A Penitência quaresmal

A penitência consiste na contrição da alma e mortificação do corpo. A alma deseja o pecado e o corpo frequentemente coopera para isso. Além do que, o homem sendo composto de alma e corpo, deve ele inteiramente prestar homenagem ao seu Criador. O corpo deverá compartilhar com a alma as delícias do céu ou os tormentos do inferno; não pode haver, portanto, qualquer vida cristã completa, ou qualquer penitência séria, onde o corpo não tome parte em conjunto com a alma.

Mas é a alma que dá realidade à penitência. O Evangelho ensina isso pelos exemplos que nos apresenta do filho pródigo, de Madalena, de Zaqueu e de São Pedro. A alma, então, deve resolver desistir de todo pecado, deve sofrer de todo coração por todos que cometeu; ela deve odiar o pecado e evitar as suas ocasiões. As Sagradas Escrituras têm uma palavra para essa disposição interior, que foi adotada pelo mundo cristão e que admiravelmente expressa o estado da alma que se afastou de seus pecados: Conversão. O cristão deve, portanto, durante a Quaresma, estudar para se levar a esse arrependimento de coração, e considerá-lo como o fundamento essencial de todos os seus exercícios quaresmais. No entanto, ele deve lembrar que essa penitência espiritual seria uma mera ilusão, se não praticar a mortificação do corpo. Estudemos o exemplo dado por nosso Salvador, que de fato sofre e chora por nossos pecados; mas também os expia por seus sofrimentos corporais. Por isso é que a Igreja, a intérprete infalível da vontade do seu divino Mestre, nos diz que o arrependimento do nosso coração não será aceito por Deus, a menos que seja acompanhado de jejum e abstinência.

Quão grande, então, é a ilusão daqueles cristãos, que esquecem seus pecados passados, ou se comparam a outros cujas vidas consideram ter sido piores que as deles; e assim, satisfeitos consigo mesmos, não podem ver mal ou perigo na vida fácil que pretendem passar pelo resto de seus dias! Eles lhe dirão que não pode haver necessidade de pensar em seus pecados passados, pois fizeram uma boa confissão! Não é a vida que eles levaram desde então uma prova suficiente de sua sólida piedade? E por que alguém deveria falar a eles sobre a justiça de Deus e a mortificação? Consequentemente, assim que a Quaresma se aproxima, eles devem receber todo tipo de dispensação. A abstinência é um inconveniente; o jejum tem um efeito sobre sua saúde, interferiria em suas ocupações, é uma mudança do modo de vida comum; além disso, há tantas pessoas que são melhores que elas mesmas e, no entanto, nunca jejuam ou se abstêm. E, como a ideia nunca entra em suas mentes de suprir as penitências prescritas pela Igreja por outros exercícios penitenciais, pessoas como estas gradualmente vão perdendo o espírito cristão.

A verdade é que é preciso aceitar que nós somos pecadores e por isso a justiça divina requer que cada um de nós recompense a Deus a honra que negamos dEle quando pecamos, porque usamos mal nossos bens, almas e corpos. Assim, tanto a lei natural quanto a lei divina nos levam a realizar atos de penitência, já que qualquer ato que exprima um sofrimento por Nosso Senhor é útil para que obtenhamos maior controle sobre a nossa natureza ferida. Nós devemos nos abster de prazeres legítimos para que obriguemos o corpo e as paixões a obedecerem a direção da alma.

Para isso, a Igreja, conhecendo nossa fraqueza, rege esta matéria por meio de leis eclesiásticas, a fim de que saibamos como e em que momentos realizamos as obras de penitência.

 

Regras quaresmais de jejum e abstinência

A regra atual da Igreja sobre os dias de penitência1 elucida a tradicional prática de abstinência de carne às sextas-feiras de todo o ano, abrindo-se a possibilidade de substituição por alguma obra de caridade ou ato de piedade, conforme decisão da Conferência episcopal. Aponta-se ainda tanto a obrigatoriedade do jejum quanto da abstinência na quarta-feira de cinzas e sexta-feira da Paixão.

Obrigam-se atualmente à lei da abstinência aqueles que completarem 14 anos de idade e à lei do jejum os que forem maiores de idade até o início dos sessenta anos.

Pela lei da abstinência proíbe-se comer carne de animais de sangue quente, como aves, suínos ou bovinos, ou seus caldos, não se aplicando a regra aos produtos derivados como ovos, condimentos ou gordura animal. Já a lei do jejum permite apenas uma refeição completa por dia e duas refeições menores, a quais não devem ser iguais à quantidade da refeição principal. Não se permite ainda comer entre as refeições, a não ser líquidos, como leite e sucos de frutas. Nestes dias, são permitidos peixes ou outros animais de sangue frio, como frutos de mar.

Nas antigas regras eclesiáticas2, inspiradas desde o Concílio de Trento, a abstinência era obrigatória em todas as sextas-feiras do ano, exceto quando sobre elas recaíam dias santos de preceito. Além disso, o jejum deveria ser observado em todos os dias da quaresma, a não ser nos domingos.

O Jejum e abstinência eram praticados, além da Quarta-Feira de Cinzas e Sexta Feira Santa, em todas as sextas-feiras e sábados da quaresma, bem como nos dias das Quatro têmporas e em algumas vigílias3.

