Salmos do Santíssimo Nome de Maria

Annuntiaverunt cœli nomen Mariae, et viderunt omnes populi gloriam ejus

Et nomen virginis Maria: E o nome da Virgem era Maria1. O nome da Virgem aguardada pelos patriarcas e anunciada pelos profetas, de quem haveria de vir o Messias Redentor da humanidade corrompida pelo pecado original, foi tornado conhecido no Evangelho de S. Lucas.

O nome de Maria é ornato de toda a Igreja, mais doce que o mel e terror dos demônios, diz Santo Afonso citando inúmeros bem-aventurados em sua obra Glórias de Maria. Explicando a oração Salve Rainha, S. Afonso trata particularmente do poder do nome da Virgem Santíssima e do grande auxílio que é aos pecadores que a ela recorrem, especialmente na hora da morte. Não sem razão S. Bernardo, com uma confiança inabalável em Nossa Senhora, energicamente aconselhava aos seus irmãos: respice stellam, voca Mariam! Olha para a estrela, invoca Maria! Nunca se aparte seu nome de teus lábios, de teu coração. Em todos os perigos de perder a graça divina pensemos em Maria, invoquemos o seu nome e o de Jesus, para que andem sempre unidos esses dois nomes. Nunca se apartem nem do nosso coração, nem da nossa boca, esses dois dulcíssimos e poderosíssimos nomes. Pois eles nos darão forças para não cairmos e para vencermos sempre todas as tentações. Este mesmo santo que, tomado de êxtase por amor a Maria Santíssima, dirigiu a Ela as palavras que ficaram eternizadas no Salve Rainha: O clemens, o pia, o dulcis Virgo Maria! O clemente, ó piedosa, ó doce Virgem Maria!

É esse nome tão rico de bênçãos que, depois do nome de Jesus, nem no céu, nem na terra outro se profere e do qual as almas devotas recebam tanta graça, tanta esperança, nem tanta doçura. Porque, continua ele, o nome de Maria contém em si uma virtude tão admirável, tão doce e tão divina, que deixa nos corações amigos de Deus um odor de santa suavidade. Sempre nele encontram novos encantos os servos de Maria, e essa é a coisa mais maravilhosa deste nome. Embora o pronunciem e ouçam pronunciar mil vezes, sempre saboreiam a mesma doçura2.

Os padres da Igreja meditaram e escreveram sobre o nome de Maria, do hebraico, Miryam. Sobre ele escreve S. Alberto Magno que significa amargura do mar: o mar, que costuma ser lembrado como símbolo de Nossa Senhora, pela sua imensidão de graças e virtudes. Sua vida foi um espelho da vida de Nosso Senhor, amarga, repleta de dores: O quam tristis et afflícta fuit illa benedícta, mater Unigéniti!3. Significa também Estrela do Mar, e sobre este título encontram-se mais abundantemente escritos dos santos.

A Batalha de Viena em 1683

A origem da festa do Santíssimo Nome de Maria lembra a origem da festa de Nossa Senhora do Rosário: assim como em Lepanto, os cristãos foram auxiliados pela Virgem Santíssima em uma grande vitória contra os muçulmanos na Batalha de Viena. No século XVII, o Império Otomano dominava todo o Oriente Médio e tentava ainda dominar a Europa. Tentaram por vias marítimas no século XVI, mas foram derrotados em Lepanto e tentavam agora por vias terrestres, avançando em direção à Áustria, após dominarem toda a Hungria e serem barrados na Polônia. Sob a liderança do sultão Mohammed IV, os turcos contavam com um exército estimado em 150.000 soldados, número muito superior às forças cristãs. O Imperador Leopoldo fugiu de Viena e os muçulmanos fizeram um duro cerco na cidade que durou de julho a setembro de 1683. A cidade, guarnecida apenas por 11.000 soldados e 5.000 voluntários, sofreu grande fome e fadiga sem qualquer auxílio externo.

