Quaresma: valor do Jejum e os mistérios deste tempo

Os quarenta dias de jejum, os quais chamamos de Quaresma, são a preparação da Igreja para a Páscoa, instituída desde o início do cristianismo. Nosso Senhor Jesus Cristo sancionou isto quando passou quarenta dias e quarenta noites no deserto jejuando. Apesar de não ter imposto isto para o mundo por meio de um comando expresso, Cristo mostrou claramente, por Seu exemplo, que o jejum, que Deus frequentemente ordenara na antiga lei, deveria ser também praticado pelos filhos do novo testamento.

Os discípulos de São João Batista foram, um dia, até Jesus, e disseram a Ele: “Qual é a razão por que nós os fariseus jejuamos, e os teus discípulos não jejuam?” Jesus respondeu-lhes: “Porventura podem estar tristes os companheiros do esposo, enquanto o esposo está com eles? Mas virão dias em que lhes será tirado o esposo, e então eles jejuarão” (Mt. IX, 14-15).

Consequentemente, nós achamos mencionado nos Atos dos Apóstolos como os discípulos de Nosso Senhor, depois da fundação da Igreja, aplicaram eles mesmos o jejum. Nas epístolas, também, eles recomendaram o jejum aos fiéis. Não poderia ser de outro modo. Apesar dos divinos mistérios pelos quais Nosso Salvador moldou nossa redenção já tenham se consumado, nós ainda somos pecadores, e onde há pecado, deve haver expiação.

Os apóstolos, assim sendo, legislaram em prol de nossa fraqueza, instituindo, desde o início da Igreja Cristã, que a solenidade da páscoa deveria ser precedida por um jejum universal. Além disso, eles deveriam fazer este período de penitência consistir em quarenta dias, contemplando que o divino Mestre havia consagrado este número por meio do Seu próprio jejum no deserto. São Jerônimo, São Leão Magno, São Cirilo de Alexandria, Santo Isidoro de Sevilha, e outros santos padres, declaram que a Quaresma foi instituída pelos apóstolos, embora, no início, não houvesse nenhuma uniformização a ser observada.

A quaresma, portanto, é um tempo consagrado de uma especial maneira para a penitência, a qual é praticada principalmente pelo jejum. Jejum é uma abstinência, por meio da qual os homens voluntariamente impõem a si mesmos a expiação dos pecados, o que é também praticado durante a quaresma em obediência à lei geral da Igreja. De acordo com a disciplina tradicional da Igreja ocidental, o jejum quaresmal não é mais rigoroso que o prescrito para as vigílias de certas festas, e os dias de têmporas; mas é mantido por quarenta dias sucessivos, com a singular interrupção da intervenção do domingo.

As sagradas escrituras são cheias de elogios a esta santa prática. As tradições de muitas nações do mundo testemunham a veneração universal à pratica do jejum onde ela foi mantida.

São Basílio, São João Crisóstomo, São Jerônimo e São Gregório Magno observaram que o mandamento designado aos nossos primeiros pais, no paraíso terrestre, foi somente um, o de abstinência. Considerando que eles não conseguiram exercer esta virtude, acabaram trazendo todo tipo de mal sobre si e seus filhos. A vida de privação, com a qual o rei da criação teve que daí em diante lidar na terra é um claro exemplo da lei de penitência imposta pela ira de Deus diante da rebelião do homem.

 

O mistério da Quaresma

Nós temos certeza que um tempo tão sagrado quanto a quaresma é rico em mistérios. A Igreja fez este tempo de recolhimento e penitência, em preparação a melhor de suas festas; ela neste período traz tudo o que deve excitar a fé de seus filhos a encorajá-los em realizar o árduo trabalho de expiar os pecados. Durante a septuagésima, nós temos o número setenta, que nos remete aos setenta anos de cativeiro do povo hebreu na Babilônia, após o que Deus escolheu pessoas, purificadas da idolatria, que retornaram a Jerusalém para celebrar a páscoa. Já o número quarenta que a Igreja nos mostra com a Quaresma é um número, como São Jerônimo observa, que denota punição e aflição.

Lembremos dos quarenta dias e quarenta noites do dilúvio enviado por Deus e Sua Ira, quando Ele se arrependeu de ter feito o homem, e destruiu a raça humana com a exceção de uma família (Gen VII, 12). Vamos considerar como o povo hebreu, na punição por sua ingratidão, passou quarenta anos no deserto, antes de terem a permissão de entrar na terra prometida (Num XIV, 33). Vamos ouvir nosso Deus comandando o profeta Ezequiel a deitar-se durante quarenta dias no seu lado direito, como uma figura do cerco que traria destruição a Jerusalém (Ez IV, 6).

