O Sagrado Coração de Jesus: Modelo e Fonte de Caridade

 

O Sagrado Coração de Jesus é o modelo mais perfeito do amor para com Deus e do amor para com o próximo;

é o modelo de todas as virtudes visto a caridade as conter e aperfeiçoar todas. E como, durante a sua

vida mortal, Jesus mereceu para nós a graça de imitarmos as suas virtudes, é também a causa

meritória, a fonte das graças que nos permitem amar a Deus e a nossos irmãos

e praticar todas as outras virtudes.

 

Observações preliminares

Para concluir o que dissemos acerca da caridade, nada melhor podemos fazer que convidar os leitores a buscar no Sagrado Coração de Jesus a fonte e o modelo da caridade perfeita: nas Ladainhas aprovadas oficialmente pela Igreja invocamo-lo, efetivamente, como fornalha ardente de caridade, plenitude de bondade e amor.

Há, com efeito, na devoção ao Sagrado Coração de Jesus dois elementos essenciais: um elemento sensível, o Coração de carne, hipostaticamente unido à Pessoa do Verbo; um elemento espiritual, simbolizado pelo Coração material, que não é senão o amor do Verbo Encarnado para com Deus e para com os homens. Estes dois elementos não fazem mais que um, como não fazem mais que um, o sinal e a coisa significada. Ora, o amor significado pelo Coração de Jesus é sem dúvida o amor humano, mas realmente também o amor divino, já que em Jesus as operações divinas e humanas andam unidas e indissolúveis. É o seu amor para com os homens: ”Eis aqui o Coração que tanto amou os homens”; mas é também o seu amor para com Deus, porque, já o mostramos, a caridade para com os homens deriva da caridade para com Deus e tira dela o seu motivo verdadeiro.

O Coração de Jesus fonte e modelo de amor para com Deus.

O amor é o dom total de si mesmo; ora, sendo assim, quão perfeito não é o amor de Jesus para com seu Pai! Desde o primeiro instante da Encarnação oferece-se e dá-se como vítima, para reparar a glória de Deus, ultrajado por nossos pecados.

No seu nascimento, como no dia da apresentação no Templo, renova esta oblação. Durante a vida oculta, testemunha o seu amor para com Deus, obedecendo a Maria e a José, em quem vê os representantes da autoridade divina: e quem nos dirá que os atos de puro amor que da pequenina casa de Nazaré se elevavam incessantemente para a adorável Trindade? No decurso da sua vida pública, não busca mais que o beneplácito e a glória de seu Pai; na última Ceia, pode-se dar a si mesmo testemunho de que glorificou a seu Pai durante a vida inteira; e no dia seguinte, levava o dom de si mesmo até à imolação do Calvário. Mas quem poderia sobretudo exprimir a perfeição deste amor? É, diz S. João Eudes, um amor digno de tal Pai e de tal Filho; é um amor que iguala perfeitissimamente as perfeições inefáveis do seu objeto tão amado; é um Filho infinitamente amante que ama a um Pai infinitamente amável, é um Deus que ama a um Deus… Numa palavra, o divino Coração de Jesus, considerado segundo a sua divindade ou segundo a sua humanidade, é infinitamente mais abrasado de amor para com seu Pai e ama-O infinitamente mais a cada momento que todos os corações dos Anjos e dos Santos juntamente O podem amar por toda a eternidade.

Ora, este amor nós o podemos fazer nosso, unindo-nos ao Sagrado Coração de Jesus e oferecendo-O ao Eterno Pai, dizendo com S. João Eudes: ‘’Ó meu Salvador, eu me entrego a Vós, para me unir ao amor eterno, imenso, e infinito que Vós tendes a Vosso Pai. Ó Pai adorável, eu Vos ofereço todo este amor eterno, imenso, infinito de Vosso Filho Jesus, como um amor que me pertence… Eu Vos amo como Vosso Filho Vos ama’’.

O Coração de Jesus fonte de amor para com os homens.

Dissemos, quanto Jesus os amou na terra; resta-nos explicar como não cessa de os amar no céu.

  1. Porque nos ama, é que nos santifica pelos sacramentos: são, efetivamente, diz S. João Eudes, ‘’outras tantas fontes inexauríveis de graça e santidade que tem sua origem no oceano imenso do Sagrado Coração de nosso Salvador; e todas as graças, que deles procedem, são outras tantas chamas desta divina fornalha’’.

Mas é sobretudo na Eucaristia que Ele nos dá a maior prova de amor.

  • Há vinte séculos que está conosco, noite e dia, como um pai que não quer deixar seus filhos, como um amigo que tem as suas delícias em estar com seus amigos, como um médico que se conserva constantemente à cabeceira dos seus doentes.
  • E está ali sempre ativo, adorando, louvando e glorificando a seu Pai por nós; dando-lhe perenemente graças por todos os bens que Ele não cessa de nos prodigalizar, amando-O por nós, oferecendo os seus méritos e satisfações para reparar nossos pecados e pedindo incessantemente novas graças para nós.
  • Não cessa de renovar sobre o altar o sacrifício do Calvário, e o faz um milhão de vezes por dia, em toda a parte onde há um sacerdote para consagrar e isto por amor para conosco, para aplicar a cada um de nós os frutos do seu sacrifício; e não contente de se imolar, dá-se todo inteiramente a cada alma que comunga para lhe comunicar as suas graças, as suas disposições e as suas virtudes.