O Imperador Leopoldo I suplicou auxílio ao rei da Polônia, João Sobieski, que já havia derrotado os turcos em seu reino e foi nomeado pelos próprios muçulmanos como Leão da Polônia. Sem hesitar, o rei polonês organizou suas tropas e seguiu para Viena. Durante o caminho, ao passarem por Czestochowa, João Sobieski, que era congregado mariano, parou com sua tropa dos famosos hussardos alados no santuário dedicado e Nossa Senhora e pediu auxílio àquela que muitas vezes já havia assistido aos cristãos, assim como fez a outro congregado mariano, D. João IV, na vitória de Lepanto. No início de setembro João Sobieski cruzou o rio Danúbio e encontrou-se com as tropas alemãs em um exército total de cerca de 76.000 soldados, quase metade do exército inimigo. No dia 11 se setembro as tropas católicas avançaram contra o cerco dos muçulmanos devastando-os e fazendo com que fugissem de Viena, salvando a cristandade de mais um assalto muçulmano. Sem dúvida a derrota de 11 de setembro de 1683 não ficou esquecida no imaginário maometano.

O Rei polonês João Sobieski, congregado mariano, envia a mensagem de vitória ao Papa Inocêncio XI

A vitória de um exército numericamente inferior aos inimigos foi atribuída à intercessão de Nossa Senhora e em comemoração, o Papa Inocêncio XI instituiu a festa do Santíssimo Nome de Maria e logo em seguida a data foi estendida a toda a Igreja no Calendário Romano. A data era inicialmente comemorada no domingo dentro da oitava da Natividade de Nossa Senhora (08 de setembro), depois das reformas de S. Pio X, a festividade passou a ter data fixa a 12 de setembro. Na reforma litúrgica promovida pelo Papa Paulo VI, a festividade foi excluída do calendário novo, embora restaurada em 2002.

Salmos do Santíssimo Nome de Maria

Uma antiga devoção em honra ao Santíssimo Nome de Maria são os Salmos do Nome de Maria. Esta devoção tem origem do século XII na Itália, Gália e região, foi tornada popular por S. Catarina de Bolonha no século XV. Baseia-se na recitação de cinco salmos, cujas iniciais formam o nome de Maria, intercalados por antífonas. A Igreja incentivou esta devoção com muitas indulgências, embora não se tenha registros sobre a validade atual delas.

V. Deus, in adjutorium meum intende
R. Domine, ad adiuvandum me festina

Gloria patri.

Ant. Mariae nomen.

V. Deus, vinde em meu auxílio.
R. Senhor, apressai-vos em me socorrer.

Gloria ao Pai.

Ant. O nome de Maria.

I

Magnificat anima mea Dominum,
Et exsultavit spiritus meus in Deo salutari meo;
Quia respexit humilitatem anciliae suae:
ecce enim ex hoc beatam me dicent omnes generationes.

Quia fecit mihi magna qui potens est; et sanctum nomen ejus.
Et misericordia ejus a progenie in progenies timentibus eum.

Fecit potentiam in Brachio suo:
dispersit superbos mente cordis sui.
Deposuit potentes de sede, et exaltavit humiles.
Esurientes implevit bonis, et divites dimisit inanes.

Suscepit Israel puerum suum, recordatus misericordiae suae
Sicut locutus est ad patres nostros, Abraham et semini ejus in saecula.

Gloria patri.

Ant. Mariae nomen cunctas illustrat ecclesias; cui fecit magna qui potens est, et sanctum nomen ejus.

A minha alma engrandece o Senhor. E o meu espírito exulta em Deus meu Salvador.
Porque lançou os olhos sobre a baixeza de sua serva; eis que, de hoje em diante, todas as gerações me chamarão bem-aventurada.

Porque fez em mim grandes coisas Aquele que é poderoso, e cujo nome é santo.
E cuja misericórdia se estende de geração em geração sobre aqueles que O temem.

