Viva Cristo Rei!

No dia 28 de outubro de 2018 comemoramos a Festa de Cristo Rei. Esta solenidade foi instituída em 1925 pelo papa Pio XI através da encíclica Quas Primas, a qual determinou que a Festa se realizasse todos os últimos domingos de outubro, tendo como principal objetivo relembrar aos fiéis a supremacia e a realeza de Nosso Senhor sobre todo o Universo.

O que é, afinal, o Reinado Social de Jesus Cristo?

Em poucas palavras, pode-se dizer que é a vigência da Lei de Deus e da moral cristã em todas as esferas da sociedade, isto é, o domínio de Cristo não apenas nas almas, nas consciências e nas inteligências, mas também nas realidades temporais nas quais estamos inseridos.

Nosso Senhor não deve ser Rei apenas de forma privada nos corações de cada indivíduo: o reinado nas almas deve se exteriorizar para todas as áreas da vida humana. Nosso Senhor deve reinar nas famílias, nas escolas,  nas universidades, nos locais de trabalho, nos órgãos  públicos, na política, na arte, na cultura.

Explica o Papa Pio XI os fundamentos teológicos pelos quais Cristo é Rei do Universo, dos quais se pode tirar que sua majestade se dá por triplo direito:

  1. Por geração eterna: Nosso Senhor é gerado do Pai antes de todos os séculos, sendo, portanto, da mesma natureza divina, isto é, Deus de fato. Desse modo, pode-se dizer que também o Verbo participou da obra da Criação de tudo o que existe, motivo pelo qual todas as coisas criadas devem estar a Ele sujeitas, prestando-lhe honra e glória.
  2. Por União hipostática: pela Encarnação, o Verbo reuniu em si as naturezas humana e divina, pelo que se pode dizer que é justo que as criaturas o adorem e o glorifiquem não apenas como Deus, mas também como homem. Nosso Senhor, tendo se feito carne, viveu as realidades humanas (exceto o pecado), santificando assim as obras temporais, as quais podem ser fonte de méritos para os homens, se feitas em amizade com Ele.
  3. Por Redenção: “Não fostes resgatados a preço de coisas perecíveis, prata e ouro, mas com o sangue precioso de Cristo, como de cordeiro sem mancha nem defeito 1”. Ora, Ele nos resgatou com o preço de Seu sangue, sem o qual estaríamos condenados. Desse modo, a Redenção institui seu senhorio sobre a raça humana, pois por meio de tão valioso resgaste, somos nós membros de Cristo.

Possíveis objeções

Poderá alguém alegar: tendo Nosso Senhor dito a Pilatos que seu reino não é deste mundo 2, buscar o Reinado Social não seria uma contradição às palavras do divino Mestre?

Explica-se: ao afirmar que seu reino não pertencia a este mundo, quis Nosso Senhor dizer que é um reinado sobretudo espiritual, não material. Todavia, esse reinado espiritual comunica-se com as realidades temporais, uma vez que somos formados não apenas da alma, mas também do corpo. Deste modo, inseridos nas realidades materiais que foram queridas por Deus, a majestade de Cristo deve governar também a dimensão civil e temporal, a qual irá se submeter às realidades eternas. Analogicamente, pode-se dizer que assim como o corpo deve ser submisso à alma, a realidade temporal deve ser submissa à realidade espiritual.

Do mesmo modo, quando diz Nosso Senhor “Dai, pois, a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus 3, não significa que abre mão de sua realeza social, mas exprime a divisão de jurisdição feita por Deus para o governo do gênero humano. É a chamada teoria das duas espadas, que vigorou eminentemente na Idade Média. Assim explica São Bernardo de Claraval:

Ambas as espadas, a saber, a espiritual e a material, pertencem à Igreja. Mas a material deve decerto ser brandida em favor da Igreja, e a espiritual pela própria Igreja. Aquela, pela mão do sacerdote; esta, pela mão do soldado, mas por indicação do sacerdote e por ordem do rei.

