VIRGO PRAEDICANDA: QUESTÃO SOBRE A PREDICAÇÃO DA SANTÍSSIMA VIRGEM MARIA

Introdução

“Nunca o teu louvor cessará de ser celebrado pelos homens” (Judite XIII, 25). O termo “Virgem Louvável”, tradução da invocação “Virgo Praedicanda”, da Ladainha Lauretana de Nossa Senhora, não traduz bem o sentido latino. Com efeito, “Praedicanda” indica um certo dever de louvor externo, público, não simplesmente a qualidade de quem é digno desse louvor: Nossa Senhora é a “Virgem de quem se deve predicar”. Mas qual seria a razão principal da predicação de Nossa Senhora, sua maior perfeição pela qual deveria mais ser conhecida?

Na doutrina revelada sobre a Virgem Maria, as duas grandes verdades das quais todas as demais derivam como de seus primeiros princípios são a maternidade divina e a plenitude de graças, afirmadas quer pelas Sagradas Escrituras, quer pelos Concílios. Entretanto, uma dessas duas verdades é o primeiro princípio, do qual toda a pregação sobre a Santíssima Virgem depende como de seu fundamento; para identificá-lo, devem-se comparar ambos, buscando qual dentre eles possui razão de causa. Assim, pergunta-se o que há de maior em Nossa Senhora: sua maternidade divina ou sua plenitude de graças? Segundo o pe. Garrigou-Lagrange, a sentença afirmada pela grande maioria dos teólogos, dentre os quais Santos e Doutores, é a de que “a maternidade divina, proclamada no Concílio de Éfeso, é superior à plenitude da graça e da caridade, e que o maior título de glória de Maria é o de Mãe de Deus” (A Mãe do Salvador e a nossa vida interior, p. 17). Portanto, é este o título o qual particularmente consideraremos como causa de sua pregação.
Pois bem, uma vez delimitado o título principal pelo qual deve ser predicada e conhecida a Santíssima Virgem, . E sobre este assunto, três artigos se discutem:

  • Art. 1 — Se Nossa Senhora é digna de ser predicada.
  • Art. 2 — Se é conveniente a predicação de Nossa Senhora.
  • Art. 3 — Se é necessário, isto é, se há um dever de se predicar de Nossa Senhora seus títulos e obras.

Art. 1 — Se Nossa Senhora é digna de ser predicada

O primeiro discute-se assim. Nossa Senhora é digna de ser predicada, e nem mesmo os protestantes — ao menos os mais sérios e dignos de alguma consideração — teriam a ousadia de o negar, dado que reconhecem a dignidade e louvam outros justos da Sagrada Escritura. Todavia, parece que deve ser predicada antes como discípula de Cristo que como Mãe de Deus. Certamente como a primeira ou a mais eminente entre os santos, mas nada além disso.

1. Pois – Diz a Escritura: “Aconteceu que, enquanto Ele dizia estas palavras, uma mulher, levantando a voz do meio da multidão, disse-lhe: ‘Bem-aventurado o ventre que te trouxe, e os peitos a que foste amamentado’. Porém Ele disse: ‘Antes, bem-aventurados aqueles que ouvem a palavra de Deus, e a põem em prática'” (São Lucas XI, 27s). Nosso Senhor corrige o louvor da mulher na multidão, pondo o discipulado como superior à maternidade de Nossa Senhora. Logo, a filiação adotiva pela graça, com a qual somos constituídos discípulos de Cristo, é maior que a maternidade divina de Nossa Senhora, e por esse motivo é que Ela deve ser pregada.

2. Ademais – Pela maternidade divina, Nossa Senhora deu a Nosso Senhor a natureza humana, mas quanto a si mesma, recebeu apenas a graça de ser mãe permanecendo sempre virgem. Por outro lado, pela filiação adotiva pela graça, nós participamos da natureza divina, tendo a capacidade de operar sobrenaturalmente, pela fé e pela caridade, agradando e sendo amáveis aos olhos de Deus. Logo, a filiação adotiva pela graça, com a qual participamos da natureza divina, é maior que a maternidade divina de Nossa Senhora, e por esse motivo é que Ela deve ser pregada.