Manifestou o poder do seu braço; dissipou aqueles que se orgulhavam nos pensamentos do seu coração.
Depôs do trono os poderosos, e exaltou os humildes.
Cumulou de bens os famintos, e despediu os ricos com as mãos vazias.

Tomou cuidado de Israel, seu servo, lembrado da sua misericórdia.
Conforme tinha dito a nossos pais, a Abraão, e à sua posteridade para sempre.

Glória.

Ant. O nome de Maria é ornato de toda a Igreja; a quem fez grandes coisas aquele é poderoso e cujo nome é santo.

II
Salmo 119

 

Ant. A solis ortu.

Ad Dominum, cum tribularer, clamavit; et exaudivit me.

Domine, libera animam meam a labiis iniquis, et a lingua dolosa.

Quid detur tibi, aut quid apponatur tibi ad linguam dolosam?

Sagittae potentis acutae, cum carbonibus desolatoriis.

Heu mihi, quia incolatus meus prolongatus est. Habitavi cum habitantibus Cedar; multum incola fuit anima mea.

Cum his qui oderunt pacem, eram pacificus; cum loquebar illis, impugnabant me gratis.

Gloria patri.

Ant. A solis ortu usque ad occasum laudabile nomen Domini et Mariae matris eius.

Ant. Desde a manhã.

Na minha tribulação, clamei ao Senhor, e ele ouviu-me.

Senhor, livra a minha alma dos lábios iníquos, e da língua enganadora.

Que te será dado, ou que fruto tirarás (das tuas calúnias), ó língua enganadora?

Setas agudas do poderoso, com carvões devoradores.

Infeliz de mim, o meu desterro prolongou-se; habitei com os moradores de Cedar.

Muito tempo andou peregrinando a minha alma (entre eles).

Com os que odiavam a paz eu era pacífico; quando lhes falava, contradiziam-me sem motivo.

Glória.

Ant. Desde a manhã até à noite seja louvado o nome do Senhor e de Maria, sua Mãe.

III
Salmo 118

 

Ant. Refugium est.

Retribue servo tuo, vivifica me: et custodiam sermones tuos.

Revela oculos meos, et considerabo mirabilia de lege lua.

Incola ego sum in terra: non abscondas a me mandata tua.

Concupivit anima mea desiderare justificationes tuas, in omni tempore.

Increpasti superbos: maledicti qui declinant a mandatis tuis.

Aufer a me opprobrium et contemptum, quia testimonia tua exquisivi.

Etenim sederunt principes, et adversum me loquebantur; Servus autem exercebatur in justificationibus tuis.

Nam et testimonia tua meditatio mea est, et consilium meum justificationes tuae.

Gloria patri.

Ant. Refugium est in tribulationibus Mariae nomen omnibus illud invocantibus.

Ant. Refúgio na tribulação.

Concede esta graça ao teu servo, dá-me vida, e eu guardarei as tuas palavras.

Tira o véu dos meus olhos, e eu considerarei as maravilhas da tua lei.

Eu sou peregrino na terra; não escondas de mim os teus mandamentos.

A minha alma desejou ansiosa em todo o tempo as tuas justas leis.

Ameaçaste os soberbos; malditos os que se afastam dos teus mandamentos.

Livra-me do opróbrio e do desprezo. porque busquei cuidadoso os teus mandamentos.

Até os príncipes se sentaram e falavam contra mim, o teu servo todavia meditava nas tuas determinações.

Porque os teus decretos são assunto da minha meditação, e as tuas justas leis são o meu conselho.

Gloria.

Antífona. Refúgio na tribulação é o nome de Maria a todos os que o invocam.

IV
Salmo 125

Ant. In universa terra.

In convertendo Dominus captivitatem Sion, facti sumus sicut consolati

Tunc repletum est gaudio os nostrum, et lingua nostra exsultatione.

Tunc dicent inter gentes: Magnificavit Dominus facere cum eis.

