As Lamentações do Profeta Jeremias e os nossos tempos

1. Desolação da Igreja

Sexta-feira, 27 de Março de 2020: um dia extraordinário e solene, o qual marcou profundamente os católicos de todo o mundo.

À distância, contemplávamos o Sucessor de Pedro caminhando cambaleante, devido às suas fragilidades, subir sozinho os degraus de uma praça São Pedro completamente vazia, sob o entardecer nublado do céu romano. Uma visão compreensível do ponto de vista material e muito simbólica do ponto de vista espiritual.

Como não recordar as palavras da Escritura: “Como está abandonada a cidade tão povoada!” (Lm I, 1)? Sim, a Roma que inundava o Vaticano de tantos fiéis e peregrinos em busca de ver o Santo Padre, agora estava abandonada. Tornavam-se extremamente atuais as palavras: “Estão de luto os caminhos de Sião, e ninguém mais vem às suas festas. Suas portas estão desertas…” (Lm I, 4).

Não apenas os caminhos de Roma, os vilarejos e praças, mas as avenidas e centros de toda a Itália estavam de luto. A pandemia, que em nossos dias se espalhou por todo o mundo, já havia ali estabelecido um grande foco de infecções e de mortos. Não havia mais motivos para festas.

Voltemos à desoladora cena no átrio da Basílica de São Pedro. O Papa, auxiliado apenas por seu mestre de cerimônias, ouvia o Evangelho cantado por um leigo: “Desapareceu da filha de Sião toda a sua glória” (Lm I, 6). Não se via ali a beleza dos paramentos, a dignidade dos ministros realizando os ritos da Sagrada Liturgia Tradicional. A Igreja havia perdido sua glória.

Como não meditar sobre os últimos dias? Como não considerar a Paixão da Igreja, que a exemplo do Seu Senhor, será traída por seus amigos e entregue nas mãos de seus adversários? Como não pensar, por outro lado, na infidelidade de seus ministros? “O Senhor aboliu em Sião festas e sábados. E no ardor de Sua cólera, repeliu rei e sacerdote” (Lm II, 6).

Mas nem é preciso transferir nossos pensamentos ao futuro. Podemos pousá-los sobre nosso presente, e até sobre nosso passado. Com efeito, em muitos lugares a desolação já alcançou os altares e em muitos templos é oferecido a Deus um sacrifício de irreverência. Sacerdotes que indignamente colocavam o homem no lugar de Deus, fiéis que buscavam as igrejas não para a adoração de Deus, mas para o bem estar e até o divertimento religioso. Como haveríamos de esquecer tais coisas? Como não pensar nas ofensas que tanto foram cometidas dentro das muralhas da Igreja nesses últimos anos?

“Desgostou-se do altar e rejeitou seu santuário” (Lm II, 7). Sim, Senhor, muitas vezes temos oferecido a Vós não as primícias de nossa colheita, mas os frutos apodrecidos que a terra infértil dos nossos corações tem produzido. Ao invés de caridade e humildade, nossa vontade tem se dobrado à soberba e à vaidade.

2. Desolação das almas

Tem sido doloroso para muitos leigos o depararem-se com os graves erros cometidos pelos homens da Igreja. De fato, os problemas morais, contrários à castidade e à pureza, à justiça e à prudência, são gravemente escandalosos e têm afastado muitos fieis. Mas muito piores são os pecados cometidos contra a verdade, os erros doutrinários, o ensino de opiniões heréticas, que afastam os fiéis do próprio Senhor: “Graves foram os pecados de Jerusalém: ela ficou uma imundície” (Lm I, 8).

Mas seria muito simplista a nossa consideração, e por isso mesmo falsa, se não recaísse também sobre nós, simples fiéis, o reconhecimento de nossas faltas: “O Senhor é justo, porque fui rebelde à sua voz. Escutai todos vós, ó povos, e vede a minha dor” (Lm I, 18). Também eu faço parte desta Igreja que sofre as consequências do pecado: foi também a minha vontade que cometeu parte destes crimes!

“Que dizer? A quem te comparar, filha de Jerusalém?” Diz-nos o Senhor a respeito de nossos próprios pecados: “É imensa como o mar tua ruína: quem poderá curar-te?” (Lm II, 13). Sim, todos os nossos pecados atuais são casos particulares de soberba. É por nos buscar mais que a Deus que pecamos. Os nossos crimes vergonhosos, de mentira ou de avareza, de cólera ou de impureza, foram sempre negações a Deus para afirmar nossa própria natureza debilitada.

E o Senhor resiste aos soberbos. Entrega-os à sua própria miséria: “Quem poderá curar-te?” A doença a qual padecemos nesses dias é um sinal corporal da grave doença que padecemos em nossas almas: tal como uma pandemia o pecado se alastra e devasta o mundo inteiro. Por todos os lugares vemos ocasiões para sua infecção, os sintomas que apresentam as almas, o mais grave sendo a morte espiritual pela perda da graça.