3. Ademais – O meio ou instrumento tem um valor que não reside em si mesmo, apenas na sua relação com o fim, isto é, vale tanto quanto conduz ao seu fim. Neste sentido, a Virgem Maria tem uma dignidade apenas enquanto instrumento da Encarnação do Verbo; e Deus poderia perfeitamente ter se utilizado de outra criatura para tal fim. Por outro lado, a filiação adotiva é necessária e não dispensável para a salvação, mesmo a de Nossa Senhora. Logo, a filiação adotiva pela graça, que é o meio ordinário de santificação e salvação, é maior que a maternidade divina de Nossa Senhora, que é apenas um meio particular e não necessário para Ela, e por isso Ela deve ser pregada antes como a maior entre os discípulos que como Mãe de Cristo.

Mas, em contrário – Diz Santo Tomás de Aquino:

“(…) A Bem-Aventurada Virgem, porque é a Mãe de Deus, tem uma certa dignidade infinita por sua relação com o próprio Deus, e desta parte nada pode ser mais perfeito, porque nada pode ser melhor que o próprio Deus” (Suma Teológica, Iª, q. 25, a. 6, ad 4).

Solução – Explica o padre Edward Hugon, OP:

“A maternidade divina é, por natureza, superior à filiação adotiva (pela graça). Esta não estabelece senão um parentesco espiritual e místico; a maternidade da Santíssima Virgem estabelece um parenteco de natureza, uma relação de consanguinidade com Jesus Cristo e de afinidade com toda a Santíssima Trindade. A filiação adotiva (pela graça) não obriga a Deus tão estritamente com relação a nós; a maternidade divina impõe a Jesus estes deveres de justiça que os filhos, por obrigação natural, têm com relação a seus pais, e confere a Maria domínio e poder sobre Jesus, pois esse é um direito natural que acompanha a dignidade maternal” (Marie pleine de grâce, p. 63, in Garrigou-Lagrange, A Mãe do Salvador e a nossa vida interior, p. 26).

É ainda mais preciso o padre Garrigou-Lagrange, quando argumenta que o valor de uma relação depende do fim a que ela tende e que a especifica. Ora maternidade divina tende à Encarnação, que é seu fim. Portanto, a maternidade divina é da ordem da união hipostática e ultrapassa a ordem da graça e a da glória (cf. p. 25), dado que Nossa Senhora contribuiu para a união Hipostática, dando a natureza humana de Cristo que o Verbo assumiu. Essa união de Nossa Senhora com Cristo, pois, supera mesmo a união pela visão beatífica na glória que o serafim mais digno tem com Deus. Ora, quanto mais um ser está próximo de uma causa, mais ele participa de seus efeitos: tanto mais quente é a temperatura quanto mais próximo se chega da fonte de calor.

Logo, maior é a dignidade — de certo modo infinita — pela maternidade divina que pela união com Deus pela graça ou na glória, e por esse mesmo fato é que Nossa Senhora é mais digna de ser predicada e conhecida.

Donde a resposta à primeira objeção – O louvor da mulher na multidão não tinha como objeto a maternidade divina, corretamente entendida. É improvável que a mulher reconhecesse-O, naquele instante, durante o início do apostolado de Nosso Senhor, como o próprio Deus Encarnado. Assim, a maternidade que ela entendia era meramente natural, tendo o valor meritório de um ato humano livre, apenas. Entretanto, a maternidade divina de Nossa Senhora possui o mérito sobrenatural, ressaltado pela bem-aventurança que Santa Isabel, cheia do Espírito Santo, predicou-lhe na Visitação: “Bem-aventurada a que acreditou, porque se hão-de cumprir as coisas que da parte do Senhor foram ditas.” (São Lucas I, 45). Aliás, é a isto mesmo que se refere a correção de Nosso Senhor: “Antes, bem-aventurados aqueles que ouvem a palavra de Deus, e a põem em prática” (São Lucas XI, 28).

