Sete Lições do Sagrado Coração de Jesus

“unus militum lancea latus ejus aperuit et continuo exivit sanguis et aqua” 1(S. Jo. XIX. 34)

A devoção ao Sagrado Coração de Jesus, hoje tornada mais popular e aos poucos novamente sendo entronizada nas famílias católicas, ganhou grande destaque com o serviço apostólico de S. Margarida Maria Alocoque, a vidente do Sagrado Coração, o coração que é fonte de amor para os homens e modelo de caridade. Mas como as mais profundas verdades da fé católica, esta devoção encontra eco desde os primeiros séculos e por toda a história da Igreja.

Especialmente no século XIV esta devoção ganhou destaque entre os monges da venerável ordem dos Cartuxos de S. Bruno. Nas décadas seguintes cresceu esse amor dos monges pelo Divino Coração, surgindo orações e atos de piedade incentivados pelos bispos locais. O abade da Grand Chartreuse, inspirado pela devoção, reuniu em uma obra atos de devoção e meditações vindos do Sagrado Coração que mais amou os homens. Destas meditações, retiramos sete lições.

 

Antiga talha do Sagrado Coração 1474)

 

 

I. Seguindo a Jesus, morremos verdadeiramente para o mundo e para o pecado

Primeiro, aprendemos que, renunciando ao mundo e ao pecado, verdadeiramente morremos com Jesus Cristo. Desta mesma forma que S. Agostinho desejou ser arrebatado quando disse: ‘ó meu doce Redentor, pelas chagas vivificantes que recebestes na cruz para nossa salvação, pelas sagradas Chagas que verteram Vosso Precioso Sangue pela nossa redenção, atravessai, eu vos suplico, a minha alma pecadora pela qual vos dignastes morrer; penetrai a minha alma inteiramente com os dardos ardentes de vossa suprema Caridade. Eu vos suplico, misericordiosíssimo Senhor, que penetrai meu coração com as flechas ardentes de vosso poderoso amor, que lágrimas de devota ternura jorrem abundantemente desta sagrada chaga. Atingi , ó Bom Jesus, este meu duro e insensível coração com a força irresistível de vosso Divino Amor, de modo que este amor somente preencha meus pensamentos e afetos.’

O mundo preparou ao Rei dos Reis uma coroa de espinhos [et plectentes coronam de spinis posuerunt super caput ejus], Que coroa o mundo prepararia a mim? Regnavit a ligno Deus – Nosso Senhor encontrou seu trono no alto da cruz, onde buscaria eu riqueza ou felicidade?

II. Ao morrer para o mundo e para o pecado, seremos feridos por Deus pela lança do divino amor

Este é o sentimento que a noiva exclama no Cântico dos Cânticos: ‘Feriste-me o coração, minha irmã, minha esposa’ (Cant. IV. 09). No diálogo do Cântico dos Cânticos, o Esposo, Nosso Senhor, tem o coração ferido, arrebatado, pela esposa, a alma devota. Não deveria esta chaga ser recíproca? Não deveria esse amor ser correspondido? “Removerei de vosso corpo o coração de pedra e vos darei um coração de carne” (Ez. 36, 26), peçamos a Deus que nos retire a dureza de coração e nos conceda esse coração de carne, capaz de dilatar-se em amor pelo Divino Redentor, que tem o coração abrasado por amor aos homens.

III. Cristo deixou abrirem-lhe o lado a fim de que, por esta porta, chegássemos ao seu Sagrado Coração e, uma vez ali, déssemos também o nosso

Diz o verso do belo canto Anima Christi: “Intra tua vulnera absconde me”, dentro de vossas chagas, escondei-me. O Sagrado Coração é abrigo para os fatigados que desejam repouso no Amor Divino: Discite a me quia mitis sum et humilis corde – aprendei de mim que sou manso e humilde de coração. Cristo aponta-nos o abrigo de onde devemos aprender as virtudes e crescer no seu amor. Ainda S. Agostinho dizia: “Cor ad cor loquitur”, coração fala ao coração, do Sagrado Coração recebemos as graças e junto a Ele, tornamos o nosso coração semelhante.

Se nosso amor por Nosso Senhor Jesus Cristo torna-se frio, olhemos para seu lado, traspassado por nós, e logo a chama do amor aquecerá novamente nossa alma. Sentimo-nos fracos quando sofremos aflições? Contemplemos os pés de Cristo, atravessados por pregos e banhados de sangue. Sim, contemplemos estes pés, que suportam o peso de todo o corpo. O Sagrado Coração é a cidade de refúgio que nos defende da ira do tremendo Juízo.

