Quarta-Feira de Cinzas

Ano Litúrgico, Tomo IV – D. Prosper Guéranger.
Tradução por um congregado mariano.

O mundo estava ontem ocupado em seus prazeres, enquanto os verdadeiros filhos de Deus tomavam uma alegre despedida dos regozijos: mas nesta manhã tudo muda. O solene anúncio feito pelo profeta foi proclamado em Sião 1: o solene jejum da quaresma, um tempo de expiação, a aproximação do grande aniversário de Nosso Redentor. Animemo-nos, pois, e nos preparemos para o combate espiritual.

Mas neste combate do espírito contra a carne precisamos de uma boa couraça. A Santa Igreja sabe o quanto precisamos disto; e por isso ela nos convoca a entrar ao templo de Nosso Senhor, para que ela possa nos armar para este santo embate. O que esta couraça é, o sabemos de São Paulo, que a descreve: “Estai, pois, firmes, tendo cingido os vossos rins com a verdade, vestindo a couraça da justiça, tendo os pés calçados de zelo para ir anunciar o Evangelho da paz; sobretudo tomai o escudo da fé, com que possais apagar todos os dardos inflamados do (espirito) maligno; tomai também o elmo da salvação e a espada do espírito, que é a palavra de Deus” 2. O próprio príncipe dos apóstolos também nos endereça estas palavras solenes: “Tendo, pois, Cristo sofrido (por nós) na carne, armai-vos também vós do mesmo pensamento: aquele que sofreu na carne, deixou de pecar” 3. Estamos entrando hoje em uma longa campanha de guerra sobre a qual os apóstolos nos falam: quarenta dias de batalha, quarenta dias de penitência. Não haveremos de retornar covardemente, uma vez que nossas almas sejam impressionadas com a convicção de que a batalha e a penitência haverão de passar. Demos ouvidos à eloquência do rito solene que abre a nossa quaresma. Deixemo-nos ir para onde nossa Santa Madre Igreja nos guia.

Os inimigos com os quais devemos lutar são de duas espécies: interno e externo. O primeiro são as nossas paixões; o segundo são os demônios. Ambos foram trazidos a nós pelo orgulho, e o orgulho do homem teve início no momento em que se recusou a obedecer a Deus. Deus perdoou os pecados do homem, mas o puniu. A punição era a morte, e esta foi a forma da sentença divina: “porque tu és pó, e em pó te hás de tornar” 4. Que nós nos lembremos disto! A lembrança do que nós somos e do que nos haveremos de tornar teria controlado esta altiva rebelião que tantas vezes nos fez romper com a lei de Deus. E se, pelo tempo que ainda nos resta, perseverarmos na fidelidade a Nosso Senhor, devemos nos humilhar, aceitar a sentença e olhar para a vida presente como um caminho para o túmulo. O caminho pode ser longo ou curto; mas haverá de nos levar ao túmulo. Lembrando-nos disto, haveremos de ver todas as coisas em sua verdadeira luz. Haveremos, pois, de amar Deus, que Se dignou de colocar Seu Coração sobre nós, apesar de sermos criaturas de morte: iremos odiar, com profunda contrição, a insolência e a ingratidão, por meio das quais passamos grande parte de nossos dias, isto é, pecando contra nosso Pai Eterno: e nós não apenas desejaremos, mas estaremos ansiosos a passar esses dias de penitência, que Nosso Senhor tão misericordiosamente nos dá para repararmos Sua justiça ultrajada.

Este foi o motivo pelo qual a Igreja teve em enriquecer sua liturgia com este rito solene, no qual tomaremos assistência nesta quarta. Quando, há mais de mil anos, a Igreja decretou a antecipação do início da quaresma para os últimos quatro dias da semana da Quinquagésima, ela instituiu esta cerimônia impressionante onde marca a fronte de seus filhos com cinzas, enquanto diz a eles estas terríveis palavras, com as quais Deus nos sentenciou à morte: “Lembra-te, homem, de que és pó, e em pó te hás de tornar”. Mas o uso de cinzas como um símbolo de humilhação e penitência é de um tempo muito anterior à instituição a qual aludimos. Encontramos referências frequentes disto no Antigo Testamento. Jó, apesar de gentio, aspergiu sua carne com cinzas, que, pois, humilhado, poderia propiciar a misericórdia divina 5: e isto ocorreu dois mil anos antes da vinda de Nosso Senhor. O profeta real (Sofonias), falando de si mesmo, relata que misturou cinzas com o seu pão, por conta da ira e indignação divina 6. Muitos exemplos similares se podem encontrar nas Sagradas Escrituras; mas é tão óbvia a analogia entre o pecador que assim demonstra sua contrição e o objeto através do qual ele o demonstra, que lemos tais casos sem surpresa. Quando um homem decaído se humilhasse diante da justiça divina, que sentenciou o seu corpo a retornar ao pó, como ele poderia mais apropriadamente expressar sua contrita aceitação da sentença do que aspergindo a si próprio ou à sua comida com cinzas de madeira consumida pelo fogo? Este fervoroso reconhecimento de si próprio como pós e cinzas é um ato de humildade e a humildade lhe dá confiança em Deus, que resiste aos orgulhosos e perdoa os humildes.