Resposta à segunda – Pelos efeitos se conhece a causa. Da explicação do padre Hugon, vimos que a maternidade divina de Nossa Senhora traz consequências reais também para Si: o parentesco de natureza e o direito natural de domínio que tem a mãe sobre o seu filho. Tanto um como o outro superam os efeitos da adoção filial pela graça, que confere um parentesco apenas espiritual e místico e não obriga tão estritamente a Deus em relação a nós. Logo, pelos efeitos muito superiores, a maternidade divina supera a ordem da adoção filial pela graça.

Resposta à terceira – Os instrumentos podem ser ou meramente úteis ou estritamente necessários. Assim, por exemplo, são meios meramente úteis à Divina Providência a imagem da serpente posta numa haste por Moisés, as relíquias dos santos e profetas, e mesmo os juízes do Antigo Testamento, pois Deus lhes conferia graças atuais especiais, em dada circunstância, para realizarem seu fim específico. Mas estas graças poderiam ser concedidas a outros objetos ou pessoas, sem prejuízo ao fim a ser alcançado. Por outro lado, Nossa Senhora é um instrumento estritamente necessário, pois lhe foram concedidas graças especiais em previsão de sua eleição e predestinação como a Mãe de Deus, de modo que, quando o Anjo foi enviado, Maria era a única Virgem concebida sem pecado, cheia de graça. Era dela que falavam as profecias do Antigo Testamento. Por isso, diz São Boaventura: “Deus pode fazer um mundo maior, mas não pode fazer uma mãe mais perfeita que a Mãe de Deus” (Speculum, c. VIII). E acrescenta Orígenes, explicando a saudação de Santa Isabel: “Diz pois: Bendita és tu entre as mulheres. Nenhuma jamais participou ou poderia participar de graça tão grande, pois uma única é a mãe da única semente divina”. Logo, pelo desígnio particular da Divina Providência, a maternidade divina de Nossa Senhora supera a ordem da adoção filial pela graça.

Art. 2 — Se é conveniente a predicação de Nossa Senhora.

O segundo discute-se assim. Parece que não é conveniente que Nossa Senhora seja pregada externa e publicamente.

1. Pois – Diz a Escritura: “Com efeito, há um só Deus e um só mediador entre Deus e os homens, que é Jesus Cristo homem” (I Timóteo II, 5). Ora, a pregação de Maria (muitas vezes usando termos como “medianeira”, “Mãe de Deus”, etc.) conduz ao pensamento de que Nossa Senhora é antes uma alternativa a Cristo, pondo-a num lugar que não lhe cabe, como pura criatura. Logo, não convém que ela seja predicada externa e publicamente.

2. Ademais – Ensina o dogma da Imaculada conceição que Nossa Senhora recebeu esta graça singular em previsão de sua maternidade divina, no mesmo decreto da Encarnação da Divina Sabedoria (cf. Pio IX, Ineffabilis Deus, n. 4). Ora, o Eterno Pai proclamou por duas vezes de Seu Filho: “Este é o meu Filho amado, no qual pus as minhas complacências” (São Mateus III, 17; XVII, 5). Tendo-se em conta que, assim procedendo, Deus tornara aquele seu eterno decreto manifesto aos homens, salta a vista a ausência de menção à maternidade divina da Virgem concebida sem pecado. Sendo digna de tal culto, a criatura mais perfeita e santa que se pode conceber, do fato de não ter sido publicamente também lembrada na manifestação deste eterno e inefável desígnio depreende-se que não convinha a Nossa Senhora ser predicada. Logo, por imitação de Deus, não convém também a nós predicarmos de Nossa Senhora seus títulos e obras, externa e publicamente.

