São João Berchmans e o Amor às Regras

São João Berchmans tendo às mãos o Rosário e junto ao peito a Regra da Companhia de Jesus.

Um religioso que mais parecia anjo, tal como São Luiz Gonzaga, São João Berchmans é um daqueles santos que a Companhia de Jesus teve a honra de dar à Igreja. Viveu mais o céu do que esta efêmera terra, buscando aproximar-se o máximo da perfeição cristã. Sua vida tornou-se exemplo tão radiante de pureza e amor a Deus, que ao florescer as virtudes, entregou-se completamente ao amor de Nosso Senhor.

Filho de Charles John Berchmans, homem de grave integridade e moral, além de sua esposa Elisabeth Vanden Hove, o casal era admirado por sua piedade na pequena cidade de Diest, nos confins da Bélgica, lugar que foi o berço de São João Berchmans, na famosa região de Flandres, no norte da Bélgica e na divisa com a Holanda.

Nascido no dia 13 de março de 1599, um sábado, dia que a Igreja tradicionalmente dedica a Nossa Senhora, foi batizado logo no dia seguinte ao seu nascimento, na paróquia de S. Suplício, tal a preocupação dos pais com a vida eterna.

Vide a educação cristã dada pelos pais piedosos, São João Berchmans era uma criança paciente e piedosa, rezava cerca de 5 terços diariamente diante da imagem de Nossa Senhora na Igreja de S. Suplício. Nesta mesma Igreja ele tinha o hábito de servir a 2 ou 3 Missas todos os dias antes das aulas, tal era sua devoção à Santa Missa que hoje é considerado padroeiro dos acólitos. Dizia para sua avó antes de ir para a escola:

“Oh, querida avó, eu tenho de servir minhas duas ou três Missas antes de ir para a aula. Qual lugar melhor que este poderia haver para se adquirir conhecimento rápida e seguramente?”

Vivia apenas para o fim último do homem, para encontrá-lo era necessário apenas deslocar-se à Igreja e lá estaria ele a rezar diante da Imagem de Nossa Senhora ou a visitar o Santíssimo Sacramento ao menos sete vezes por dia. A sua prática de visitar Nosso Senhor antes de se retirar para descanso acabou se tornando hábito dos futuros irmãos na Companhia de Jesus. Sua vocação nunca fora incerta: desde o princípio seu coração não desejava outro bem que não fosse servir Nosso Senhor no altar.

Mantinha especial devoção para seu anjo da guarda, a ponto de ter escrito sua famosa oração1:

Anjo santo de Deus querido, que por divina disposição me tomastes debaixo da vossa santa guarda desde o primeiro instante do meu ser e nunca cessastes de me defender, iluminar e reger: eu vos venero como padroeiro, amo-vos como guarda, submeto-me a vós, para ser por vós governado. Pelo amor de Jesus Cristo vos rogo e suplico que, ainda quando eu vos for ingrato ou rebelde às vossas inspirações, me não abandoneis, antes benignamente me reponhais em caminho direito, quando dele me desviar. Iluminai-me nas minhas dúvidas, nas quedas, levantai-me, fortalecei-me nos perigos, até me introduzirdes no Céu, a gozar convosco na eterna felicidade. Amém.

Quanto aos estudos, seus mestres falavam com orgulho do jovem prodígio: era diligente, firme, rapidamente já havia superado os jovens colegas. “Eu o via como uma espécie de pequeno milagre. Eu o elogiava diante dos demais alunos e o propunha como modelo para incentivá-los. Um dia, quando seu pai me perguntou como ele ia na escola, eu me lembro de ter dito: ‘Quão abençoado o senhor é por tê-lo como filho! Ele será sua consolação e minha honra e glória.’, dizia seu mestre Wouter Van Stiphout.

 

Estudos no Colégio Jesuíta de Mechlin e Admissão à Congregação Mariana

Continuando seus estudos avançados, São João Berchmans ingressou na escola jesuíta de Mechlin, ainda na região de Flandres, onde novamente obteve grande êxito nos estudos e destaque comparado com os colegas.

Tantas boas qualidades, que sua modéstia parecia querer esconder, atingia qualquer um com admiração, era contado entre os melhores alunos do colégio e dos mais piedosos. O mais breve possível conseguiu que fosse admitido na Congregação Mariana. O padre diretor da congregação com muito prazer admitiu esse pedido, uma vez que as virtudes do jovem aluno faziam jus para isto. A alegria de São João Berchmans teve ápice no dia em que foi admitido à Congregação Mariana, a pia associação da Virgem que ele desde a tenra idade desejava servir. Estava, então, maravilhado pelo fato de sua devoção à Virgem Santíssima poder ser tão religiosamente observada, especialmente em uma idade em que a corrupção tão facilmente se insinua, a pureza dos costumes deve ser mantida rigorosamente através da proteção e assistência da mais pura Virgem Mãe.

Comprometeu-se o máximo que pode nesta santa congregação, para seu próprio bem e para aumentar o número da corte da Rainha dos Anjos. Jejuava em sua honra aos sábados e nas vigílias de suas festas; recitava diariamente certas orações nesta mesma intenção; e ao início de cada mês consultava o padre diretor, superior da congregação mariana, para que lhe mostrasse as faltas e lhe corrigisse, dizendo quais penitências deveria fazer em honra da Virgem Santíssima e do santo do mês.

Percebia que sua vida fora criada apenas para a maior glória de Deus, por isso seguiu obstinado a realizar sua vocação na Companhia de Jesus, ainda que com certa resistência do pai, conseguiu enfim consentimento para iniciar a vida religiosa, ainda aos 17 anos de idade. O superior jesuíta logo lhe garantiu a admissão, que ele não tardou em honrar diligentemente. Foi admitido na Companhia de Jesus no dia 24 de Setembro de 1616, aos dezessete anos e seis meses de idade.