Há, ainda, duas pessoas no antigo testamento que representam duas manifestações de Deus: Moisés, que tipifica a Lei; e Elias, que é a figura dos profetas. A ambos foi permitido se aproximarem de Deus: o primeiro no Sinai, o segundo no Horeb; mas os dois tiveram que se preparar para o grande favor por meio de um jejum expiatório de quarenta dias.

Com estes mistérios, nós podemos entender porque o Filho de Deus, tornado Homem para nossa salvação e desejando submeter-se a si mesmo a dor do jejum, escolheu o número de quarenta dias. A instituição da quaresma é, portanto, vinda antes de nós com tudo o que imprime na mente este caráter solene, com um poder de apaziguar Deus e purificar nossas almas. Vamos, agora, olhar ao redor do pequeno mundo que nos rodeia, e ver como todo universo cristão está, neste exato momento, oferecendo estes quarenta dias de penitência como sacrifício de propiciação pelas ofensas cometidas contra a Majestade de Deus; e vamos esperar que, como no caso dos ninivitas, Ele tenha misericórdia e aceite a oferenda deste ano para nossa expiação, e perdoe nossos pecados.

A Igreja considera seus filhos como um grande exército, lutando dia e noite contra os inimigos espirituais. Nós lembramos como, na Quarta-Feira de Cinzas, a Igreja chama a Quaresma: Guerra Cristã. Para que tenhamos a novidade da vida, que nos fará dignos de cantar mais uma vez o nosso Alleluia, nós devemos dominar nossos três inimigos: o demônio, a carne e o mundo. Nós somos companheiros combatentes junto a Jesus Cristo, por Ele, também, nos submetemos à tripla tentação, sugerida a Ele por Satanás. Sendo assim, devemos nos equipar com armaduras, e vigiar incessantemente.

A Igreja também guiará nossas mentes a pensamentos de mais profunda importância, por meio de três grandes temas, que ela gradualmente nos revelará entre o início da quaresma e a grande solenidade pascal. Sejamos atentos a essas lições comoventes e instrutivas.

Primeiramente, há uma conspiração dos Judeus contra nosso Redentor. Será trazido diante de nós toda a sua história, desde a sua primeira formação até a consumação final na sexta-feira da paixão, quando veremos o Filho de Deus pendurado no madeiro da cruz. O infame funcionamento da sinagoga será trazido diante de nós tão regularmente, que seremos capazes de seguir a trama em todos os seus detalhes. Seremos inflamados de amor pela augusta Vítima, cuja mansidão, sabedoria e dignidade indicam um Deus. O drama divino, que começou na gruta de Belém, é terminado no Calvário; podemos ajudá-lo, meditando nas passagens do Evangelho lidas para nós pela Igreja durante estes dias da Quaresma.

O segundo dos assuntos oferecidos a nós, para nossa instrução, requer que nos lembremos de como a festa da Páscoa é o dia do novo nascimento para nossos catecúmenos, e como, nas primeiras eras da Igreja, a Quaresma foi a preparação imediata e solene dada aos candidatos ao Batismo. A sagrada liturgia tradicional reafirma grande parte da instrução que a Igreja costumava dar aos catecúmenos; e quando ouvimos suas magníficas lições, tanto do antigo quanto do novo testamento, em que ela completou sua iniciação, devemos pensar com gratidão de como não fomos obrigados a esperar anos antes de nos tornarmos filhos de Deus, mas fomos misericordiosamente admitidos pelo Batismo mesmo em nossa infância. Nós somos levados a orar por aqueles novos catecúmenos, que neste mesmo ano, em países muito distantes, estão recebendo instruções de seus zelosos missionários, e estão ansiosos, como fizeram os postulantes da igreja primitiva, para aquela grande festa da vitória do nosso Salvador sobre a morte, quando eles devem ser purificados nas águas do batismo.

Terceiro, nós devemos relembrar como, formalmente, os penitentes públicos, que foram separados na Quarta-Feira de Cinzas da assembleia de fiéis, foram objeto da solicitude materna da Igreja durante os quarenta dias da Quaresma, e deveriam ser admitidos à reconciliação na Quinta-feira Santa, se seu arrependimento fosse digno desse perdão público. Teremos o admirável curso de instruções, que foram originalmente concebidas para esses penitentes, e que a liturgia, fiel como sempre é a tais tradições, ainda mantém por nossa causa. Ao lermos essas sublimes passagens da Escritura, naturalmente pensaremos sobre nossos próprios pecados e em que termos fáceis nos perdoaram; enquanto que, se tivéssemos vivido em outros tempos, provavelmente teríamos passado pela provação de uma penitência pública e severa. Isso nos estimulará ao fervor, pois lembraremos que, quaisquer que sejam as mudanças que a indulgência da Igreja possa levá-la a fazer em sua disciplina, a justiça de nosso Deus é sempre a mesma. Encontraremos em tudo isso um motivo adicional para oferecer a Sua divina Majestade o sacrifício de um coração contrito, e passaremos por penitências com aquela ânsia alegre, que a convicção de nossos mais severos sempre traz consigo.