3. Ademais – O próprio Jesus Cristo e os Apóstolos, nos escritos do Novo Testamento, calam-se a respeito da dignidade de Nossa Senhora como Mãe de Deus, seus privilégios e demais qualidades. Ora, sendo justo que Nossa Senhora fosse louvada, por sua dignidade, se não o fizeram foi porque não era conveniente. Logo, também não é conveniente a nós que publicamente exaultemos a Mãe de Deus, por imitação de Nosso Senhor e dos Apóstolos.

4. Ademais – Desde o Concílio Vaticano II, a Igreja tem assumido uma pregação cristocêntrica, também como um compromisso ecumênico, concentrando-se naquilo que é razão de unidade e não de divisão entre os cristãos. Ora, nem todos os cristãos compartilham os mesmos dogmas de fé que os católicos, com relação à Santíssima Virgem. Logo, pelo compromisso ecumênico, não convém que Nossa Senhora seja predicada externa e publicamente naqueles artigos de fé que dividem os cristãos.

Mas, em contrário – Vaticina a própria Maria Santíssima: “eis que, de hoje em diante, todas as gerações me chamarão bem-aventurada” (São Lucas I, 48).

Solução – O louvor de uma pessoa virtuosa pode ser conveniente por três razões: como meio de restaurar o bem da própria pessoa, quando oculto; como meio de edificação do próximo; e como meio para alcançar um bem maior por parte de todos.

Consideremos o primeiro caso, como meio de restaurar o bem da fama omitida de uma pessoa digna. Ora Nossa Senhora por sua perfeitíssima humildade viveu sempre oculta durante toda a sua vida, sendo conhecida só por Deus, e não recebeu o louvor dos homens que convinha à Rainha do Céu e da terra. Quando vemos uma pessoa humilde, cheia de virtudes, ocultar-se ou ser humilhada, ainda que sem prejuízo da justiça, temos logo o desejo de louvá-la, por ser conveniente essa reparação. Assim se expressa este nosso movimento natural nas Escrituras, com relação ao justo: “Quem é este, para nós o louvarmos? Realmente fez coisas maravilhosas em sua vida” (Eclesiástico XXXI, 9). Logo, é conveniente que Nossa Senhora seja predicada, em reparação ao louvor devido que em vida não recebeu.

Consideremos, agora, o segundo caso, do louvor dos bons como meio de edificação do próximo, e isto por dois motivos:

  1. Primeiro, por reconhecimento da virtude, que sempre apresenta mais contrariedades que o vício, conforme diz Nosso Senhor: “Que estreita é a porta, e que apertado o caminho que conduz à vida, e quão poucos são os que dão com ele!” (São Mateus VII, 14). Dado que somos naturalmente passíveis, as contrariedades e dificuldades tendem a nos desanimar e dificultar nossa perseverança. Assim, precisamos em maior ou menor grau, de certas consolações, que nos devolvam a alegria e a firmeza no desejo do bem. Ora, o justo louvor da virtude é consolação que remedia os obstáculos que se lhe apresentam.
  2. Segundo, para confusão dos maus, que de algum modo escolhem na prática do pecado meios inconvenientes para conseguirem o bem para si. Como seres racionais, é próprio do nosso agir que os atos da nossa vontade sigam necessariamente um ato prévio da nossa razão, salvo alguma enfermidade que perturbe essa nossa natureza. Ora, mesmo na prática do mal é possível que se vise um bem, apresentado pela razão, pois dada a ferida da ignorância, consequência do pecado original, infelizmente é comum que os raciocínios que governam os nossos atos estejam ou equivocados ou sejam mesmo incoerentes. Por isso, mesmo um criminoso está buscando o seu próprio bem, mas o faz desordenadamente, colocando-o acima de todos os outros bens, o que é contrário a justiça. Pois bem, o justo louvor da virtude é para eles causa de confusão, pois demonstra que é verdadeiramente valioso o caminho árduo do bem, não o caminho fácil do mal.
    Portanto, neste sentido, como meio de edificação do próximo, é muito conveniente que de Nossa Senhora suas virtudes e glórias sejam predicadas.
  3. Por fim, consideremos o louvor do justo como meio de alcançar um bem maior por parte de todos, e neste sentido há uma razão sobrenatural para a predicação de Nossa Senhora. Com efeito, afirma São Luís de Montfort que Jesus Cristo ainda não é conhecido como deveria ser porque Maria Santíssima tem sido desconhecida, e acrescenta: “Portanto, e é certo, o conhecimento e o reino de Jesus Cristo será uma consequência necessária do conhecimento e do reino da Santíssima Virgem Maria” (TVD n. 13). Logo, porque é um meio eficaz de conduzir ao conhecimento de Nosso Senhor Jesus Cristo, o qual é necessário para nossa salvação e para a maior glória de Deus, é sumamente conveniente que o conhecimento de Nossa Senhora seja pregado entre os fiéis.