É provável que, quando a Igreja instituiu a cerimônia da quarta-feira na semana da Quinquagésima, ela não a tenha intencionado para todos os fiéis, mas apenas para aqueles que cometeram alguns daqueles crimes que a Igreja infligia penitência pública. Antes da Missa do dia iniciar, eles se apresentavam na Igreja onde todos os fiéis se encontravam. O sacerdote recebia a confissão de seus pecados e então lhes vestia com vestes de sacos e aspergia a cinza em suas cabeças. Após esta cerimônia, o clero e os fiéis prostravam-se e recitavam em voz alta os sete Salmos Penitenciais. Seguia, então, uma procissão na qual os penitentes tomavam parte descalços; e, por sua vez, o bispo endereçava estas palavras aos penitentes: “Olhai! Nós vos banimos das portas da Igreja em razão de vossos crimes e pecados, assim como Adão, o primeiro homem, foi banido do paraíso em razão de suas transgressões”. O clero, então, cantava diversos responsórios tirados do livro do Gênesis, nas partes em que se menciona a sentença pronunciada por Deus, quando condenou o homem a comer o pão do suor de seu trabalho, pois a terra estava condenada por causa do pecado. As portas eram, então, fechadas e os penitentes não tinham permissão de ultrapassar os limites até a Quinta-Feira Santa, quando podiam se aproximar e receber a absolvição.

Datando do século XI, a disciplina de penitências públicas caiu em desuso, e o sagrado rito de impor as cinzas na cabeça dos fiéis indiscriminadamente se tornou tão comum que, por extensão, foi considerado como uma parte essencial da liturgia Romana. Antigamente era prática aproximar-se descalço para receber este solene ‘memento’ de nossa insignificância; e no século XII, até mesmo o Papa, ao passar da Igreja de Santa Anastácia para a Igreja de Santa Sabina, onde se fazia a cerimônia, percorria toda a distância descalço, assim como faziam os cardeais que o acompanhavam. A Igreja não mais exige essa penitência exterior; mas está tão ansiosa como nunca para que esta santa cerimônia, a qual estamos para tomar assistência, produza em nós os sentimentos que ela intencionava, ao instituir esta cerimônia.

Bênção das Cinzas

A cerimônia tem início com a bênção das cinzas que serão impostas sobre nossas frontes. Estas cinzas são feitas dos ramos que foram abençoados no Domingo de Ramos do ano anterior.

Antífona

Exaudi nos, Domine, quoniam benigna est misericordia tua: secumdum multitudinem miserationum tuarum respice nos, Domine. Ps. Salvum me fac, Deus: quoniam intraverunt aquae usque ad animam meam. V. Gloria Patri. Exaudi nos.
Ouvi-nos, Senhor, porque é benigna a vossa misericórdia; segundo a multidão de vossas comiserações, olhai para nós, Senhor. Ps. Salvai-me, ó Deus, porque as águas da tribulação penetram até a minha alma. V. Gloria ao Pai. Ouvi-nos.

 

O sacerdote, de pé diante do altar, tendo as cinzas diante de si, suplica a Deus através das seguintes orações que Ele as faça instrumento de nossa santificação.

 

Omnipotens Sempiterne Deus, parce paenitentibus; propitiare supplicantibus: et mittere digneris sanctum Angelum tuum de caelis, qui benedicat, et sanctificet hos cineres, ut sint remedium salubre omnibus nomen sanctum tuum humiliter implorantibus, ac semetipsos pro conscientia delictorum suorum accusantibus, ante conspectum divinae clementiae tuae facinora sua deplorantibus, vel serenissimam pietatem tuam suppliciter obnixeque flagitantibus: et praesta, per invocationem sanctissimi nominis tui : ut quicumque per eos aspersi fuerint, pro redemptione peccatorum suorum, corporis sanitatem et animae tutelam percipiant. Per Christum Dominum nostrum. R. Amen.
Ó Deus onipotente e eterno, perdoai aos penitentes, sede propício para os suplicantes e dignai-Vos enviar do céu o vosso Anjo, que abençoe e santifique estas cinzas. Sejam elas remédio salutar para todos os que humildemente invocam o vosso santo Nome, e reconhecendo os seus delitos, a si mesmos se acusam, e deploram na presença de vossa divina clemência os seus crimes ou solicitam humilde e instantemente a vossa soberana misericórdia. Concedei, pela invocação do vosso santíssimo Nome, que todos os que forem aspergidos com estas cinzas além da remissão de seus pecados, recebam a saúde do corpo e a proteção da alma. Pelo Cristo, Nosso Senhor. R. Amém.