Ora, este divino Coração deseja vivamente comunicar-nos os seus sentimentos de caridade: “O meu divino Coração, dizia Ele a Santa Margarida Maria, está tão apaixonado de amor para com os homens, e para contigo em particular, que não podendo mais conter em si mesmo as chamas de sua ardente caridade, é força que as difunda por teu meio e que se lhes manifeste a eles, para os enriquecer de seus preciosos tesouros 1”. E foi então que Jesus lhe pediu o coração para o unir ao Seu e pôr nele uma centelha do seu amor. O que fez de modo maravilhoso para a Santa, faz-se para nós de modo ordinário na sagrada comunhão e cada vez que unimos o nosso coração ao Seu; porque Ele veio à terra trazer fogo sagrado da caridade e nada tanto deseja como ateá-lo em nossos corações: ‘’ignem veni mittere in terram, et quid volo nisi ut accendatur? 2’’.

O Coração de Jesus fonte e modelo de todas as virtudes.

Muitas vezes na S. Escritura o coração designa todos os sentimentos internos do homem, por oposição a seus atos externos: ‘’O homem não vê senão o que se manifesta no exterior, Deus, porém, vê o coração”: ‘’Homo videt ea quae parente, Deus autem intuetur cor 3’’. Por via de consequência, simboliza o Coração de Jesus não somente o amor, mas todos os sentimentos internos da sua alma. Foi sem dúvida assim que os grandes místicos da Idade Média e, após eles, S. João Eudes encararam a devoção ao Sagrado Coração de Jesus. O mesmo se diga de Santa Margarida Maria Alacoque. É indubitável que a Santa insiste principalmente, e com razão, no amor de que está cheio este divino Coração; mas nos seus diversos escritos mostra-nos este Coração como o modelo de todas as virtudes; e o P. de la Colombiére, seu confessor e intérprete, resume o seu pensamento num ato de consagração que se encontra ao fim do seu livro Retraites spirituelles.

‘’Este oferecimento faz-se para honrar este divino Coração, sede de todas as virtudes, manancial de todas as bênçãos e refúgio de todas as almas santas. As principais virtudes que nele se pretendem honrar são: em primeiro lugar, um amor ardentíssimo para com Deus seu Pai, juntamente com um profundíssimo respeito e a maior humildade que jamais existiu; em segundo lugar, uma paciência infinita nos males, uma dor extrema dos pecados cujo peso carregara sobre Si mesmo, a confiança dum filho terníssimo aliada com a confusão dum grandíssimo pecado; em terceiro lugar, uma compaixão, sobremaneira sensível, das nossas misérias e, apesar de todos estes movimentos, uma igualdade inalterável, causada por uma conformidade tão perfeita com a vontade de Deus que não podia ser perturbada por nenhum acontecimento’’.

De mais a mais, como todas as virtudes derivam da caridade e nela encontram a sua última perfeição, sendo como é o Coração de Jesus fonte e modelo da divina caridade, também o é de todas as virtudes.

Conclusão.

Para que a devoção ao Sagrado Coração de Jesus produza estes felizes resultados, deve consistir em dois atos essenciais: amor e reparação.

1° O amor é o primeiro e principal destes deveres, segundo S. Margarida M. Alacoque e S. João Eudes.

Dando conta ao P. Croiset da segunda grande aparição, escreve S. Margarida: ‘’Ele me deu a conhecer que o grande desejo que tinha de ser amado pelos homens e de os retirar do caminho da perdição O havia levado a formar este desígnio de manifestar o Seu Coração aos homens, com todos os tesouros de amor, misericórdia, graça, santificação e salvação para que todos os que quisessem tribular-se e procurar-lhe toda a honra, glória e amor que estivessem em seu poder, Ele os enriquecesse com abundância e profusão destes divinos tesouros do Coração de Deus que deles é a fonte’’. E numa carta a sóror de la Barge, conclui assim ‘’Amemos, pois, esse único amor de nossas almas, já que Ele foi o primeiro a nos amar e nos ama ainda com tanto ardor que se inflama continuamente no Santíssimo Sacramento. Não é necessário mais que amá-lo, este Santo dos Santos, para se fazer santa uma alma. Quem nos impedirá, pois, de o ser, já que temos corações para amar e corpos para sofrer?… Não há senão o seu puro amor que nos leve a fazer tudo o que lhe agrada; não há senão este perfeito amor que nos leve a fazê-lo do modo que lhe agrada; e não pode haver senão este amor perfeito que nos leve a fazer todas as coisas, quando lhe agrada’’.

2° Mas o segundo destes atos é a reparação; porque o amor é ultrajado pelas ingratidões dos homens, como o próprio Cristo Senhor Nosso declara na terceira grande aparição: ‘’Eis aqui este Coração que tanto tem amado os homens, que nada poupou até se esgotar e consumir para lhes testemunhar o seu amor; e, em troca, não recebo da maior parte deles senão ingratidões pelas suas irreverências e sacrilégios e pelas friezas e desprezos que tem para comigo neste sacramento de amor’’.

Estes dois atos nos santificarão em extremo: o amor, unindo-nos intimamente ao Sagrado Coração de Jesus, nos fará comungar nas suas virtudes e nos dará coragem de as praticar, a despeito de todos os obstáculos: a reparação, fazendo que nos compadeçamos dos sofrimentos de Jesus, estimulará ainda o nosso fervor e nos levará a padecer corajosamente por amor todas as provações, a que Ele se dignar associar-nos.

Assim entendida, a devoção ao Sagrado Coração de Jesus, não terá nada de afetado, nem de efeminado: será o próprio espírito do cristianismo, uma feliz combinação de amor e sacrifício, acompanhada do exercício progressivo das virtudes morais e teologais. Será uma como síntese da via iluminativa e uma feliz iniciação da via unitiva.

 

Cor Iesu Sacratissimum, miserere nobis!


Extraído e adaptado do Compêndio de Teologia Ascética e Mística de Adolphe Tanquerey.

  1. Primeira das grandes revelações, 1673.
  2. Lc XII, 49.
  3. I Sm XVI, 7
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