Donde a resposta à primeira objeção – Primeiramente, São Paulo está se referindo especificamente à mediação de justiça, pela qual Nosso Senhor, enquanto homem, ofereceu um sacrifício reparador pelo gênero humano, que, enquanto Deus, tinha um valor infinito, capaz de pagar nossa dívida e tornar Deus novamente propício a nós. Em segundo lugar, é falso que a pregação de Nossa Senhora torne-a uma alternativa a Cristo, em prejuízo à nossa fé e à majestade Divina. Com efeito, “o culto de Maria Santíssima redunda em benefício do culto de Deus, pois quem honra a dignidade eminente de uma pessoa, exalta por isso mesmo a bondade e o poder do que conferiu à dita pessoa tal dignidade” (Boulenger, Doutrina Católica, vol. 1, p. 167). Portanto, longe de prejudicar o culto de Deus, a pregação e o culto a Nossa Senhora antes o favorecem.

Resposta à segunda – Em primeiro lugar, nas duas vezes em que se ouviu a voz de Deus Pai proclamando Nosso Senhor como Seu Filho amado, tinha-se como fim não necessariamente manifestar o eterno decreto da Encarnação do Verbo, senão que ressaltar sua natureza divina igual ao Pai: assim foi feito no seu Batismo (manifestação da Santíssima Trindade) e na sua Transfiguração (onde foi manifesto como tendo sido anunciado pela Lei e pelos Profetas). Neste sentido específico das duas ocasiões, realmente não era conveniente ajuntar o louvor de Nossa Senhora. Por outro lado, São Luís de Montfort ensina que o verdadeiro motivo de seu escondimento por Deus foi uma concessão divina à sua humildade: “para atender aos pedidos que Ela lhe fez de escondê-la, empobrecê-la e humilhá-la, Deus providenciou para que oculta Ela permanecesse em seu nascimento, em sua vida, em seus mistérios, em sua ressurreição e assunção, passando despercebida aos olhos de quase toda criatura humana” (TVD, n. 3). Com efeito, diz a Escritura: “Toda a glória da Filha do Rei está no interior” (Salmo XLIV, 14), pois “A glória de Deus está em encobrir a palavra, e a glória dos Reis é investigar o discurso” (Provérbios XXV, 2). Portanto, conquanto a Deus tenha sido conveniente ocultar Nossa Senhora, encobrindo-a com as inúmeras figuras do Antigo Testamento, a nós é sumamente conveniente que prediquemos de Nossa Senhora seus títulos e obras.