 

Deus, qui non mortem sed paenitentiam desideras peccatorum: fragilitatem conditionis humanae benignissime respice: et hos cineres, quos causa proferendae humilitatis, atque promerendae veniae, capitibus nostris imponi decernimus, benedicere pro tua pietate dignare: ut, qui nos cinerem esse, et ob pravitatis nostrae demeritum in pulverem reversuros cognoscimus, peccatorum omnium veniam, et praemia proenitentibus repromissa, misericorditer consequi mereamur. Per Christum Dominum nostrum. Amen.
Ó Deus, que não desejais a morte, mas sim a penitência dos pecadores, olhai benigníssimo para a fragilidade da natureza humana e dignai-Vos, por vossa piedade, abençoar estas cinzas que desejamos sejam impostas às nossas cabeças em sinal de nossa humildade e do perdão que esperamos. Fazei que, reconhecendo que somos cinza e que em pó nos tornaremos em punição de nossa maldade, mereçamos alcançar de vossa misericórdia o perdão de todos os nossos pecados e as recompensas prometidas aos que fazem penitência. Pelo Cristo, Nosso Senhor. Amém.

 

Deus qui humiliatione flecteris et satisfactione placaris: aurem tuae pietatis inclina precibus nostris: et capitibus servorum tuorum, horum cinerum aspersione contactis, effunde propitius gratiam tuae benedictionis: ut eos et spiritu compunctionis repleas, et quae juste postulaverint, efficaciter tribuas; et concessa perpetuo stabilita et intacta manere decernas. Per Christum Dominum nostrum. R. Amen.
Ó Deus, que Vos deixais abrandar pela humildade, e pela reparação Vos aplacais, inclinai os ouvidos de vossa misericórdia às nossas preces, e sobre as cabeças de vossos servos aspergidas com estas cinzas, derramai, propício a graça de vossa bênção. Dai-lhes o espírito de compunção, concedei-lhes eficazmente o que justamente pedirem, e conservai-lhes perpetuamente estável e intacto o que de vossa mão receberam. Pelo Cristo, Nosso Senhor. R. Amém.

 

Omnipotens sempiterne Deus, qui Ninivitis, in cinere et cilicio paenitentibus, indulgentiae tuae remedia praestitisti: concede propitius, ut sic eos imitemur habitu, quatenus veniae prosequamur obtentu. Per Dominum. R. Amen.
Ó Deus onipotente e eterno, que concedestes o remédio de vossa indulgência aos Ninivitas, que fizeram penitência sob a cinza e o cilício, concedei-nos, benigno, que de tal sorte os imitemos que como eles obtenhamos também o vosso perdão. Por Nosso Senhor. R. Amém.

 

Tendo dito a última destas orações, o sacerdote asperge as cinzas com água benta e as incensa. O primeiro dos sacerdotes presentes impõe as cinzas sobre a cabeça do sacerdote. Então os demais ministros do altar, clero e acólitos recebem as cinzas do celebrante, que finalmente as impõe sobre os fiéis, dizendo:

 

Memento homo, quia pulvis es,
et in pulverem reverteris.
Lembra-te, ó homem, que és pó,
e em pó te hás de tornar.

 

Quando o sacerdote impuser o santo emblema de penitência sobre tua cabeça, aceita em espírito de submissão a sentença de morte com a qual o próprio Deus pronuncia contra ti: ‘Lembra-te, ó homem, que és pó, e em pó te hás de tornar!’. Humilha-te e lembra-te daquilo que trouxe a punição da morte ao mundo: o homem queria ser como Deus e preferiu sua própria vontade à de seu soberano Senhor. Reflita também na longa lista de pecados que adicionaste aos pecados de teus primeiros pais, e adore a misericórdia de Deus, que pede apenas uma morte por todas as tuas transgressões.

Terminada a imposição das cinzas sobre os fiéis, o sacerdote recita a seguinte oração:

Concede nobis, Domine, praesidia militiae christianae sanctis inchoare jejuniis: ut contra spirituales nequitias pugnaturi, continentiae muniamur auxiliis. Per Christum Dominum nostrum. R. Amen.
Permiti, Senhor, que iniciemos com santos jejuns o combate da milícia cristã, a fim de que, tendo que lutar contra os espíritos do mal, sejamos munidos dos auxílios da abstinência. Pelo Cristo, Nosso Senhor. Amém.

 

Em seguida, o sacerdote se paramenta para dar início à Santa Missa, que tem as orações ao pé do altar suprimidas, iniciando diretamente do Introito.

 


 

  1. ver epístola da Missa do dia
  2. Ef.VI. 14-17
  3. São Pedro, IV. 1
  4. Gen. III. 19
  5. Jó. XVI. 16
  6. Ps. CI. 10, 11
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