Tais regras tradicionais não nos obrigam mais sob pena de pecado, mas são caminhos salutares que por muito tempo foram incentivados pela Igreja como meios eficazes para bem exercer a penitência de mortificação corporal durante a Quaresma, a exemplo da vida de muitos Santos.

 

A oração e a esmola

A corajosa observância do preceito da Igreja de jejuar e abster-se durante a Quaresma deve ser acompanhada ainda por duas outras obras eminentemente boas, às quais Deus tão frequentemente nos incita na Escritura: oração e esmola. Assim como sob o termo ‘jejum’ a Igreja compreende todos os tipos de mortificação; assim, sob a palavra ‘oração’, ela inclui todos os exercícios de piedade pelos quais a alma mantém relações com o seu Deus. Frequência maior nos serviços da Igreja, assistência diária na missa, leitura espiritual, meditação sobre as verdades eternas e a paixão, sermões bem escutados e, sobretudo, aproximação dos sacramentos da penitência e da santa Eucaristia – estes são os principais meios pelos quais os fiéis devem oferecer a Deus a homenagem da oração, durante esta época santa.

Outras práticas de oração eficazes para este tempo penitencial são a meditação das dores de Nossa Senhora, a Via Sacra, a oração da Hora Santa em visita ao Santíssimo Sacramento, além da meditação da Paixão e Morte de Nosso Senhor Jesus Cristo.

A esmola consiste em todas as obras de misericórdia realizadas em prol do nosso próximo e são unanimemente recomendadas pelos santos doutores da Igreja, como sendo o complemento necessário do jejum e a oração durante a Quaresma. Deus fez dela uma lei à qual Ele graciosamente se comprometeu recompensar, quando a caridade é mostrada aos nossos semelhantes com a intenção de agradar nosso Criador. Quão vivamente isto traz diante de nós a confiança e a santidade do laço que Ele teria que criar entre todos os homens! Tal é, de fato, sua necessidade, que nosso Pai celestial não aceite o amor de qualquer coração que se recuse a mostrar misericórdia; mas, por outro lado, Ele aceita como genuíno e feito para si a caridade de todo cristão que, por uma obra de misericórdia mostrada a um companheiro, está realmente reconhecendo e honrando aquela união sublime que faz todos os homens serem uma única família com Deus como seu Pai. Por isso, as esmolas, feitas com essa intenção, não são meramente atos de bondade humana, mas são elevadas à dignidade de atos de religião, que têm Deus como objeto direto, tendo o poder de apaziguar Sua justiça divina.

Lembremo-nos do conselho dado pelo Arcanjo Rafael a Tobias. Ele estava prestes a se despedir daquela sagrada família e retornar ao céu; e estas foram as suas palavras: “A oração é boa com jejum e esmolas, mais do que acumular tesouros de ouro; porque a esmola livra da morte, e a mesma purifica os pecados, e faz achar misericórdia e vida eterna.” (Tob XII, 8-9). Igualmente forte é a recomendação dada a esta virtude pelo Livro de Eclesiástico: “A água apaga o fogo flamejante e a esmola resiste aos pecados” (Eclo III, 33). E novamente: “Cale a esmola no coração dos pobres, e ela obterá ajuda para você contra todo o mal” (Eclo XXIX, 15). O cristão deve manter essas promessas consoladoras sempre diante de sua mente, e mais especialmente durante o tempo da Quaresma.

Há um significado a mais pelo qual nós permanecemos seguros das grandes graças da Quaresma; é senão, por fim, o espírito de retiro e separação do mundo. Nossa vida comum, tal como é durante o resto do ano, deve ser toda direcionada a prestar tributo ao santo tempo da penitência; caso contrário, a impressão salutar produzida em nós pela sagrada cerimônia da quarta-feira de cinzas será apagada em breve. O cristão deve, portanto, proibir-se, durante a Quaresma, de todos os fúteis divertimentos, entretenimentos e festas do mundo em que vive. O mundo (queremos dizer a parte dele que é cristã) jogou todas essas indicações externas de luto e penitência, que lemos como sendo tão religiosamente observadas nas idades da fé; isto passou; mas há uma coisa que nunca pode mudar: A Justiça de Deus, e a obrigação do homem de apaziguar esta justiça. O mundo pode se rebelar o quanto quiser contra a sentença, mas ela é irrevogável: “A menos que você faça penitência, você perecerá” (S. Luc XIII, 3). Esta é a palavra de Deus. Aqueles, também, que ouvem esta palavra, não devem esquecer as advertências dadas por nosso divino Salvador, no Evangelho lido para nós no Domingo da Sexagésima. Ele nos contou como algumas das sementes são pisadas pelos transeuntes, ou devoradas pelas aves do ar; como algumas caem em solo rochoso e ressecam; e como, mais uma vez, algumas estão sufocadas por espinhos. Sejamos sábios e não poupemos esforços para nos tornarmos aquele bom terreno, que não apenas recebe a semente divina, mas produz cem vezes a colheita da Páscoa que está à mão.

Boa parte do texto extraído de The Liturgical Year, Tomo V, D. Prosper Gueranger

traduzido e adaptado por um congregado mariano

  1. Código de Direito Canônico de 1983, Cânones 1249 – 1253
  2. Código de Direito Canônico de 1917, Cânones 1250-1254
  3. Vigília de Pentecostes, da Assunção da Mãe de Deus ao Céu, de Todos os Santos e da Natividade do Senhor
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