 

Nosso Senhor Jesus Cristo no Deserto

Tendo passado as três semanas da Septuagesima meditando sobre nossas enfermidades espirituais e sobre as feridas causadas em nós pelo pecado, devemos estar prontos para entrar na estação penitencial que a Igreja já começou. Temos agora um conhecimento mais claro da justiça e santidade de Deus e dos perigos que aguardam uma alma impenitente; e, para que nosso arrependimento seja sincero e duradouro, nos despedimos das alegrias e regozijos do mundo. Nosso orgulho foi humilhado pela profecia, que esses corpos logo seriam como as cinzas que escreveram a lembrança da morte em nossas testas.

Durante estes quarenta dias de penitência, que parecem tão longos para nossa pobre natureza, não seremos privados da companhia de nosso Jesus. Ele parecia ter se retirado de nós durante a semana da Septuagesima, quando tudo nos falou de suas maldições sobre o homem pecador, mas essa ausência nos fez bem. Ensinou-nos a tremer com a voz da ira de Deus. ‘O temor do Senhor é o começo da sabedoria’ (Ps cx, 10); descobrimos que é assim: o espírito da penitência está agora ativo dentro de nós, porque tememos.

E agora, vamos olhar para o objeto divino que está diante de nós. É o nosso Emmanuel; o mesmo Jesus, mas não sob a forma do doce Menino que adoramos no berço. Ele cresceu até a plenitude da idade humana e ostenta a aparência de um pecador, tremendo e humilhando-se perante a soberana majestade de Seu Pai, a quem ofendemos, e a quem agora se oferece como vítima da propiciação. Ele nos ama com o amor de um irmão; e vendo que a estação para fazer a penitência começou, Ele vem para nos alegrar por Sua presença e Seu próprio exemplo. Nós vamos passar quarenta dias em jejum e abstinência: Jesus, que é a própria inocência, passa pela mesma penitência. Nós nos separamos, por um tempo, dos prazeres e vaidades do mundo: Jesus se retira da companhia e visão dos homens. Pretendemos tomar parte nos serviços divinos mais assiduamente e orar com mais fervor do que em outras ocasiões: Jesus passa quarenta dias e quarenta noites orando, como o mais humilde suplicante; e tudo isso por nós. Vamos pensar sobre nossos pecados passados ​​e lamentá-los em pesar amargo: Jesus sofre por esse pecados e chora por eles no silêncio do deserto, como se Ele mesmo os houvesse cometido.

Assim que recebeu o batismo das mãos de São João, o Espírito Santo levou-o ao deserto. Chegara a hora de mostrar-se ao mundo; Ele começaria nos ensinando uma lição de imensa importância. Deixa o Santo Precursor e a multidão admirada, por ter visto o Divino Espírito descer sobre Ele, e ouviu a voz do Pai, proclamando-o como Seu amado Filho; Ele os deixa e vai para o deserto. Não muito longe do Jordão, há uma montanha acidentada, que recebeu, em épocas posteriores, o nome de Quarantana. De lá consegue avistar a planície fértil de Jericó, o Jordão e o Mar Morto. É dentro de uma caverna dessa rocha selvagem que o Filho de Deus entra agora, Seus únicos companheiros são os animais que escolheram o mesmo para seu próprio abrigo. Ele não tem comida para satisfazer as dores da fome; o caminho estéril não lhe permite beber; Sua única cama deve ser de pedra. Aqui ele deve passar quarenta dias; depois disso, Ele permitirá que os anjos o visitem e tragam a Ele comida.

Assim nosso Salvador vai adiante de nós no caminho sagrado da Quaresma. Ele suportou todas as suas fadigas e sofrimentos, para que nós, quando chamados a trilhar o caminho estreito de nossa penitência, pudéssemos ter Seu exemplo para silenciar as desculpas, sofismas e repugnâncias, do amor próprio e do orgulho. A lição é aqui claramente dada para não só ser entendida; a lei de fazer penitência pelo pecado é aqui mostrada com muita clareza, e não podemos alegar ignorância: aceitemos honestamente o ensinamento e o pratiquemos. Jesus deixa o deserto, onde passou os quarenta dias, e começa a sua pregação com estas palavras, que Ele dirige a todos os homens: ‘Façam penitência, porque o reino dos céus está próximo.’ (S. Mt IV, 17). Não endureçamos nossos corações a este convite, para que não se cumpra em nós a terrível ameaça contida naquelas outras palavras de nosso Redentor: ‘A menos que você faça penitência, você perecerá’ (S. Luc XIII, 3).

 

The Liturgical Year, Tomo V, D. Prosper Gueranger

traduzido e adaptado por um congregado mariano

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