Resposta à terceira – Como visto no artigo anterior, Nosso Senhor proclamou uma bem-aventurança que, conquanto seja aplicável universalmente a todos que pratiquem o bem por obediência de fé, é particularmente aplicável a Nossa Senhora. Com relação aos Apóstolos, era conveniente que, naquele momento em que a fé era semeada e não tinha ainda criado raízes mais profundas, concentrassem a pregação naquelas verdades mais essenciais para a conversão e salvação dos homens, dado que eram muito carnais e pouco dados às coisas espirituais, tanto os judeus como os pagãos. Mesmo os Apóstolos, convivendo mais estritamente com Nosso Senhor, tiveram muitas vezes a necessidade da graça para serem robustecidos em sua fé, e só após a Ressurreição de Nosso Senhor compreenderam mais perfeitamente a Revelação. De todo modo, o próprio Espírito Santo, como que arrancando à força, exprime seus louvores a Nossa Senhora pela boca dela mesma e de sua Santa Prima:

“Donde a mim esta dita, que a mãe do meu Senhor venha ter comigo? (…) Bem-aventurada a que acreditou, porque se hão-de cumprir as coisas que da parte do Senhor foram ditas. (…) Porque lançou os olhos para a baixeza da sua serva. Portanto, eis que, de hoje em diante, todas as gerações me chamarão bem-aventurada” (São Lucas I, 43.45.48).

Portanto, a nós é sumamente conveniente louvar externa e publicamente a Nossa Senhora.

Resposta à quarta – A concórdia e a paz, para serem lícitas, devem estar subordinadas à verdade, assim como a união de vontades deve estar sujeita à reta razão. Do contrário, se está buscando um bem inferior às custas de ferir um bem superior, e isto é a definição de pecado e de injustiça. Ora, sendo as verdades de fé sobre Nossa Senhora, e particularmente sua maternidade divina, artigos da Revelação de Deus, pertencem à ordem da verdade e devem governar e não serem governadas por atos de vontade. Portanto, não é conveniente e chega mesmo a ser injusto e pecaminoso renunciar a pregação sobre Nossa Senhora, ou outras verdades de fé, com o fim de uma união aparente com outras igrejas ou seitas protestantes.

Art. 3 — Se é necessário, isto é, se há um dever de se predicar de Nossa Senhora seus títulos e obras.

O terceiro discute-se assim. Parece que não é obrigatório que de Nossa Senhora sejam predicados seus títulos e obras.

1. Pois – o objeto da fé é o próprio Deus que se revela. Ora, Nossa Senhora, mesmo sendo Mãe de Deus, permanece sendo uma criatura. Assim, Nossa Senhora não é objeto de fé. Logo, não há uma obrigação moral de que Ela seja pregada, ainda que seja digno e conveniente.

2. Ademais – A salvação vem pela graça santificante e pela caridade. Ora, a graça santificante é uma participação na vida sobrenatural, que consiste principalmente na caridade, o amor sobrenatural de Deus. Assim, não é obrigatório que Nossa Senhora seja pregada, sendo necessário apenas a união com Deus pela caridade.

3. Ademais – Todas as criaturas são, em última análise, meios cujo fim deve ser o de conduzirem à união com Deus, sobretudo pela contemplação, segundo o ensinamento de Santo Inácio de Loyola sobre a virtude da Santa Indiferença, nos seus Escritos Espirituais. Ora, além de Nossa Senhora, dos Santos e dos Anjos, há ainda muitas outras criaturas cuja contemplação conduz a Deus. Assim sendo, Deus pode ser conhecido e por muitas vias. Logo, não há um dever especial de que Nossa Senhora seja pregada.

Mas, em contrário – São Luís de Montfort afirma que “a Santíssima Virgem sendo necessária a Deus, duma necessidade chamada hipotética, devido à Sua vontade, é muito mais necessária aos homens para chegarem a seu último fim” (TVD n. 39).

Solução – A devoção a Nossa Senhora é necessária à salvação, como ensinam os Santos Padres: “ser vosso devoto é arma de salvação que Deus dá àqueles que quer salvar” (S. João Damasceno). Ora, a devoção, como prontidão da vontade em obedecer, servir e agradar ao superior, deve ser precedida pelo conhecimento deste superior. Logo, o conhecimento de Nossa Senhora em si mesmo é necessário para os homens alcançarem o seu último fim. Mas assim como a necessidade impõe o dever, segue-se que o conhecimento de Nossa Senhora deve ser pregado para a salvação dos fiéis e a glória de Deus.