Magnificavit Dominus facere nobiscum, facti sumus laetantes.

Converte, Domine, captivitatem nostram; sicut torrens in austro.

Qui seminant in lacrimis, in exsultatione metent. Euntes ibant et flebant, mittentes semina sua

Venientes autem venient cum exsultatione, portantes manipulos suos.

Gloria patri.

Ant. In universa terra admirabile est nomen tuum, o Maria!

Ant. Em todo orbe.

Quando o Senhor fez voltar os cativos de Sião, nós ficamos cheios de consolação.

Então a nossa boca encheu-se (de cantos) de gozo, e a nossa língua de alegria.

Então se dirá entre as nações: Grandes coisas fez o Senhor em favor deles.

Grandes coisas fez o Senhor por nós; fomos cheios de júbilo.

Faze, Senhor, voltar os (restantes) nossos (irmãos) cativos, como as torrentes na terra do meio-dia.

Os que semeiam em lágrimas, com alegria ceifarão.

Iam e vinham chorando, enquanto lançavam as suas sementes.

Mas, quando voltarem, virão contentes, trazendo os seus feixes.

Glória.
Ant. Em todo o orbe é admirável o teu nome, ó Maria.

V
Salmo 122

Ant. Annuntiaverunt.

Ad te levavi oculos meos, qui habitas in cœlis.

Ecce sicut oculi servorum in manibus dominorum suorum, Sicut oculi ancillae in manibus dominae suae, ita oculi nostri ad Dominum Deum nostrum, donec misereatur nostri.

Miserere nostri, Domine; miserere nostri, quia multum repleti sumus despectione.

Quia multum repleta est anima nostra, opprobrium abundantibus et despectio superbis.

Gloria patri.

Ant. Annuntiaverunt cœli nomen Mariae, et viderunt omnes populi gloriam ejus.

Ant. Os céus anunciaram.

Levantei os meus olhos para ti (ó Deus), que habitas nos céus.

Vede que, assim como os olhos dos servos estão fixos nas mãos dos seus senhores, e como os olhos da escrava nas mãos de sua senhora, assim os nossos olhos estão fixos no Senhor nosso Deus, até que tenha misericórdia de nós

Tem misericórdia de nós, Senhor, tem misericórdia de nós, porque estamos saciados de desprezos;

Porque a nossa alma está cheia por demais de ser o objeto de escárnio para os ricos, e de desprezo para os soberbos.

Glória.
Ant. Os céus anunciaram o nome de Maria e todos os povos viram a sua glória.

V. Sit nomen Virginis Mariae benedictum.
R. Ex hoc nunc et usque in saeculum.

Oremus
Concede, quaesumus, omnipotens Deus, ut fideles tui, qui sub sanctissimae Virginis Mariae nomine et protectione laetantur, ejus pia intercessione a cunctis malis liberentur in terris, et ad gaudia aeterna pervenire mereantur in cœlis. Per Dominum nostrum Jesum Christum, etc.

V. Bendito seja o nome da Virgem Maria.
R. Desde agora e por todos os séculos.

Oremos
Nós vos rogamos, ó Deus onipotente, concedei a vossos fiéis que se alegram com o Nome e a proteção da Santíssima Virgem Maria, que, por sua piedosa intercessão, sejam livres de todos os males na Terra e mereçam chegar às alegrias eternas no Céu. Por Nosso Senhor Jesus Cristo. Amem.


Manuale piorum exercitiorum pro sacerdotibus. Paris, 1847

Este artigo foi produzido por um congregado da Seção da Boa Imprensa da Congregação Mariana da Imaculada Conceição e Santo Afonso de Ligório, Manaus, Amazonas. A reprodução deste conteúdo é livre, desde que se cite a fonte de origem. Para contato, envie-nos um e-mail

  1. Luc. I. 27
  2. S. Afonso Maria de Ligório. Glórias de Maria, p. 173.
  3. trecho do Stabat Mater
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