“Vede, Senhor, e considerai o aviltamento a que cheguei!” (Lm I, 11). “Vede, Senhor, a minha angústia! Tremem minhas entranhas, e meu coração está perturbado por causa de minhas revoltas. De fora mata a espada, de dentro alastra a morte” (Lm I, 20). A espada da peste fere nossos corpos e a morte do pecado, as nossas almas. Ambos efeitos de nossa miséria, recordações de nossa pequenez diante de tantas pretensões e ambições. Homens, na verdade somos pó que aspirávamos a ser deuses!

“Ó muralha da filha de Sião, transborda dia e noite a torrente de tuas lágrimas! Não te dês descanso e teus olhos não cessem de chorar!” (Lm II, 18). O único remédio para nossa soberba é um grande ato de humildade e contrição: apenas voltando nossos olhares para os nossos próprios corações podemos esperar voltar também os olhares misericordiosos de nosso Deus.

3. Desolação de Nossa Senhora

Sabendo que só em Deus podemos alcançar a salvação, temos buscado encontrá-Lo. Mas, para nossa confusão, Ele parece recusar-nos. Com efeito, estamos como as criancinhas: “Onde há pão e onde há vinho? – diziam eles às mães, desfalecendo, quais feridos, nas ruas da cidade e entregando a alma no regaço materno” (Lm II, 12). O atual estágio de infecção comunitária do vírus levou muitos Bispos a, no intuito de evitar aglomeração de pessoas, suspenderem a celebração pública dos sacramentos, em particular o Santo Sacrifício da Missa. Os fiéis estamos assim impedidos de cumprir o preceito dominical; impedidos de nutrir-nos sacramentalmente do Corpo e Sangue do Senhor, prefigurados nesse versículo. Eis como é grande nossa miséria!

Mas o bom Deus não nos tirou o regaço materno! Como encontrar o sustento a não ser em Nossa Senhora? Que outra devoção, abaixo apenas da Santa Missa, é mais essencial e tem sido pelos séculos o alimento espiritual de todos os fiéis católicos? Sim, temos encontrado no Santo Terço o refúgio e a esperança. A Nossa Senhora temos recorrido outra vez como o Auxílio dos cristãos, o Refúgio dos pecadores: a Ela temos apresentado nossas dores.

“Ó Vós todos, que passais pelo caminho: olhai e julgai se existe dor igual à dor que me atormenta, a mim que o Senhor feriu no dia de Sua ardente cólera” (Lm I, 12). Nossa Senhora é a Virgem Dolorosa: ao recorrer a Ela em busca de consolo, descobrimos nós que Ela é quem merece as nossas consolações.

“O Senhor esmagou no Lagar a virgem, filha de Judá” (Lm I, 15). Sobre o Calvário, Nossa Senhora como uva foi esmagada a fim de produzir um vinho agradável ao Senhor. Associada em tudo ao Seu divino Filho, também em Sua Paixão ofereceu seus sofrimentos: “Sobre a filha de Sião acumulou dores sobre dores” (Lm II, 5). Dores por seu querido Jesus que fora torturado e sofria o suplício da Cruz, o inocente pelos ímpios. Dores por seus queridos filhos que, com o passar dos séculos, com ingratidão e ofensas, como que tornavam a crucificá-Lo. “Quem irá salvar-te e consolar-te, ó virgem, filha de Sião?” (Lm II, 13).

“Eis o motivo por que choro; fundem-se em lágrimas os meus olhos, porque ninguém a meu lado me consola, nem me alenta” (Lm I, 16). Em muitas ocasiões apareceu a Santíssima Virgem para incutir santas devoções e pedir a conversão e a reparação das ofensas, causadas contra Seu Imaculado Coração e o Sacratíssimo Coração de Jesus. Tão pouco caso temos feito de Suas palavras… Desconsiderando seus pedidos, ignorando as ameaças de castigo vindas da parte de Deus, recusamos a tão boa Mãe a consolação que tanto desejava de nós! E, ao contrário, temos ido a Ela buscar nosso próprio consolo! “Isso não vos importa?”.

4. Desolação de Nosso Senhor

Confiantes em nossa própria prudência, na técnica e na ciência, nos sistemas e protocolos, fomos golpeados a levados ao chão. O homem, considerando a si mesmo o resultado mais sofisticado de um processo evolutivo, foi derrotado pela mais miserável forma de vida. A nossa soberba muitas vezes também tem nos levado a cair nas armadilhas do inimigo de nossas almas.

Mas assim como nós “O sopro de nossa vida, o Ungido do Senhor, caiu em suas ciladas. De quem dizíamos: ‘À sua sombra viveremos entre as nações'” (Lm IV, 20). Quis o Senhor também ser entregue aos ímpios por amor de nós: quis sofrer seu ódio e zombaria, para reparar com isso nossa vaidade.

“Eu sou o homem que conheceu a dor, sob a vara de Seu furor” (Lm III, 1). Quis Nosso Senhor Jesus Cristo experimentar todo o gênero de dor, para reparar com isso todo o gênero de pecado. Quis até mesmo experimentar abandono de Deus, ainda que jamais tenha deixado de estar unido ao Seu Eterno Pai, para com isso reparar a rejeição de Deus causada pela nossa soberba.