Donde a resposta à primeira objeção – A ideia de que Deus em si mesmo é o objeto da fé, por um encontro pessoal e subjetivo, e não propriamente as verdades que Ele revelou e que por sua autoridade ensina a Igreja, é uma teoria modernista, que foi condenada por São Pio X na encíclica Pascendi Dominici Gregis, como o pensamento do modernista enquanto crente. Ademais, não apenas seu título de Mãe de Deus, como também seus privilégios e prerrogativas como Sempre Virgem, Imaculada Conceição e Assunta ao céu são artigos de fé solenemente definidos como dogmas. Ora, fazendo parte do depósito da Revelação, são todos necessários para a salvação e serão matéria de nosso juízo particular. Desse modo, todos estes artigos de fé entram no mandato explícito de Nosso Senhor à Igreja docente: “Ide e ensinai”, pois como ensina São Paulo, “a fé provém do ouvir, e o ouvir depende da pregação da palavra de Cristo” (Rm X, 17). Portanto, em obediência ao mandato de Nosso Senhor, o louvor e o ensino dos títulos, privilégios e prerrogativas de Nossa Senhora deve ser pregado.

Resposta à segunda – É verdade que a salvação vem pela graça santificante, que consiste especialmente na caridade. Entretanto, como um ato de vontade, deve ser precedida por um ato da inteligência: a fé vivificada pelas obras de caridade, que S. Tiago ensina (cf. S. Tiago II, 14-26). Pois bem, além dos argumentos acima expostos, a ignorância das verdades de fé sobre Nossa Senhora não raro conduziu a perniciosas heresias durante a história da Igreja, como o Nestorianismo. Portanto, Nossa Senhora deve ser pregada, porque importa para a salvação das almas.

Resposta à terceira – Não apenas uma criatura como as demais, Nossa Senhora é a obra-prima saída das mãos do Altíssimo, como atesta a Escritura (Eclo XXIV, 4). Ora, sendo o trabalho mais perfeito, no qual o talento do autor melhor se realizou, o conhecimento da obra-prima é indispensável para um sério conhecimento e contemplação de tal autor. Logo, o conhecimento de Nossa Senhora é indispensável para a contemplação e a glória de Deus, e esta necessidade impõe o dever de seus títulos e obras serem predicados entre os homens.

Conclusão

“Com efeito, se segundo o Profeta são bem-aventurados todos os que descendem de Sião e têm parentes em Jerusalém, quão grande deve ser a celebração da excelsa e santa Virgem Maria, que foi eleita para ser a Mãe do Verbo segundo a carne?” (Santo Atanásio). Desde os Santos Padres o louvor da Santíssima Virgem, daquela que recebeu aquele “Ave” dos lábios de Gabriel, nunca sessou também nos lábios dos Santos e dos pecadores: “Eu vos saúdo, ó maior milagre do universo, paraíso de delícias, porto seguro para os que estão em perigo, manancial de graças, medianeira entre Deus e os homens” (Sto. Efrém, séc IV). Assim sendo, para corresponder ao compromisso que, enquanto congregados marianos, assumimos diante da Santíssima Virgem, de fazê-la — dentro de nossas muitas limitações — mais conhecida, amada e servida, decidimos reunir estes argumentos que recordam a justiça, a conveniência e o dever de tornar Nossa Senhora conhecida em seus títulos e obras. Ora, este é antes de tudo um dever dos sacerdotes, pois “nos lábios do sacerdote deve estar o depósito da ciência e de sua boca se há de aprender a Lei, pois ele é o anjo do Senhor” (Malaquias II, 7). Entretanto, também a nós, dadas as devidas proporções, cabe falar das glórias de Maria Santíssima, “cuja dignidade é tão excelsa que nada se pode conceber de mais elevado” (Leão XIII, Quamquam pluries), a Virgem de quem se deve predicar.

 

Por um congregado mariano da Congregação da Imaculada Conceição e Santo Afonso de Ligorio.

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