IV. Devemos conformar nossa vontade à vontade Divina, aceitando com resignação tudo o que Lhe é agradável

Cristo deixou abrir suas mãos e seus pés por nós, devemos consagrar a Ele nossas mãos e nossos pés, nossas ações e nossas obras. Acima de tudo, devemos oferecer nosso coração a Deus, conformando nossa vontade à Sua, em ação de graças pelas chagas de amor que Nosso Senhor Jesus Cristo recebeu por nós sobre a Cruz, quando seu Sacratíssimo Coração foi trespassado com o dardo de um amor insuperável. Quem poderia deixar de amar este coração ferido? Quem não amaria de volta Ele, que ama tanto? (Cor Arca, S. João Eudes).

Em sua agonia, nor Jardim das Oliveiras, Nosso Senhor nos deu o exemplo: Non mea voluntas, sed tua – não a minha vontade, mas a vossa. Apesar das dificuldades, devemos aceitar com resignação a vontade de Deus, que é a Sabedoria Eterna e tudo nos concede conforme o nosso bem. Além disso, devemos pedir esta graça a Deus: ao nos ensinar a rezar, Cristo nos deu um compêndio de tudo o que devemos pedir a Deus Pai. Conformar-se à vontade divina é a terceira das petições do Pai Nosso.

V. Devemos receber os Sacramentos com o mesmo fervor e devoção como se os recebêssemos visivelmente do Sagrado Coração

Deste mesmo evento da Paixão também aprendemos, de acordo com S. João Crisóstomo, que devemos receber os Sacramentos da Igreja com o mesmo fervor e devoção como se viessem até nós visivelmente do próprio Sagrado Coração de Jesus. A chaga de seu Sagrado Coração é a fonte dos Sacramentos. Assim como Eva foi formada a partir do lado do primeiro Adão que dormia no Paraíso, assim a Igreja recebeu vida por meio do Sangue e Água que jorraram do sagrado lado do segundo Adão, desacordado na Cruz.

VI. Todo coração ferido e abrasado no amor de Deus anseia por trazer outros corações

Se desejamos também nós seguirmos o exemplo do divino Redentor e consagrar nossas mãos e pés, nossas ações e nossas obras, inspirados por amor deste Coração, desejaremos também que nossos semelhantes amem este Sagrado Coração: Ignem veni mittere in terram, et quid volo nisi ut accendatur? – Eu vim trazer fogo à terra; e que quero eu, senão que ele se acenda? (Lc. XII. 49). Nosso Senhor quer abrasar o mundo com seu amor. Conformando-nos à sua vontade, desejaremos o mundo ardendo em amor pelo Divino Coração.

Por tantos Nosso Senhor ainda não é amado e, pior, ofendido. Nosso amor deve nos impulsionar a amá-Lo mais e a reparar as ofensas a Ele cometidas. Em nosso grande auxílio, Cristo nos concedeu a Grande Promessa, no ato de reparação a ser realizado nas primeiras sextas-feiras de cada mês.

VII. O Amor de Jesus é infinito e a chaga que este amor causou em seu coração nada pode recusar

Eis o Coração que tanto amou os homens que nada se poupou até exaurir-se e consumir-se para lhes manifestar o seu amor2

Olhai e vede, diz Nosso Senhor, a posição excruciante em que estou sobre a cruz. Meus braços estão abertos para saberdes que vos receberei a cada instante que vindes a mim. Meus pés estão pregados, para saberdes que jamais me afastarei de vós. Minhas mãos estão trespassadas, para saberdes que não fecharei nela para vós as graças de que precisais. Minha cabeça está coroada para pensardes na vanglória e vanidade do mundo. De meu lado saíram sangue e água, um para pagar vossos crimes, outro para lavar vossos pecados. Desta forma, pela virtude dos Sacramentos contidos nesta Água, eu vos libertei e redimi vossa inocência.

 

 

 

Este artigo foi produzido por um congregado da Seção da Boa Imprensa da Congregação Mariana da Imaculada Conceição e Santo Afonso de Ligório, Manaus, Amazonas. A reprodução deste conteúdo é livre, desde que se cite a fonte de origem. Para contato, envie-nos um e-mail

  1. Um dos soldados abriu-Lhe o lado com uma lança, e imediatamente saiu sangue e água
  2. Nosso Senhor a Santa Margarida Maria Alacoque

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