“Consumiu minha carne e minha pele… Fez-me morar nas trevas como os mortos do tempo antigo” (Lm III, 4.6). Mas quis também o Senhor habitar mesmo as regiões inferiores, para aos mortos envoltos nas trevas, que haviam guardado fidelidade a Ele, levar a luz da verdade e da justiça! Porque sendo a própria Verdade, não pode deixar-se vencer em fidelidade.

“Após haver afligido, Ele tem piedade, porque é grande sua misericórdia. Não lhe alegra o coração humilhar e afligir os homens” (Lm III, 32-33). Eis a palavra de esperança e conforto que Nosso Senhor nos dirige! De fato é grande a miséria que se abate sobre o mundo, que esvazia cidades, que enche de enfermos os hospitais e que provoca tantos mortos! Mas o meu auxílio está no Senhor, que fez o céu e a terra! Ele não castiga senão com bondade: para arrancar de nossos corações de pedra a contrição e a caridade.

5. Esperança em Deus.

Por isso, como diz a Escritura: “Exulta, alegra-te, filha de Edom, habitantes da terra de Us! A ti também será passado o cálice, e embriagada, descobrirás tua nudez” (Lm IV, 21). O cálice de todo esse tempo de sofrimento, providencialmente durante os fins da Quaresma, o tempo da Paixão e a Páscoa, pode mostrar-nos nossa nudez: impureza, irreverência, falta de caridade e de fé, apego desordenado aos bens e às criaturas, soberda e avareza… Vejamos este tempo de pandemia com olhares espirituais e, então, tiraremos proveito para nossa vida espiritual.

“De quem se executa a ordem, sem que Deus a ordene? Não é da boca do Altíssimo que procedem males e bens?” (Lm III, 37-38). Não é o Senhor a causa primeira de todas as causas? Por que motivos não voltamos a Ele, então, nossos olhares?

Por que embriagar-nos com o sensacionalismo dos noticiários ou as ilusões da ideologia? Por que não nos aproveitarmos dos sermões e palavras que tantos padres prudentes e zelosos têm-nos oferecido virtualmente? “É graças ao Senhor que não fomos aniquilados, porque não se esgotou sua piedade. Cada manhã Ele se manifesta e grande é Sua fidelidade” (Lm III, 22-23).

“O Senhor é bom para quem nele confia, para a alma que O procura” (Lm III, 25). Penetrai-me, Senhor, o coração com esta verdade. Fazei-me ver com olhos sobrenaturais que este tempo é para mim ocasião de santificação! Dai-me um coração contrito e humilde!

“Bom é esperar em silêncio o socorro do Senhor. É bom para o homem carregar seu jugo na mocidade” (Lm III, 26-27). Dai-me a graça de sofrer com paciência todas as dores que vossa Divina Providência dispôs enviar-me. Livrai-me do coração altivo e vaidoso, que considera injustas as contrariedades: “De que pode o homem em vida queixar-se? Que cada um se queixe de seus pecados” (Lm III, 39).

“Examinemos, escrutemos o nosso proceder, e voltemos para o Senhor. Elevemos os corações, tanto quanto as mãos, para Deus lá nos céus” (Lm III, 40-41). Sim, ó bom Jesus, Vós fostes elevado e como dissestes, atraístes todos a Vós: alguns foram atados pelas correntes de seus pecados, outros pelas correntes da caridade. Se são as lágrimas de meus pecados que me arrastam para vossos pés, neste tempo, concedei-me a graça de ter um coração penitente como o Bom Ladrão. Não consintais, ó meu Senhor, que diante de vossa Cruz, venha eu outra vez a vos ofender e desprezar. Ponde, Senhor, fim à minha vida de pecado!

“Findou teu castigo, filha de Sião. Deus não mais te exilará. É a teus crimes que Ele vai castigar, filha de Edom, e descobrir teus pecados” (Lm IV, 22). Jesus, Bom Samaritano, que curais nossas chagas com vossos Sacramentos, concedei-nos a graça de tão cedo quanto vos aprouver, termos de volta o remédio da Confissão e o alimento da Sagrada Eucaristia e livrai-nos da desgraça de profoná-los, aproximando-nos deles sem as devidas disposições.

Com São Bernardo de Claraval, consideremos precisamente a mansidão do Senhor, que não despreza os pobres e não esmaga os pecadores contritos (cf. Sermo XXII, In Cantica) e corramos atrás dele, isto é, façamos proveito deste tempo de sofrimento para, profundamente unidos à Paixão do Senhor, em particular ao Sacrifício do Calvário, avancemos na obra de nossa santificação, abandonando de uma vez por todas os pecados que até aqui nos solicitaram de todos os lados, para abraçar a mansidão e a humildade, a alegria da esperança e da caridade. Salve Maria! Santa Páscoa!

 

Por um congregado mariano.

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