão de santificar pela observância estrita da lei divina, isto se dá […] ao rezarem à Santíssima Virgem sob cujo patrocínio as Congregações foram erigidas, ao assistirem piedosamente a Santa Missa, ao colocarem em prática o que se estudam em suas conferências, ao se aproximarem o mais frequente possível do Santíssimo Sacramento e aproveitar as Sagradas Indulgências que concedemos à Prima Primária e a todas as congregações a ela agregadas.

 

Nossas Regras de igual maneira, desde 1587 até 1910, insistem no mesmo:

Regra de 1587, Art. VII
Todos os dias, devem assistir a missa, mas os domingos e festas devem assisti-la, tanto quanto possível, no local habitual; e nesses dias comungarão juntos, fazendo, depois, um quarto de oração, mental ou vocal, de acordo com a devoção de cada um.

Regra de 1855, Art XIII
Não devem, pois, satisfazer-se apenas com estas orações, mas devem empenhar-se todos os dias] assistir à Santa Missa.

Regra de 1910, Art XXXIV
Assistam, se puderem, ao Santo Sacrifício da Missa

 

Leitura Espiritual diária

Embora não seja diretamente mencionada na Regra de 1910, a Leitura Espiritual diária é um elemento de imensa importância na Vida da Congregação Mariana, isto o podemos ver claramente na Regra de 1855:

Art. VIII – Como as leitura de livros piedosos são tão grandemente aprovadas pelos Santos Padres, e são uma ajuda tão poderosa ao progresso espiritual, deve ser, portanto, frequentemente praticada pelos membros da Congregação. Por este propósito, a Congregação deve ter, se possível, uma biblioteca abastecida de tais livros e bem preenchida em proporção ao número de membros, de modo que eles possam, com a permissão do Padre Diretor, levar os livros para serem lidos depois em casa. A pessoa apontada para este ofício pelo padre diretor deverá distribuir os livros.

 

Recitação do Rosário diária

Para o congregado, a recitação do terço não é uma simples devoção, mas um verdadeiro dever. O terço pode ser substituído por outro Ofício de Nossa Senhora, mas a santidade e a grandeza do Rosário são um chamado eloquente a não fazê-lo, exceto em casos específicos.

Regra de 1587, Art. VIII
São também todos exortados, porque assim decidiram ao se consagrar, de colocar ainda maior esforço no exercício das obras piedosas e cristãs, como […] recitar o Ofício de Nossa Senhora e o Rosário […]

Regra de 1855, Art. XIV
Por professar maior perfeição que os demais, todos os membros são exortados a […] recitar o Ofício e o Rosário de Nossa Senhora;

Regra de 1910, Art. XXXIV
Todos os dias […] rezem o Santíssimo Rosário ou qualquer Ofício de Nossa Senhora.

 

Exame de Consciência diário

Nossa Regra recomenda fazê-lo, em especial, antes de dormir. A prática dos exames frequentes é tida, pela Congregação, como um meio indispensável para conhecer-se e assim progredir na vida espiritual.

Regra de 1587, Art. VIII
E à noite, antes de irem para a cama, examinarão a consciência; depois disso dirão três Pater Noster e três Ave Maria com um De Profundis para as almas dos defuntos.

Regra de 1855, Art. XIII
Pela noite, devem realizar um exame de consciência e um Ato de Contrição pelas faltas deste dia; devem, por fim, rezar o Pai Nosso, a Ave Maria e o salmo De Profundis pelas almas dos fiéis defuntos.

Regra de 1910, Art. XXXIV
À noite, antes de deitar, examinem a consciência e façam um fervoroso ato de contrição dos pecados de toda a vida e especialmente dos cometidos no dia.

 

Comunhão e Confissão Frequentes

A frequência aos Sacramentos, o terceiro elemento essencial das Regras, é também indispensável para atingir o fim proposto pelas regras da Santificação Pessoal. Diz-nos a Regra de 1855:

Art. III – Pelo fato de o objetivo desta Congregação ser a virtude e a piedade cristã, para a realização desse fim é de maior utilidade a frequência dos sacramentos. […] Então, todos os membros devem saber que precisam receber o sacramento da Penitência e a Sagrada Comunhão ao menos uma vez ao mês

Art. XIV – […] Todos os membros são exortados a mostrar maior seriedade em práticas de piedade cristã como, por exemplo, a confessar-se com maior frequência, receber o Santíssimo Sacramento mais frequentemente […]

 

Frequência às Reuniões

A frequência às reuniões também é um elemento essencial da Regra, que trataremos em artigo separado. Não resta dúvidas, porém, que sua frequência e qualidade seja alvo de especial atenção e que a assistência dos membros seja um dos pontos mais firmemente propostos nas Regras. Diz-nos, nesta linha, a Regra de 1910:

Art. V – As Congregações Marianas devem ter as suas reuniões ao menos uma vez por semana, no dia e hora que as suas regras ou costume particular determinarem. […] Estas reuniões não devem omitir-se nos dias determinados senão por motivos muito fortes

 

Recolhimento Mensal e Retiro Anual

Embora o Recolhimento Mensal não seja diretamente mencionado nas Regras, junto ao Retiro Anual constitui uma das mais importantes atividades da Congregação. Neles, o congregado afasta-se sensivelmente do mundo e tem um tempo de silêncio e recolhimento para melhor pensar e corresponder a Deus e a sua vocação de Congregado.

 

Estes são os meios dados pela Congregação Mariana para atingir o mais importante de seus objetivos, a Santidade Pessoal. Esforcemo-nos, portanto, para entendendo como a santidade é o que mais ardentemente deseja a nossa Regra e que meios devemos seguir para obtê-la, esforçarmo-nos sinceramente em corresponder e fazer tanto quanto possível para buscar alcança-la.

Este artigo foi produzido por um congregado da Seção da Boa Imprensa da Congregação Mariana da Imaculada Conceição e Santo Afonso de Ligório, Manaus, Amazonas. A reprodução deste conteúdo é livre, desde que se cite a fonte de origem. Para contato, envie-nos um e-mail

  1. Mullan. p. 107
  2. Mullan, p. 78
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