Qual não foi sua alegria ao entrar numa congregação religiosa onde havia tantos outros rapazes notáveis e com o mesmo zelo e amor pela causa de Deus? Tal é um dos maiores privilégios de adentrar as ordens religiosas e confrarias. A regra jesuíta e as práticas religiosas eram suas maiores consolações. Buscava cumprir seus deveres especialmente nas coisas menores, uma vez que não possível realizar grandes obras sem cumprir as mais simples. Sua grande máxima era: Maximi facere minima.

Sempre atento contra o orgulho interior, que frequentemente se esconde de forma equívoca, buscava constantemente se animar por um verdadeiro espírito de abnegação interior, pois ao humilhar-se diante dos homens, ele iria se humilhar ainda mais diante de si próprio e de Deus. Acusava a si próprio suas faltas para poder corrigir, para isso, usava o método tão indicado criado por Santo Inácio, que consiste em anotar as vezes em que se cai no defeito de maior predominância, sempre buscando evitar as ocasiões para as faltas. No decorrer das semanas, devia comparar os dias e verificar as melhoras ou corrigir os dias de maior fraqueza. Este método também sempre foi muito incentivado nas Congregações Marianas.

São João Berchmans desejava tão ardentemente corrigir-se, que chegou a pedir de seu superior que nomeasse quatro de seus companheiros para que lhe apontasse os defeitos. Certa vez um de seus companheiros notou um pequeno defeito e logo lhe comunicou. Não havia felicidade tão evidente ou gratitude mais sincera do que a do santo noviço. Agradeceu ao companheiro o ato de caridade e se entregou a Deus em oração pelo amigo que lhe havia admoestado o pequeno defeito.

Desde a infância já havia feito voto de castidade em honra à Virgem Puríssima, a quem era tão devotado, e também a São José, seu castíssimo esposo. Pedia especialmente em suas orações por três principais graças: a pureza angelical, a constância e fidelidade à sua vocação e a graça de se tornar um dia um digno membro da Companhia de Jesus.

Terminava seu dia diante do Santíssimo Sacramento e em atos de homenagem à Santa Mãe de Deus, a quem pedia pela virtude da pureza. Exercitava as virtudes relacionadas à pureza, lutando contra os defeitos contrários, como a ociosidade, o orgulho e a gula.

Ardente Amor pelas Regras de Santo Inácio

Foi, então, no dia 25 de Setembro de 1618 que ofereceu as chamas de sua caridade e seu sacrifício a Deus. Pronunciou os votos com ardor seráfico e imediatamente após proferir os votos recebeu Nosso Senhor no Santíssimo Sacramento, a Quem ele havia acabado de se entregar. Esta entrega mútua o encheu de uma indescritível alegria e afastou qualquer pensamento contrário. Esta foi a despedida de sua pátria, que deixou ao partir para Roma no dia 24 de Outubro de 1618.

O padre João Batista Cecotti, seu diretor espiritual, encantava-se todas as vezes que podia ouvir o jovem santo e poder conhecer mais da profundidade da pureza de sua alma. ‘Ele não se recorda de ter cometido deliberadamente o menor dos pecados veniais em toda a sua vida’, dizia o padre Cecotti.

Certa feita, ao ser questionado que graça havia pedido a Santo Inácio, respondeu São João Berchmans: ‘A graça de poder morrer na Companhia de Jesus, meu caro irmão, sem ter transgredido a menor de suas regras’. Estas amadas regras foram como que impressas em sua consciência. Tinha o livro sempre aberto em sua mesa de estudos e durante a noite o colocava debaixo do travesseiro, enquanto dormia tranquilamente tendo sua cabeça repousada sobre aquelas regras que, quando despertado, eram tão inexpressivelmente queridas em seu coração.

Sabe-se que os santos refletem de certa forma alguma característica de Deus, Nossa Senhora, por sua vez, refletia todas elas. São João Berchmans refletia, contudo, a pureza e a caridade para com aqueles que estavam sob as insídias da impureza. Ainda mais, refletia o amor de Deus no respeito às menores das regras e o seu amor por elas.

Sua vida em Roma, no Colégio Romano, foi não apenas de crescimento no conhecimento de Deus, das regras, na devoção à Bem-Aventurada Mãe de Deus e no apostolado constante. No início do mês de agosto de 1621, iniciaram os sintomas do que seria uma febre. Ninguém podia imaginar, mas certamente ele já percebia que o fim estava próximo.

O jovem de tão grande pureza estava prestes a entregar-se totalmente a Deus na eternidade. No dia 13 de agosto de 1621, padecia da enfermidade e tendo os olhos fixos no crucifixo, o rosário nas mãos juntos com as regras da Companhia de Jesus, que tanto amava, pronunciando os nomes de Jesus e Maria, indicava que sua peregrinação nesta terra encaminhava-se para o fim. Entregou, por fim, sua alma a Nosso Senhor, deixando todos edificados por sua inocência e santidade.

No dia 28 de Maio de 1865, foi beatificado durante o pontificado de Pio IX. No dia 22 de Janeiro de 1888, Leão XIII publicava a bula de canonização de São João Berchmans. Suas relíquias repousam na magnífica tumba na Igreja de Santo Inácio, em Roma, junto aos santos que tanto tivera devoção durante a vida: São Luiz Gonzaga e Santo Inácio de Loyola.


Fontes: The Life of Saint John Berchmans;

The Life of Blessed John Berchmans. Father Boero, S.J.

  1. Súplica aos Santos Anjos, conferir no artigo.
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