Respondidas as objeções, entende-se segundo a Sã Doutrina que Estado e Igreja devem, portanto, estar unidos em uma mútua concórdia, trabalhando para que a Lei de Deus governe e se estabeleça em todas as dimensões da vida humana. Evidentemente que cada qual possui encargos próprios de sua área de atuação, e é bom que assim seja. Desse modo, governantes devem se ocupar de ofícios próprios de seu cargo, deixando para os sacerdotes o pastoreio das almas, mormente as questões espirituais. Todavia, há questões mistas que envolvem tanto os assuntos civis como eclesiásticos e nesse ponto é crucial entender que, havendo possíveis conflitos, o Estado deve se submeter à Igreja, cuja missão é resguardar para que todas as realidades sejam inspiradas pelos princípios evangélicos e pela moral cristã.

Sobre isto, discorreu o Papa Leão XIII na Encíclia Imortale Dei, de 1885:

“Tempo houve em que a filosofia do Evangelho governava os Estados. Nessa época, a influência da sabedoria cristã e a sua virtude divina penetravam as leis, as instituições, os costumes dos povos, todas as categorias e todas as relações da sociedade civil. Então a religião instituída por Jesus Cristo, solidamente estabelecida no grau de dignidade que lhe é devido, em toda parte era florescente, graças ao favor dos príncipes e à proteção legítima dos magistrados. Então o sacerdócio e o império estavam ligados em si por uma feliz concórdia e pela permuta amistosa de bons ofícios.

Cabe dizer que a doutrina sobre o Reinado Social de Nosso Senhor deve ser crida e querida por todos os fiéis, que por sua vez devem se empenhar para estabelecer este reinado de modo efetivo em todas as dimensões em que se encontram. Assim, mesmo diante das dificuldades de nossos tempos, próprias de uma crise de fé e de moral ocasionada pela propagação de doutrinas erradas e pelo pensamento revolucionário, não se pode abrir mão desta verdade: Cristo é Rei e deve reinar não apenas nas paróquias e nas almas, mas em tudo. Todas as realidades criadas devem honrá-lo e a Ele estarem sujeitas. Diz a esse respeito a Quas Primas:

Com a celebração anual desta festa hão de relembrar-se, outrossim, os Estados, que aos governos e à magistratura incumbe a obrigação, bem assim como aos particulares, de prestar culto público a Cristo e sujeitar-se às suas leis. Lembrar-se-ão também os chefes da sociedade civil do juízo final, quando Cristo acusará aos que o expulsaram da vida pública, e a quantos, com desdém, o desprezaram ou desconheceram; de tamanha afronta há de tomar o Supremo Juiz a mais terrível vingança;

Quando a encíclica foi publicada, pode-se dizer que a Fé ainda reinava em muitos corações, portanto, a preocupação principal do pontífice era relembrar aos católicos que essa mesma fé deveria se refletir na esfera pública. Hoje, lamentavelmente, muitos expulsaram a Cristo também da esfera privada, sendo necessária uma luta e um apostolado constante para que a majestade de Nosso Senhor governe as almas, tantas enganadas e dominadas pelo erro e pela mentira.

Que tenhamos coragem de trabalhar pelo Reinado Social de Cristo, com orações e atitudes concretas de filhos de Deus. Sabemos que na consumação dos tempos, o Imaculado Coração de Maria triunfará 4 e que as portas do inferno não prevalecerão contra a Igreja de Cristo 5. Cabe a nós, portanto, lutar mesmo diante de tempos sombrios, sabendo que a vitória final já está garantida por Nosso Senhor, no tempo e nas condições em que Ele determinar.

Para encerrar, vejamos as belíssimas estrofes das Primeiras Vésperas da Festa de Cristo Rei:

A turba ímpia grita: Não queremos que Cristo Reine
Nós com júbilo te proclamamos
De todos supremo Rei.

Que te honrem publicamente
Os chefes das nações
E que mestres e juízes
Nas leis e artes Te exprimam.

Que brilhem a Ti dedicadas
Dos reis armas conquistadas
Teu doce cetro submete
A pátria e todos os lares

Cristo Vive, Cristo Reina, Cristo Impera! Viva Cristo Rei!

  1. I Ped. I, 18-19
  2. S. Jo. XVIII, 36
  3. S. Mat. XXII, 21
  4. Nossa Senhora aos três pastorinhos, em Fátima, 1917.
  5. S. Mt. XVI. 18
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